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O herói e heroína se aproximam

O despertador tocou às 7h30, mas não era necessário, eu já estava a acordar a uma hora, abri as janelas e uma brisa salgada invadio a cottage. O céu estava limpo, exibindo um azul pálido, por incrível que pareça, até mesmo mim, eu estava pronta para aquele dia. Tinha passado a noite lavando a canga e a bolsa, e tive sorte que o notebook está são e salvo, ocupei minha mente o tempo todo com afazeres, mas a verdade era que eu estava nervosa com a aula de surfe com o Nicholas, não sei porque mas esse cara está na minha cabeça e eu só conheci ele ontem, devia pensar muito bem antes de deixar acontecer alguma coisa, mas estou falhando nisso.

Vesti um maiô, e joguei um moletom e um short por cima. Caminhei até a praia, a areia ainda estava um pouco fria sob os meus pés, avistei o canto esquerdo da praia e lá estava Nicholas. Ele já usava a parte de baixo de uma roupa de neoprene preta, com as mangas amarradas na cintura, revelando as costas largas e os braços definidos enquanto organizava pranchas de espuma coloridas na areia. Parei por alguns segundos apenas para admirá-lo. Havia uma segurança natural na forma como ele se movia - ele pertencia àquele lugar, quando ele me viu um sorriso aberto iluminou seu rosto, eu gostei dessa reação mais do que deveria.

- Você veio! - Exclamou, caminhando até mim. - Pronta para o gerenciamento de risco?

- Se eu congelar, a culpa é inteiramente sua - Brinquei, embora o meu coração já estivesse batendo rápido e eu não sentia frio algum. Ele riu e me entregou uma roupa de borracha grossa. Enquanto os outros alunos - um casal de turistas alemães e duas crianças locais - se trocavam.

Já pronta, observava a postura de Nicholas. No momento em que a aula começou, a energia provocativa dele deu lugar a uma competência admirável. Ele explicava a dinâmica das correntes com clareza, demonstrava os movimentos na areia com precisão e tratava as crianças com uma paciência enorme. Fiquei fascinada de ver o quanto ele respeitava o oceano e como transmitia isso de forma leve.

Quando chegou a minha hora de entrar na água, o choque térmico me fez prender a respiração, mas não iria desistir, subi na prancha. Não demorou muito e ele já estava ao meu lado, segurando a borda da prancha.

- No seu tempo, Ettie. Concentre-se no horizonte, não olhe para baixo - ele instruiu, a voz firme e calma transmitindo total segurança.

Após algumas tentativas desajeitadas e muitos caldos que terminaram em risadas, uma onda perfeita se aproximou. Ele posicionou a prancha.

- Agora, Ettie! Rema, rema! - ele comandou.

Remei com força. Senti a prancha deslizar na crista da onda. Num impulso de adrenalina, me levantei. Por três segundos gloriosos, surfei, o vento frio batendo no rosto e a sensação de liberdade pura correndo pelas veias. Caí na água logo em seguida, mas emergi limpando o sal dos olhos, cuspindo água e gritando de alegria.

Ele estava nadando em minha direção, aplaudindo, e parecia orgulho de mim.

- Três segundos! - ele comemorou, parando bem perto de mim. A proximidade na água fez com que nossos ombros se tocassem. - Você foi incrível. Tem certeza de que nunca fez isso nas águas do Tâmisa?

- Acho que o instrutor é que é bom demais - Respondi, os lábios trêmulos de frio, com o olhar fixo nele. Nicholas sorriu, e mais uma vez fui afetada por ele.

- Eu adoraria aceitar o crédito, mas o talento é todo seu. Só acho que, para uma surfista profissional desse nível, só precisamos melhorar o aquecimento pós-praia.

- Mais chocolate quente? - Perguntei.

- Eu estava pensando em algo mais autêntico. Há um pub escondido perto do porto chamado The Sloop Inn. Eles servem o melhor fish and chips da Cornualha. E, se você me der a honra, eu gostaria de te levar lá, quando você quiser.

Foi a minha vez de sorrir, sentindo uma onda de calor que nada tinha a ver com o clima.

- Eu aceito o convite. Mas como vamos combinar o horário e tudo mais? Eu não trouxe meu celular comigo pra cá.

Ele estendeu a mão, pedindo a prancha para voltarmos para a areia.

- Vamos resolver isso à moda antiga.

Quando voltamos para a areia seca, ele pegou uma caneta preta de sua bolsa de salva-vidas, segurou delicadamente o meu braço esquerdo e afastou a manga da roupa de mergulho e escreveu o próprio número de telefone diretamente no meu braço.

- Prontinho - ele disse, bastante animado. - Agora você tem meu número.

- Estratégia brilhante, salva-vidas - Falei olhando para os números desenhados no meu braço.

Duas horas depois, eu já estava de volta á cottage. Tomei um banho escaldante, coloquei meias grossas de lã e saboreava uma xícara de chá enquanto olhava o mar pela janela. Peguei meu celular e vi três chamadas perdidas do meu pai. Retornei a ligação imediatamente.

- Ettie! Até que enfim - a voz do meu pai ecoou do outro lado. - Como estão as coisas por aí? Vai voltar quando?

- Oi, pai... vou ficar aqui só duas semanas e tá tudo bem por aqui.

- Ótimo, tem um jantar com gente importante e eu queria você aqui. Jack, o filho de um amigo, voltou da faculdade e quero apresentar você para ele, é um bom rapaz.

Afastei o telefone, era realmente o que eu precisava, o meu pai tentando arranjar um par pra mim. Tentei não ficar irritada com ele.

- Sério, pai? Sabe... acho que não vai ser necessário me apresentar ao filho do seu amigo.

- Não? Por que, querida?

Respirei fundo.

- Eu não quero discutir, o senhor tentou me impedir de me inscrever na faculdade de moda, agora quer me arranjar um relacionamento? Pai, quando eu quiser um relacionamento eu mesma procuro.

- O Arthur disse que ele é um jovem brilhante, analista sênior em uma multinacional em Londres, mas que está passando uma temporada na filial de Bristol. É da sua área! Vocês teriam tanto em comum...

- Pai, eu vim para a Cornualha exatamente para fugir do mundo empresarial. Eu passei os últimos anos cercada por caras de terno que só sabem falar de metas, bônus, trânsito na linha Central. A última coisa que eu quero é um encontro arranjado com um cara igual aos que trabalham comigo.

- Bem, se você diz... Mas não custa nada tomar um café...

- Custa a minha paz - Ri, embora soubesse que ele não se daria por vencido. - Olha, eu preciso ir. Tenho que arrumar umas coisas aqui. Prometo que ligo no fim de semana. Beijo, te amo!

Ao desligar, joguei o celular na cama e bufei. A ideia de passar uma noite conversando sobre o mercado financeiro com um londrino engomado parecia um castigo. Então lembrei do número que salvei antes de ligar pro meu pai, o que estava escrito no meu braço. Com o coração dando um salto bobo de expectativa digitei uma mensagem.

Henrietta: Descobri que sou um péssimo caderno. Quase sumiu o ''7'' na hora de tirar a roupa de borracha, mas sobrevivi. Aqui é a Ettie (a londrina que sobreviveu a 3 segundos de onda).

Não se passaram nem trinta segundos antes de a tela acender.

Nicholas: 3 segundos na primeira aula é digno de nota oficial na associação de surfe, Ettie. Fico feliz que o número tenha resistido. Como você está?

Henrietta: Milagrosamente bem! Apesar do frio, valeu a pena a aula.

Nicholas: Gerenciamento de risco impecável. Gostei de ver.

Sorri, e outra mensagem dele chegou.

Nicholas: The Sloop Inn, às noves da noite?

Ps: Uma amiga e um amigo vão estar lá tem algum problema?

Henrietta: Claro, te espero lá.

Ps: Não tem nenhum problema.

Tirei os olhos do celular e susperei, hoje tinha sido um dia muito bom.

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