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Uma noite especial para os mocinhos dessa história

Passei pelo menos uma hora e meia me arrumando, fiquei em dúvida entre um conjunto de moletom e um casaco de lã que estava usando na viagem até aqui. Olhando no espelho, o casaco é a melhor opção, vesti uma calça jeans, peguei minha bolsa de couro pequena e passei um gloss. É oficial, tô pronta pra primeira saída noturna desse verão.

As luzes amarelas e acolhedoras do The Sloop Inn refletiam nas águas escuras do porto de St Ives. Dentro do pub tinha um burburinho constante de risadas e conversas que abafavam o som do vento lá fora.

Mal tive tempo de procurar Nicholas e uma mão se ergueu ao fundo do salão. Era ele, vestindo uma camisa de flanela xadrez aberta sobre uma camiseta cinza, inacreditavelmente parecia ainda mais atraente sob a iluminação intimista do pub.

Ao me aproximar vi ele e seus dois amigos sentados, era uma mulher loira de cabelos curtos e sorriso simpático, e um rapaz alto e ruivo.

- Ettie! Você veio - Falou Nicholas, abrindo um sorriso que fez os seus olhos brilharem. Ele tocou suavemente o meu ombro ao puxar uma cadeira. - Que bom que veio agasalhada. Esta é a Chloe e este é o Sam. Eles trabalham comigo na escola de surfe e na RNLI.

- Olá! - Cumprimentei, sorrindo um pouco tímida enquanto me acomodava.

- Finalmente conhecendo a lendária londrina dos três segundos! - Chloe exclamou, rindo de forma expansiva. - Nick não parou de falar sobre o seu ''resgate'' ontem e sobre como você dominou a prancha hoje. Prazer enorme, Ettie!

- O prazer é meu - Respondi, sentindo o rosto esquentar.

O garçom aproximou-se e todos nós fizemos os pedidos e pedimos cerveja de gengibre artesanal, a ginger beer, e suco de maçã quente com canela.

- Então esta é a londrina que desafiou o Atlântico com um mapa do metrô debaixo do braço! - Chloe exclamou, abrindo um sorriso contagiante.

- Eu não sabia que o mar aqui sobe como um elevador desgovernado. Minha dignidade e o meu livro de romance ficaram boiando na água.

- Isso é muito comum, pra uma primeira vez aqui - Sam interveio, inclinando o corpo robusto para a frente e piscando de forma cúmplice - Nick não perdeu a oportunidade de ser o herói, não é? Típico dele.

- Ei! Eu estava cumprindo o meu dever cívico - Nicholas protestou, erguendo as mãos em sinal de inocência, mas com os olhos brilhando de diversão enquanto olhava para mim. - E, para sua informação, Sam, a Ettie foi uma aluna exemplar hoje de manhã. Ela ficou de pé na prancha.

- Um feito e tanto - Chloe ergueu as sobrancelhas, genuinamente impressionada, largando o menu na mesa. - Com o mar picado de hoje cedo? Garota, você tem o meu respeito. Normalmente os novatos passam os primeiros quarenta minutos engolindo água salgada.

- Foram apenas três segundos gloriosos - Ponderei, estava feliz por ter mandado bem na primeira vez surfando. - Logo depois eu levei um caldo espetacular e acho que metade da areia da praia foi parar no meu Neoprene. Mas a sensação foi incrível.

- Três segundos na Porthmeor, na primeira tentativa, equivalem a trinta segundos em qualquer praia de mar calmo por aí - Nicholas afirmou, sua voz soou mais baixa e firme, direcionada quase que exclusivamente a mim. - Eu disse que você tinha talento.

- Ah, vejam só o instrutor orgulhoso - Sam cantarolou, cutucando ele com o cotovelo. - Amanhã ele vai querer colocar uma foto dela no mural de conquistas da escola de surfe.

- Deixe o menino trabalhar - Chloe riu, pegando o copo de cerveja de gengibre artesanal que o garçom acabara de trazer e erguendo-o no ar. - Um brinde à Ettie, que sobreviveu à maré da Cornualha e que oficialmente inaugurou suas férias aqui!

- À Ettie! - Sam e Nicholas ecoaram em coro.

Erguei meu copo de suco de maçã quente com canela, meus olhos cruzando com os de Nicholas no meio do caminho. O tilintar dos copos foi abafado pelo burburinho acolhedor do pub, mas o calor que subiu pelo meu peito não tinha nada a ver com a bebida.

A conversa fluiu com facilidade. Sam era hilário e contou as histórias mais absurdas sobre os turistas que já teve que orientar na praia, eu compartilhei sobre o que achei de tudo que já conheci até agora. A comida chegou logo em seguida, exalando um aroma irresistível, travessas generosas de fish and chips legítimos, com o peixe fresco empanado em uma massa leve e crocante, batatas rústicas perfeitas e o tradicional purê de ervilhas, mushy peas, além de tortas salgadas de carne de caranguejo.

Uma pontada desconfortável atingiu meu estômago, Chloe e Nicholas começaram a discutir os detalhes técnicos de um novo campeonato de surfe local, ela estava bastante próxima dele e mostrava algo no celular, eles riam e talvez fosse alguma piada interna deles, mas quando ela tocava de leve no braço dele eu sentia vontade de tirar ela de perto dele. Havia uma intimidade inegável ali, construída por tempo de convivência. Senti que era uma intrusa, a turista que não pertencia àquele mundo de sol e ondas. Dei um gole demorado no meu suco de maçã, desviando o olhar para a lareira do pub, sentindo um ciúme bobo e silencioso crescer no meu peito.

Sam inclinou-se na minha direção com um sorriso cúmplice.

- Não liga para esses dois. Se deixar, eles passam a noite discutindo marcas de cera para prancha e tipos de neoprene.

Nicholas cortou a própria fala no mesmo segundo, ele olhou para mim.

- Desculpe, Ettie. Às vezes a gente esquece que o resto do mundo não vive em função das ondas - Ele disse, com a voz suave, ignorando o celular que Chloe ainda segurava.

- Está tudo bem - Sorri, tentando disfarçar. - Vocês parecem ter muita em comum.

- Ah, nós temos! - Chloe interveio alegremente, esticando o braço para dar um tapinha brincalhão no ombro dele. - Conheço esse cabeça-dura desde que ele tinha doze anos e usava aparelho. Eu sou praticamente a irmã mais velha que ele não teve. Na verdade, meu noivo vive dizendo que ele passa tempo demais na nossa casa comendo nossa comida.

Senti o peso no peito desaparecer instantaneamente. O alívio foi tão físico que quase soltei o ar com força. Chloe tinha namorado, eu tinha entendido errado a proximidade deles. Era um pouco assustador como ele mexia comigo e nem conhecemos o suficiente para que ele ser solteiro seja algo que me interesse, tentei não pensar sobre isso.

Por volta das onze da noite, Sam e Chloe se despediram, alegando que precisavam acordar cedo para revisar botes salva-vidas. Sai sozinha com Nicholas, caminhávamos lado a lado pelo calçadão de pedra do porto que estava vazio. O vento da noite estava frio e bagunçou meu cabelo, Nicholas parou de andar e levou a mão até meu cabelo pra ajeitar, os dedos dele roçaram de leve na linha da minha mandíbula, enviando um arrepio por todo o meu corpo.

- Você ficou quieta por um momento lá dentro - Ele disse baixinho, os olhos fixos nos meus. - Espero que meus amigos não tenham te assustado. Especialmente a Chloe, ela fala demais.

- Não, eles são legais - Respondi. - É só que... vocês são tão sintonizados. Pensei por um minuto que... bem, que houvesse algo a mais.

Ele soltou uma risada curta e deu mais um passo, reduzindo a distância entre nós a quase nada. Havia uma intensidade absurda no olhar dele.

- Com a Chloe? Deus me livre, ela me mataria se eu tentasse algo. Ela é de longe a pessoa mais assustadora da RNLI - Brincou ele, antes de deixar o tom de sua voz sério e profundo. - Ettie... eu chamei eles porque queria que você conhecesse mais sobre o meu mundo, e também te chamei porque o meu interesse está cem por cento aqui, na londrina que mesmo caindo da prancha, ou sendo arrastada pela maré, é encantadoramente bonita.

O meu coração errou algumas batidas, não esperava ouvir isso e nem imaginei que gostaria tanto de ouvir. Eu senti sinceridade nas palavras dele, ditas de forma tão direta me encantou por completo.

- Então... Eu te impressionei? - Sussurrei, uma faísca de diversão passou no olhos dele.

- Com toda certeza! - Afirmou, os dedos dele deslizando de leve pelo meu rosto. - Agora, se você não quiser congelar antes do fim de semana, é melhor você ir agora. Temos uma caminhada longa pelas falésias de Land's End no sábado, e eu preciso da minha melhor aluna inteira.

Quando parti notei algo, o frio da Cornualha já não parecia me incomodava em nada.

Fechei a porta de madeira da cottage e encostei as costas nela, soltando um longo suspiro. Percebi o silêncio do vilarejo à noite, quebrado apenas pelo som distante e constante das ondas quebrando no porto, era o oposto do barulho de Londres e eu estava amando isso. Tirei o casaco, liguei a lareira para espantar o frio e me deitei na cama sob cobertas grossas. Dei uma olhada no meu celular, a tela acendeu e tinha uma nova mensagem.

Nicholas: Acabei de chegar em casa e checar a previsão. Sem maré surpresa para amanhã, prometo. Só queria garantir que a londrina mais corajosa de St Ives chegou bem e está aquecida .

Senti o pulo bobo do meu coração, e cada vez mais parecia algo natural. Digitei imediatamente.

Henrietta: Sã, salva e muito bem aquecida perto da lareira! comi o melhor peixe com batatas da minha vida. Obrigada pela noite, Nick. Seus amigos são incríveis.

Nicholas: Eles adoraram você. O Sam já está planejando te dar um uniforme oficial da escola de surfe. Mas eu disse que você é exclusividade minha por suas semanas. Dorme bem, Ettie. Mal posso esperar pelo nosso sábado.

Notei o uso da palavra "exclusividade" e senti uma alegria genuína. Mordi o lábio inferior antes de responder.

Henrietta: Exclusividade aceita, salva-vidas. Dorme bem. Até amanhã às nove.

Nicholas: Até amanhã, linda.

Bloqueei o celular com um sorriso gigante no rosto e o coloquei no criado-mudo. Me virei de lado, puxando as cobertas até o queixo, ouvindo o som do mar da Cornualha, seria uma ótima noite de sono. De alguma forma sabia exatamente com quem - e com quais olhos verdes - iria sonhar.

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