A Queda

POV de Gabriela

O rosto dele estava a centímetros do meu. Os mesmos olhos castanhos que eu passei três anos amando. A mesma boca que sussurrava promessas no escuro. O mesmo homem que subiu naquele palco e beijou outra na minha frente.

Minha mão saiu antes que eu pensasse.

O tapa estalou nas escadas como um chicote. A cabeça do Alexandre virou com o impacto, a marca dos meus dedos já avermelhando a pele dele.

"Como você pôde fazer isso comigo?"

Minha voz saiu um fio. Um fio rachado, quebrado, cheio de lágrimas que eu não conseguia mais segurar.

Alexandre ficou parado. Não revidou. Não gritou. Só ficou ali, me olhando como se merecesse aquele tapa. Como se merecesse cem.

"Três anos." As palavras saíam aos soluços. "Três anos esperando. Três anos sendo a sua parceira estratégica. A sua amante secreta. A mulher que arrumava a sua gravata e aquecia a sua cama e ouvia as suas mentiras. E você anuncia o noivado com a minha estagiária? Na minha frente?"

"Não foi..."

"Você me humilhou!" Eu bati no peito dele com as duas mãos. "Você me destruiu na frente de todo mundo! Eu tava ali, Alexandre! Eu tava na plateia! Vendo você beijar ela!"

Ele me deixou bater. Deixou que eu desabafasse a raiva, as lágrimas, os três anos de silêncio. E quando minhas forças acabaram, quando meus braços caíram moles ao lado do corpo, ele me abraçou.

Me puxou contra o peito dele com uma força que era quase desespero. Uma mão nas minhas costas. A outra na minha nuca.

"Eu fiz aquilo por você."

A voz dele saiu baixa, abafada contra o meu cabelo.

Eu congelei. "O quê?"

"Não posso explicar agora. Mas você precisa confiar em mim."

Me afastei o suficiente pra olhar no rosto dele. Procurei a mentira. A falsidade. O cinismo. Mas o que eu vi nos olhos castanhos me desmontou.

Sinceridade.

Ou ele era o melhor mentiroso do mundo, ou estava falando a verdade.

"Você fez... por mim?"

"Por você. Por nós." Ele segurou o meu rosto com as duas mãos, os polegares limpando as lágrimas que ainda escorriam. "Gabriela, eu sei que parece impossível. Sei que o que eu fiz foi imperdoável. Mas você precisa confiar em mim."

"Como? Como que eu confio em você depois do que você fez?"

"Porque você me conhece. Porque você sabe que eu não faria isso sem um motivo." Ele encostou a testa na minha. "Por favor. Só... por favor."

Eu devia ter empurrado ele. Devia ter ido embora. Mas meus pés não se mexiam. Minhas mãos não soltavam o tecido do paletó dele.

Três anos de amor não somem num estalar de dedos. E talvez, no fundo, eu ainda quisesse acreditar que existia uma explicação. Que o homem por quem eu me apaixonei não era o monstro que o palco mostrou.

"Me leva pra casa", sussurrei.

Ele assentiu. Tirou o paletó e colocou sobre os meus ombros. Me guiou pelas escadas, pelo estacionamento, até o carro. Não falou nada no caminho. Nem eu.

Quando chegamos no meu prédio, ele abriu a porta pra mim.

"Eu vou explicar tudo. Quando puder. Juro."

Não respondi. Só entrei.

Dormi mal. Acordei pior. Os olhos inchados, a cabeça pesada, o peito apertado. Mas eu fui trabalhar. Porque não sabia fazer outra coisa.

A empresa estava igual. Os mesmos corredores. O mesmo cheiro de café e papel. Mas nada parecia igual. Eu não era mais a Diretora de Projetos Especiais. Era a mulher que o chefe trocou por uma estagiária.

Quando abri a porta da minha sala, parei.

Mariana estava sentada na minha cadeira.

Os pés em cima da minha mesa. As unhas vermelhas tamborilando no braço do meu sofá. Os cabelos ruivos brilhando sob a luz da janela que um dia foi minha.

Ela sorriu.

Um sorriso doce. Falso. Ensaiado na frente do espelho.

"Bom dia, Gabriela."

"O que você tá fazendo na minha sala?"

"A sua sala?" Ela inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando de divertimento. "Ah, você ainda não sabe."

"Saber o quê?"

Mariana levantou-se devagar. Contornou a mesa. Aproximou-se de mim com a calma de quem tem todas as cartas na mão.

"O Alexandre não te contou? Que descuido." Ela parou a centímetros do meu rosto. "Você não é mais a Diretora de Projetos Especiais, Gabriela."

O chão fugiu debaixo dos meus pés.

"Você é a minha secretária agora."

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