O Acordo

POV de Gabriela

O restaurante que o Alexandre escolheu tinha nome francês, cardápio em itálico e garçons que olhavam pra mim como se eu fosse uma mancha na toalha de linho. Lustres de cristal pendiam do teto. Velas tremulavam em castiçais de prata. Tudo ali cheirava a dinheiro velho e comida sem tempero.

O prato chegou. Um peixe branco com legumes ao vapor e um molho que parecia água com farinha. Olhei pro Alexandre. Ele olhou pra mim. Cutuquei o peixe com o garfo. Ele fez o mesmo.

"Morta há três dias", murmurei.

"Pelo menos."

Provei. Provei de novo. Deixei o garfo cair no prato e soltei uma risada que ecoou pelo restaurante inteiro.

"Desde quando você começou a gostar de comida ruim, Alex?"

As cabeças se viraram. Os garçons me olharam com desdém. Uma senhora de colar de pérolas franziu o nariz como se eu tivesse xingado a mãe dela.

"Desculpa", falei, ajeitando a postura e baixando a voz. Mas o sorriso não saía.

O Alexandre tava me olhando. Primeiro com choque. Depois com uma centelha de divertimento. E então ele riu. Uma risada baixa, genuína, que eu não ouvia há meses.

"É aquela Mariana que fez você gostar dessa comida sem sal, né?"

"Não tá tão ruim assim", ele disse, ainda rindo.

"Meu Deus." Balancei a cabeça, apoiando os cotovelos na mesa. "O que ela fez com você?"

Antes que ele pudesse responder, me levantei. Puxei a mão dele.

"O que você tá fazendo?"

"Te salvando. Vem."

Ele hesitou por um segundo. Depois sorriu, jogou o guardanapo na mesa e me seguiu.

Eu levei ele pra um boteco na periferia da cidade. Chão de cimento, mesas de plástico, um senhor de avental manchado atrás do balcão. O cheiro era de alho, cebola, carne grelhada e tempero caseiro. O tipo de lugar onde a comida vinha quente e a cerveja vinha gelada.

"Gabriela..."

"Senta."

Ele sentou. Pedi o prato do dia. Arroz, feijão, bife acebolado, batata frita e farofa. Nada de molho francês. Nada de legumes ao vapor. Comida de verdade.

O Alexandre olhou pro prato. Depois pra mim. Depois pro prato de novo.

"Prova."

Ele provou. Os olhos se fecharam. "Isso é muito bom."

"Eu sei."

Comemos. Rimos. Ele me contou de uma reunião que deu errado com um investidor japonês. Eu contei da vez que a Bruna tentou fazer um jantar chique e queimou até a salada. O clima foi ficando leve. Natural. Como se não houvesse uma Mariana no mundo. Como se não houvesse um noivado.

E então, no meio da farofa e da cerveja, eu perguntei.

"Ô namorado, quando você vai me explicar o que tá acontecendo?"

O garfo dele parou no ar.

"Gabriela..."

"Você disse que fez aquilo por mim. Que era pro meu bem. Eu tô confiando, mesmo sem entender nada. Mas uma hora você vai ter que me contar."

Ele pousou o garfo. Me olhou nos olhos.

"Um dia eu vou explicar tudo. Prometo. Até lá, você precisa confiar em mim."

"A mesma conversa de sempre."

"Porque é a verdade."

Soltei um suspiro e me recostei na cadeira. "Você vai ter que me dar um Porsche e uma garrafa cara de vinho por confiar tanto em você."

Ele sorriu. "Eu te dou mais."

"Mais o quê?"

"Mais do que um Porsche. Mais do que vinho." Ele apoiou os cotovelos na mesa e se inclinou. "A gente precisa selar esse acordo."

"Cadê o contrato e a caneta?"

"Meus lábios são o contrato." Ele deslizou a mão sobre a mesa e tocou os meus dedos. "E os seus são a caneta."

Senti o rosto queimar. Abri a boca, fechei, abri de novo. Ele nunca falava assim. Nunca. Três anos juntos e o Alexandre sempre foi contido, prático, avesso a metáforas românticas.

"Você bebeu", murmurei.

"Não. Você que me deixou tonto."

"Garçom!" Minha voz saiu mais alta do que devia. "Uma garrafa de tequila, por favor!"

Ele riu. Eu ri. E o resto da noite foi uma sucessão de shots, risadas e conversas que não faziam sentido. A tequila descia queimando e eu sentia o mundo ficar mais leve. A mão dele no meu joelho. O meu ombro encostado no dele. O bafo quente perto do meu ouvido.

"Gabriela."

"O quê?"

Ele me beijou.

Não foi um beijo rápido. Foi um beijo de saudade. De três anos. De tudo que a gente viveu e do que ainda não tinha vivido. As mãos dele seguraram o meu rosto. As minhas agarraram o colarinho da camisa dele. O boteco sumiu. A música sumiu. Só existia ele.

"Vamos pra sua casa", ele sussurrou.

Assenti. Ele pagou a conta. Me levou até o carro. No caminho, as mãos entrelaçadas no câmbio. O silêncio carregado de expectativa.

Quando chegamos no meu prédio, subimos as escadas como dois adolescentes. Ele me beijou contra a porta. Depois no corredor. Depois na sala. As peças de roupa foram caindo pelo caminho.

Mas quando chegamos no quarto, quando a luz da rua entrou pela janela e iluminou o rosto dele, eu parei.

Olhei pra ele. Pros olhos castanhos que eu amava. Pra boca que tinha beijado outra no palco. Pra aliança que não tava no meu dedo, mas no de outra.

"Não."

A palavra saiu baixinha. Trêmula.

"Gabriela..."

"Não consigo." As lágrimas subiram, mas eu pisquei forte. "Toda vez que eu fecho os olhos, vejo você beijando ela. Vejo você anunciando o noivado. Vejo o sorriso dela."

Ele fechou os olhos. A testa encostou na minha.

"Me desculpa."

"Não é culpa sua." Passei a mão no rosto dele. "Quer dizer, é. Mas não é só isso. Eu só... eu preciso de tempo. Preciso entender. Preciso que você me explique o que tá acontecendo."

"Eu vou explicar."

"Quando?"

"Quando for seguro."

"Não é suficiente."

Ele me olhou. E havia tanta dor naqueles olhos que eu quase voltei atrás. Quase.

"Tá bem", ele disse. "Se você precisa de tempo... eu espero."

Ele me beijou a testa. Depois pegou o paletó, calçou os sapatos e caminhou até a porta.

"Alexandre."

"O quê?"

"Obrigada pelo almoço. E pelo jantar. E por... por ser você."

Ele sorriu. Um sorriso triste.

"Obrigado por ainda estar aqui."

E saiu.

Fechei a porta. Encostei as costas na madeira. E deixei as lágrimas caírem.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App