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Capítulo 02 — O Acordo que Não Era Para Acontecer

"Algumas decisões não começam como escolhas; começam como problemas que ninguém quer assumir até o momento em que ignorá-los deixa de ser uma possibilidade."

A campainha tocou pouco depois da meia-noite de forma insistente o suficiente para deixar claro que não se tratava de um engano, e, considerando o horário, Alexander Carter teve certeza de que só existia uma pessoa no mundo com coragem suficiente para aparecer na porta de seu apartamento sem avisar.

O som ecoou pelo imóvel amplo e silencioso, rompendo a tranquilidade que normalmente dominava aquele espaço durante a madrugada. Era exatamente aquele tipo de silêncio que homens como ele valorizavam depois de dias inteiros cercados por reuniões, investidores, negociações e problemas que custavam milhões de dólares, porque o silêncio representava controle, previsibilidade e ausência de surpresas, exatamente o oposto do que aquela campainha sugeria.

Alexander abriu os olhos imediatamente, soltando um suspiro impaciente enquanto passava a mão pelos cabelos ainda bagunçados pelo sono antes de se levantar da cama. Vestindo apenas uma calça de moletom escura que caía baixa no quadril, ele atravessou o apartamento com passos firmes, e mesmo naquele estado despreparado sua presença continuava marcante, reforçada pelos músculos relaxados do torso nu e pela expressão claramente irritada de quem acabava de ser arrancado do descanso.

Quando abriu a porta, já estava pronto para reclamar.

— Emma, espero que isso seja realmente urgente porque...

A frase morreu antes de ser concluída e a irritação desapareceu tão rápido quanto surgiu.

Alguma coisa estava errada.

Muito errada.

Emma estava pálida, com os olhos vermelhos e a respiração irregular, enquanto as mãos apertavam a alça da bolsa com tanta força que os nós dos dedos haviam perdido completamente a cor. Mais do que isso, havia algo na forma como ela permanecia parada diante dele que imediatamente chamou sua atenção, porque sua irmã parecia genuinamente assustada.

Alexander sentiu o corpo enrijecer.

A mudança em sua expressão foi pequena.

Mas completa.

— O que aconteceu?

Emma entrou sem esperar convite e atravessou a sala em passos rápidos, como alguém que precisava continuar se movendo para impedir a própria coragem de desaparecer. O simples fato de ela não pedir permissão já era suficiente para fazê-lo entender que o problema era sério.

— A gente precisa conversar.

Alexander fechou a porta com calma, girando a chave antes de acompanhá-la até a sala enquanto observava cada detalhe de seu comportamento. A maneira como ela evitava permanecer parada, o movimento nervoso dos dedos, a tensão visível em seus ombros e a dificuldade evidente para organizar os pensamentos eram sinais claros de que aquilo não era apenas preocupação.

Era medo.

— Então fala.

Emma parou no centro da sala, respirou fundo e ergueu os olhos para ele, mas demorou alguns segundos para encontrar as palavras certas.

— Você lembra da minha amiga da Rússia?

Alexander cruzou os braços sobre o peito enquanto inclinava levemente a cabeça.

— Aquela que você conheceu em Moscou?

— Sim.

— O que tem ela?

Emma engoliu em seco.

Pela primeira vez desde que entrou no apartamento, sua voz vacilou.

O noivo dela passou dos limites.

Alexander não respondeu.

Permaneceu imóvel observando.

Emma levou alguns segundos para continuar.

— Ele machucou ela, Alex.

A garganta dela apertou visivelmente.

— Eu vi as fotos.

Ela desbloqueou o celular com dedos trêmulos e respirou fundo antes de completar:

— Meu Deus... eu vi as fotos.

Alexander recebeu o aparelho sem dizer nada.

Seu olhar percorreu rapidamente a tela.

Uma imagem.

Depois outra.

Depois mais uma.

Seu rosto permaneceu praticamente inalterado, mas Emma o conhecia bem demais para não perceber o instante exato em que o músculo próximo à mandíbula se tensionou.

Algo havia mudado.

— Continue.

— Ela fugiu.

Alexander devolveu o aparelho.

— Fugiu?

— Está vindo para os Estados Unidos.

Ele passou lentamente a mão pelo rosto enquanto absorvia a informação.

— E isso virou um problema meu quando?

Emma deu um passo à frente sem recuar.

— Quando isso significa que, se ela voltar, ela pode morrer.

O silêncio que se instalou entre os dois foi pesado o suficiente para preencher toda a sala.

Alexander permaneceu alguns segundos sem responder antes de falar:

— Emma, existem instituições que podem ajudar a sua amiga.

Ela balançou a cabeça imediatamente.

Não quando ela está fugindo de Viktor Volkov.

Dessa vez o ambiente pareceu mudar.

Não houve explosão, nem surpresa evidente. Mas Emma percebeu o momento exato em que os olhos do irmão escureceram levemente e sua mandíbula se tornou mais rígida.

— Quem? — perguntou.

Viktor Volkov.

Uma risada baixa escapou dos lábios dele.

— Interessante...

Emma franziu a testa.

— Você conhece ele?

Alexander caminhou lentamente até a enorme janela de vidro que ocupava parte da sala e permaneceu observando Manhattan iluminada sob a escuridão da madrugada. Não estava olhando para a cidade.

Estava pensando.

Alexander conhecia Viktor Volkov muito além das histórias que circulavam entre empresários influentes ou dos rumores que costumavam atravessar fronteiras e chegar aos jornais financeiros. Os dois haviam se encontrado mais de uma vez ao longo dos anos, sempre em ambientes onde dinheiro, poder e influência dividiam espaço com interesses muito menos legítimos, e, desde o primeiro encontro, a antipatia entre eles tinha sido imediata.

Viktor jamais escondeu o desprezo que sentia por homens que se recusavam a dobrar a cabeça diante dele, e Alexander nunca teve qualquer interesse em facilitar a vida de alguém que construía parte do próprio império através de métodos que ele considerava inaceitáveis.

Não era apenas uma diferença de personalidade.

Era uma diferença de princípios.

Alexander acreditava em poder sustentado por estratégia, inteligência e trabalho. Viktor acreditava em poder sustentado por controle.

E homens que precisavam controlar tudo ao redor raramente aceitavam ouvir a palavra não.

Por isso, ao ouvir aquele nome, Alexander não pensou em um empresário influente ou em um investidor poderoso. Pensou em um homem paciente, calculista e perigosamente obstinado, alguém que transformava derrotas em obsessões e que dificilmente abandonava qualquer coisa que considerasse sua.

E era justamente isso que tornava toda aquela situação muito mais grave.

Porque homens impulsivos cometiam erros.

Homens como Viktor estudavam, planejavam e esperavam o tempo necessário até encontrarem a melhor forma de recuperar aquilo que acreditavam ter perdido.

Alexander permaneceu alguns segundos em silêncio enquanto organizava todas as informações que tinha acabado de receber, calculando riscos, antecipando consequências e avaliando até onde Viktor Volkov poderia estar disposto a ir para recuperar uma mulher que claramente considerava sua.

— Ele é perigoso? — Emma perguntou.

Alexander desviou o olhar da janela e a encarou.

Os olhos estavam frios.

Sombrios.

— Muito.

Emma perdeu o ar por um segundo.

— Então ajuda ela.

Alexander não respondeu imediatamente.

Continuou em silêncio por alguns instantes enquanto avaliava alternativas. Porque naquele ponto a questão já não era ajudar uma mulher assustada.

Era impedir que Viktor Volkov a encontrasse.

E, pelo que sabia sobre aquele homem, uma denúncia, uma mudança de endereço ou qualquer medida convencional não seriam suficientes.

Quando finalmente voltou a encarar a irmã, sua decisão já estava tomada.

— Quando ela chega?

Emma piscou surpresa.

— Amanhã.

Alexander assentiu levemente.

— Traga ela.

Emma demorou alguns segundos para processar a resposta.

— Você vai ajudar?

— Vou.

— Como?

Alexander caminhou até a mesa lateral e pegou o celular com a tranquilidade de quem já havia encontrado uma solução muito antes de verbalizá-la.

— Ela vai se casar comigo.

O silêncio que se seguiu foi tão abrupto que parecia ter retirado todo o ar da sala.

— O QUÊ?

Alexander continuou mexendo no telefone.

— Um casamento por contrato.

Emma arregalou ainda mais os olhos.

— Você enlouqueceu?

— Não.

— Alex, você odeia casamento.

Dessa vez ele ergueu os olhos.

E, pela primeira vez desde o início da conversa, Emma viu algo diferente em seu olhar.

Não era preocupação.

Não era compaixão.

Era determinação.

Eu odeio Viktor Volkov muito mais.

Emma ficou sem resposta.

Porque conhecia o irmão. E sabia exatamente o que aquela frase significava.

Alexander Carter raramente entrava em uma guerra. Mas quando entrava, não costumava perder.

Do outro lado do mundo, Viktor Volkov já sabia que Alina havia desaparecido.

O que ele ainda não sabia era que a mulher que acreditava possuir estava prestes a receber uma proteção que jamais imaginaria encontrar.

E, quando descobrisse que Alina Ivanov carregava o sobrenome Carter, já seria tarde demais para resolver aquilo como uma disputa comum entre um homem abandonado e uma mulher em fuga, porque, naquele momento, o que começava não era apenas um casamento por contrato criado para protegê-la, mas uma guerra silenciosa entre dois homens acostumados a vencer e que não tinham qualquer intenção de recuar.

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