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O Amor Que A Maré Me Trouxe
O Amor Que A Maré Me Trouxe
Por: Eleanor Sophie Boyd
Quando o herói surgiu na vida da heroína

Estava a horas dirigindo até St Ives, na Cornualha. Estou longe de casa, porém a outra opção era passar as férias discutindo com meu pai, eu sei que ainda vou ouvir muitas coisas do meu pai por escolher a faculdade de designer de moda, mas como ele pode achar que eu continuaria trabalhando na empresa dele? Eu não tenho nada haver com o meio corporativo, sinto a frustração dele por eu não seguir seus passos e vou lidar com isso, mesmo que esteja sendo covarde fugindo dele por umas semanas.

Era empolgante a sensação de conhecer outra cidade e o clima era perfeito, esse era um dos verões mais quentes desses últimos anos. Quando cheguei em St Ives eu entendi porque falam tanto daqui, ela é esplêndida, por aqui tem galpões de salga, estúdios de artes, casas de barcos, armazéns de porto, as conhecidas e enormes casas vitorianas, bunkers, galerias de artes, comércio local, as tradicionais casas de pescadores e tantas outras coisas que vi. Escolhi passar as próximas duas semanas em uma casa de peecadores, a fishermen 's cottages é uma pequena construção de pedra e pintada de branco, teto baixo com vigas de madeira escura e tem um cheiro reconfortante de café fresco misturado ao sal do mar que entra pela janela aberta. É um espaço pequeno, mas que abraça a gente imediatamente. Muitas mudanças aconteceram e mesmo com modernidades aqui ainda é uma típica cidade do interior e litoral. Depois de guardar minhas coisas, olhei as mensagens no meu celular, tinha poucas, então respondi algumas e desliguei meu celular pra não descarregar.

Desci pelas ruas bem estreitas até Porthmeor Beach, escolhi um lugar próximo do mar, estava tudo calmo e tinha poucas pessoas na praia, eu peguei um livro pra ler, estava relendo Emma de Jane Austen. Deitei bruços sobre minha canga estampada com o mapa do metrô de Londres, senti que podia relaxar, essa pausa está sendo muito bem-vinda.

Acabei cochilando e de repente uma onda avançou cobrindo minhas pernas com uma água absurdamente fria. Dei um salto, tossindo e cuspindo água salgada, a maré de Porthmeor Beach havia subido tanto e minha bolsa agora flutuava bem longe de mim. O romance de capa mole que também tinha ido parar longe, parecia encharcado, parece que perdi o único livro que trouxe comigo.

- Droga, droga, droga! -

Tentei me levantar na areia que parecia movediça, queria pegar minha bolsa e o que sobrou do livro, mas obviamente não estava dando certo.

- Eu não recomendaria lutar contra o Atlântico por um livro. O mar sempre ganha.

A voz era profunda, carregada com o sotaque arrastado e musical do sudoeste da Inglaterra.

Ergui os olhos e o vi. Ele caminhava pela água com uma facilidade irritante, em pouco tempo ele pegou a minha bolsa e o livro ensopado. Ele usava uma bermuda preta e uma camiseta de salva-vidas, tinha ombros largos e uma postura atlética. A pele dele tinha aquele tom bronzeado de quem vivia sob o sol. Seu cabelo castanho estava bagunçado e úmido. Mas foram os olhos — de um verde-mar impressionante — que me fizeram esquecer por um segundo que eu estava com água gelada até a minha cintura.

Ele me estendeu a bolsa de lona que vazava água e o livro que não tinha salvação, só podia torcer pra não ter perdido nada de importante.

— Acho que isso aqui pertence a uma londrina.

Quando peguei minhas coisas, os meus dedos frios roçaram brevemente nos dele, senti um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura da água.

- An.. Obrigada - gaguejei, tentando manter a dignidade enquanto tentava tirar o cabelo molhado do rosto. - E… como você sabe que sou de Londres?

Ele deu um sorriso de canto, apontando com o queixo para a canga que agora afundava na espuma da maré.

- A linha Piccadilly está bem ali, submersa. Além disso, vocês, turistas da cidade grande, têm uma fé cega de que o oceano vai respeitar o espaço de vocês.

Senti meu rosto arder, e desta vez não era o sol. Puxei a canga pesada da água para fora da água.

- Eu olhei a previsão do tempo! Dizia que faria sol o dia todo.

- O tempo, sim, mas você não olhou a tábua de marés, olhou? - Ele cruzou os braços, com um olhar de divertimento fixo em mim. - Na Cornualha, o mar sobe metros em pouco tempo. A Porthmeor não perdoa quem dorme no ponto.

- Eu estava cansada. O trem de Paddington atrasou ontem, a estrada até aqui parece um labirinto de arbustos e... - Parei, percebendo que estava falando demais com um completo estranho, que sendo sincera é muito bonito. Suspirei, olhando para o livro destruído - Desculpe. Eu só queria um dia perfeito de praia.

A expressão dele suavizou instantaneamente. O tom provocativo deu lugar a simpatia amigável.

- O primeiro dia é sempre o mais difícil… Sou o Nicholas, a propósito.

- E eu sou a Henrietta, mas prefiro ser chamada de Ettie, até hoje não sei porque meus pais escolheram esse nome.

- Bem, Ettie, Henrietta não é ruim... - Ele olhou para cima, avaliando o céu. - O sol ainda vai durar algumas horas. Se você se mover para a parte alta da praia, perto das rochas, estará segura da maré. E há um quiosque ali em cima que serve o melhor chocolate quente com pimenta da costa. Você parece precisar de algo para se aquecer.

Olhei para meus braços arrepiados pelo frio da água, depois voltei a olhar para ele. Havia algo intensamente reconfortante na presença dele.

- Obrigada pelo resgate, Nicholas. E pelo aviso geográfico.

- É o meu trabalho - ele disse, dando um passo para trás em direção ao mar aberto, mas sem desviar os belíssimos olhos verdes. - Mas tente não dormir de novo perto da água. Eu posso estar ocupado salvando alguém que realmente saiba nadar.

Ele piscou para mim, um gesto rápido e charmoso, antes de se virar e correr de volta ao posto de salvamento. Fiquei parada por um momento, tive vontade de rir, mas me limitei a franzir a testa. A minha canga pingava água gelada nos meus pés e o meu coração batia mais rápido do que deveria, e aqui estava eu observando ele. As férias na Cornualha definitivamente não seriam como eu planejava.

Ainda sentia muito frio, me arrastei até a parte alta da praia, exatamente onde ele havia sugerido. Estendi a canga - que agora parecia pesar uma tonelada - perto de um paredão de pedras escuras e sentei, abraçando os meus joelhos. No entanto, não conseguia focar em nada. Os olhos verdes e o sorriso dele pareciam gravados na minha retina. Alguns minutos depois, uma sombra ficou na minha frente.

- O chocolate quente com pimenta funciona melhor se você realmente o beber, em vez de apenas ficar aqui sentada congelando.

Ergui os olhos. Nicholas estava parado ali, Ele segurava dois copos de papel que soltavam uma fumaça aromática.

- Pensei que você estivesse trabalhando - Disse, aceitando o copo que ele estendeu. Seus dedos tocaram os meus novamente, e o mesmo arrepio de antes percorreu meus braços.

- Meu turno de observação na guarita acabou de terminar. Agora sou apenas um cidadão preocupado com uma turista que parece prestes a ter hipotermia. - Ele se sentou na areia ao meu lado, esticando as pernas longas. - Pode beber. Não está batizado.

Levei o copo aos lábios. O líquido era espesso, doce e, logo em seguida, um calor picante atingiu o fundo da minha garganta, espalhando uma sensação reconfortante pelo peito. Aquele chocolate quente era obra divina.

- Meu Deus - Suspirei, fechando os olhos. - Isso é maravilhoso. Acho que acabou de salvar minha vida pela segunda vez hoje.

- Eu disse que o quiosque era bom. - Ele deu um gole no dele, observando o horizonte onde as gaivotas planavam baixo. - Então, Londres, não é? O que traz você para o fim do mundo no meio de uma semana de trabalho?

- Como você sabe que é uma semana de trabalho? - Perguntei, curiosa, olhando para o perfil dele. O queixo dele era marcado, com uma barba por fazer de dois ou três dias.

- Você tem aquela linha de expressão bem aqui, entre as sobrancelhas - Ele disse, tocando a própria testa para indicar. - É a marca registrada de quem passa o dia olhando para planilhas de Excel e respondendo a e-mails que começam com "conforme conversamos anteriormente". Além disso, você trouxe um computador na bolsa? Ela estava pesada.

Soltei uma risada genuína, como ele era observador.

- Tudo bem, você me pegou. Eu trabalho com análise de risco financeiro na Empresa do meu pai. E sim, tem um notebook ali dentro que eu espero desesperadamente que seja à prova d'água, ou perderei os meus relatório deste mês inteiro.

- Análise de risco? - Ele soltou uma risada contida, os olhos verdes brilhando de diversão enquanto se voltavam para ela. - E você não previu o risco de uma maré de sizígia na Cornualha? Irônico.

- Ei! Eu estou de férias - Protestei, empurrando de leve o ombro dele com o meu. - Duas semanas inteiras para desligar meu cérebro. Mas o universo claramente tem um senso de humor peculiar.

- Duas semanas é um bom tempo. Dá para aprender a respeitar o mar... e talvez até a gostar dele. - Ele virou o rosto na minha direção, a expressão um pouco mais suave, quase cúmplice. - O que mais está na sua lista de turista para essas duas semanas, Ettie? Além de inundar eletrônicos e livros?

Olhei para o mar, que agora batia violentamente exatamente onde eu estava deitada minutos atrás.

- Eu queria ler, caminhar pelas falésias que vi nas fotos e... não sei. Descobrir se a vida fora de Londres realmente existe, passei tempo demais focada em estudos e no trabalho que meu pai me deu, faz anos que não faço uma viagem tão longa.

Eu ri e ele sorriu, um sorriso aberto que mostrava dentes muito brancos. Ele se levantou em um movimento ágil, limpando a areia da bermuda.

- Ela existe. E é bem melhor. Se você sobreviver ao frio de hoje, amanhã de manhã dou aulas de surfe para iniciantes no canto esquerdo da praia. Às nove. Sem notebooks permitidos.

Olhei para o copo vazio em minhas mãos, depois para ele.

- Surfe? Naquela água congelante?

- Eu te consigo uma roupa de borracha extra grossa - ele piscou. - Pense nisso como gerenciamento de risco, Ettie. Até amanhã?

- Até amanhã, Nicholas.

Pela primeira vez tempos eu não estava pensando em nada, nem mesmo no problema com meu pai, só conseguia pensar em como acordar cedo no dia seguinte.

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