A Armadilha

POV de Gabriela

Eu não bati na porta. Invadi a sala do Alexandre como um furacão, as mãos ainda tremendo, o eco das palavras da Mariana martelando na minha cabeça. Você é a minha secretária agora.

Ele estava sentado atrás da mesa, os olhos fixos em uns papéis que provavelmente nem tava lendo. Levantou a cabeça quando entrei, e o que eu vi no rosto dele me deu vontade de chorar e gritar ao mesmo tempo. Culpa. Ele tava com culpa.

"Alexandre, o que tá acontecendo?"

Ele suspirou. "Gabriela, eu..."

"A Mariana disse que eu sou secretária dela. Secretária. Depois de três anos construindo essa empresa com você, eu virei secretária da sua noiva?"

"Eu não queria." A voz dele saiu baixa, quase um sussurro. "Mas... você é a secretária da Mariana agora."

"Como assim?" Me aproximei da mesa, as mãos apoiadas na madeira. "Como assim você concorda com isso? Você me rebaixou? Pra ela?"

"Você vai ajudar a Mariana. Só concordei com isso porque você é a única em quem eu confio pra fazer isso."

"Confia em mim?" Uma risada amarga escapou da minha boca. "Você confia em mim, mas anuncia noivado com outra na minha frente. Confia em mim, mas me rebaixa a secretária. Confia em mim, mas me humilha na frente de todo mundo. Que confiança é essa, Alexandre?"

Ele se levantou, contornou a mesa, tentou segurar a minha mão. Eu recuei.

"Por que você tá fazendo isso comigo?"

"Eu não posso te dizer agora." Os olhos castanhos encontraram os meus. "Mas é pro seu bem. Você precisa confiar em mim."

O sangue subiu pra minha cabeça. "Pro meu bem?"

"Gabriela..."

"Pro meu bem?" repeti, a voz mais alta agora. "Me humilhar, me tirar o cargo que eu construí com as minhas próprias mãos, me jogar aos pés daquela cobra... isso é pro meu bem?"

"Você não entende."

"Não, não entendo. E quer saber? Não quero entender."

Me virei e saí batendo a porta com tanta força que o vidro tremeu. Fiquei parada no corredor, a respiração ofegante, o coração disparado. As pessoas passavam e me olhavam. Eu não me importava mais. Já tinha passado da vergonha.

"Gabriela!"

A voz da Mariana soou atrás de mim como uma faca. Doce. Afiada.

"Pode vir aqui na minha sala? Preciso de você."

Fechei os olhos. Respirei fundo. E fui.

Quando entrei, ela tava recostada na cadeira que um dia foi minha. Os pés em cima da mesa. As unhas vermelhas tamborilando no braço do sofá. Os olhos verdes brilhando com aquela satisfação que me dava ânsia.

"Fecha a porta, por favor."

Fechei.

"Senta."

"Senta? Você quer que eu sente?"

"Quero." Ela sorriu. "Afinal, você é a minha secretária agora. E secretárias obedecem."

Fiquei de pé mesmo assim. "O que você quer, Mariana?"

Ela se levantou devagar. Contornou a mesa. Aproximou-se de mim com passos lentos, calculados, como uma gata brincando com um rato antes de matar.

"Eu quero que você entenda uma coisa." Parou a centímetros do meu rosto. "Você vai fazer tudo que eu mandar sem questionar. Tudo. Você é a minha cachorrinha agora."

Apertei os punhos. "Você nem parece aquela estagiária que me bajulava tanto."

"Eu nunca fui." O sorriso alargou-se. "Só queria ganhar a sua confiança, Gabrielazinha."

"Por quê?"

"Porque eu quero tudo que você tem."

Franzi a testa. "Eu não tenho nada. Sou filha de costureira. Não tenho dinheiro, não tenho nome, não tenho poder. O que você quer de mim?"

Os olhos dela brilharam. "Você tem o Alexandre. Ou tinha. Ele ainda gosta de você. E isso me incomoda."

"Então é isso? Ciúmes?"

"Ciúmes?" Ela riu. Um riso seco, cruel. "Não, querida. Isso é guerra. E eu vou ganhar."

Olhei pra ela. Pra aquela garota de vinte e dois anos que eu mesma treinei, que eu ajudei, que eu ensinei tudo sobre a empresa. E senti uma raiva tão grande que as mãos começaram a tremer.

"Você é má", sussurrei.

"Sou. Mas sou mais esperta que você." Ela olhou de relance pra porta e, de repente, o sorriso mudou. Ficou mais doce. Mais falso. "Sabe, Gabriela... eu só queria que você me respeitasse."

"O quê?"

"Eu só queria que você me aceitasse como sua chefe. Só isso. Não precisava me odiar tanto."

"Mariana, do que você tá..."

E então eu vi. Pelo canto do olho. Uma sombra atrás do vidro da porta.

Alexandre.

Ela sabia. Ela tinha visto ele se aproximar.

Num instante, o rosto dela se transformou. Os olhos se encheram de lágrimas. A boca tremeu. Ela deu um passo atrás, as mãos no peito, como se estivesse aterrorizada.

"Por favor, não me bata de novo, Gabriela! Eu só quero ajudar!"

"Você tá louca? Eu não vou te bater!"

"Eu só pedi um relatório! Não precisa me humilhar assim!"

A porta abriu.

"O que tá acontecendo aqui?"

A voz do Alexandre encheu a sala. Mariana correu pra ele, as lágrimas já escorrendo, o corpo tremendo como uma folha.

"Alex! Ela me ameaçou! Disse que eu não merecia o cargo, que eu era uma impostora, que ia me fazer pagar por ter roubado o lugar dela! E quando eu tentei me acalmar, ela..."

"Não foi isso! Ela que me provocou! Ela me chamou de cachorrinha!"

Alexandre abraçou a Mariana. Os olhos castanhos se cravaram em mim. Não tinha mais culpa ali. Só tinha decepção.

"Gabriela, sai da sala."

"Alexandre, você não viu. Ela armou isso. Ela mudou o tom quando você chegou!"

"Sai. Da. Sala."

A Mariana virou o rosto devagar. Só o suficiente pra que eu visse. E sorriu. Aquele sorriso minúsculo, quase invisível, que só eu podia ver. O sorriso de uma víbora que acabou de dar o bote.

E eu saí.

As pernas se moveram sozinhas. A porta se fechou atrás de mim com um clique suave. Do outro lado do vidro, Alexandre enxugava as lágrimas da Mariana, os braços em volta dela como uma gaiola de proteção.

Ninguém viu a verdade.

Ninguém acreditou em mim.

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