Mundo de ficçãoIniciar sessão"Sobreviver não começa quando o perigo termina, começa quando você ainda sente medo mesmo estando longe."
O avião pousou em Nova York pouco depois do amanhecer.
Alina mal percebeu.
Durante quase todo o voo, permaneceu sentada perto da janela, com o corpo tenso demais para descansar e a mente inquieta para encontrar qualquer espécie de paz. Seus dedos passaram horas agarrados ao apoio da poltrona ou apertando o cinto de segurança como se aquele simples gesto pudesse impedi-la de desabar.
Não conseguiu comer, nem dormir.
Não conseguiu fazer nada além de respirar em pequenos intervalos dolorosos, como se até o ar ainda precisasse da permissão de alguém para entrar em seus pulmões.
Quando as rodas tocaram a pista, um sobressalto atravessou seu corpo inteiro.
Por um segundo cruel, seu coração disparou de tal forma que ela teve a sensação absurda de que Viktor estava ali, esperando por ela de pé em algum lugar entre os corredores do aeroporto, vestido com a elegância impecável que sempre enganava o mundo, com aquele olhar glacial que fazia qualquer pessoa acreditar que estava diante de um homem civilizado, quando, na verdade, havia algo brutal e doente por trás de cada gesto contido.
Alina fechou os olhos por um instante e sussurrou:
— Respire, só respire…
Quando o avião finalmente parou e os passageiros começaram a se levantar, ela permaneceu imóvel por alguns segundos. Via as pessoas pegando suas malas, ajeitando casacos, ligando celulares, retomando a vida com uma naturalidade que quase a machucava. Como podiam todos parecer tão normais quando o mundo dela tinha se partido em mil pedaços na noite anterior?
Quando finalmente se levantou, sentiu as pernas vacilarem. O joelho ameaçou ceder e ela precisou apoiar a mão no encosto da poltrona à frente. O corpo ainda doía. O ombro, onde Viktor a havia segurado com força brutal durante a discussão, latejava sob o tecido do casaco. O hematoma ainda estava presente no seu rosto, coberto pela maquiagem.
Com passos lentos, seguiu o fluxo de passageiros até a saída.
O aeroporto parecia grande demais, barulhento demais e rápido demais para alguém que havia passado as últimas horas tentando apenas sobreviver. Pessoas cruzavam o saguão carregando malas, falando ao telefone e retomando suas rotinas enquanto Alina segurava a própria bolsa contra o peito como se toda a sua vida coubesse ali dentro.
Seus olhos procuravam Emma entre a multidão enquanto tentava ignorar a sensação irracional de que Viktor poderia surgir a qualquer momento.
O olhar dela passou rápido pelos rostos desconhecidos até parar em uma mulher loira, elegante, de sobretudo bege, que levantava a mão no meio da multidão enquanto a encarava com clara preocupação.
Emma correu em sua direção.
— Alina!
A voz saiu embargada.
Elas se encontraram no meio do saguão, e antes mesmo que Alina pudesse dizer qualquer coisa, Emma a abraçou com força. Alina sentiu o calor daquele corpo e não conseguiu mais se sustentar.
As lágrimas, que ela vinha engolindo desde Moscou, transbordaram silenciosas e quentes. Seu queixo tremeu, seus dedos se agarraram ao casaco da amiga e o primeiro som quebrado escapou de sua garganta.
Emma se afastou apenas o suficiente para encará-la, e sua expressão mudou imediatamente.
— Meu Deus…
Emma perdeu a cor imediatamente.
Porque, até aquele momento, as fotos ainda eram apenas fotos.
Agora Alina estava ali.
Suas mãos subiram com cuidado até o rosto de Alina, sem tocá-lo de verdade, como se tivesse medo de machucá-la mais.
— Foi ele?
Alina tentou responder, mas a voz não saiu. Apenas assentiu, se sentindo exposta pela própria fragilidade.
Emma fechou os olhos por um segundo, como se lutasse para não perder o controle ali mesmo.
— Filho da puta…
Quando tornou a abrir os olhos, sua expressão era decidida e protetora.
— Você está comigo agora. Está ouvindo? — disse com firmeza, segurando suas mãos geladas. — Eu não vou deixar ninguém tocar em você.
A frase era bonita. Mas não foi capaz de dissolver o pânico que Alina carregava.
Porque Viktor não era apenas um homem comum. Era o tipo de homem que destruía vidas com a mesma facilidade com que assinava contratos.
Emma segurou a mala de Alina e passou o braço por seus ombros com delicadeza.
— Vamos sair daqui.
Alina assentiu.
Durante todo o caminho até o estacionamento, Alina continuou observando o movimento ao redor com atenção excessiva, e cada homem alto que cruzava seu campo de visão fazia seus músculos enrijecerem automaticamente.
Emma percebeu, mas foi inteligente o bastante para não dizer nada naquele instante. Apenas manteve a mão firme em seu braço, guiando-a até um carro preto estacionado em uma área reservada.
O motorista saiu imediatamente para ajudá-las. Era um homem de meia-idade, elegante, discreto, com uma postura profissional impecável.
— Senhorita Cárter — cumprimentou Emma.
— Obrigada, Thomas.
Ele pegou a mala de Alina sem fazer perguntas, sem lançar aquele olhar invasivo que tantas pessoas dirigem a uma mulher ferida e esse gesto, por si só, quase a fez chorar de novo.
Ela entrou no banco de trás e se encolheu contra a porta, enquanto Emma se acomodava ao seu lado.
— Ele não pode te pegar aqui.
Alina demorou a responder.
— Você não entende…
Sua voz saiu baixa e rouca. Emma se virou para ela.
— Então me explica.
O silêncio que veio em seguida foi pesado.
Alina passou a língua pelos lábios ressecados e se arrependeu imediatamente por causa do corte.
— Viktor não aceita perder.
Emma franziu a testa, mas permaneceu calada.
— Quando algo sai do controle dele… ele destrói. Pessoas, acordos, empresas… não importa. — Alina engoliu em seco. — Ele não vai aceitar que eu fui embora.
Emma respirou fundo.
— Ele vai ter que aceitar.
Alina finalmente virou o rosto para encará-la. Havia dor demais em seus olhos.
— Você não o viu quando está com raiva.
Emma sustentou aquele olhar por alguns segundos, depois disse com calma:
— Não. Mas eu conheço alguém que ele deveria temer.
Alina piscou confusa.
— Seu irmão?
Emma assentiu.
Emma assentiu.
— Meu irmão.
Alina ficou em silêncio por alguns segundos.
Desde a ligação da noite anterior, aquela ideia continuava parecendo absurda.
Casamento, proteção e Alexander Carter.
Ela conhecia o nome.
Qualquer pessoa envolvida com negócios internacionais conhecia.
Mesmo na Rússia, Alexander era citado em reuniões, jornais econômicos e conversas sobre empresas que cresciam rápido demais para serem ignoradas.
Mas uma coisa era ouvir falar dele. Outra completamente diferente era imaginar que, dentro de algumas horas, estaria sentada diante daquele homem discutindo a possibilidade de se tornar sua esposa.
Alina abaixou os olhos imediatamente. Os dedos se fecharam sobre o próprio casaco.
Porque a simples ideia de encontrar outro homem já era suficiente para deixá-la tensa.
Desde que Emma falou ao telefone sobre a solução absurda, quase inacreditável, sua mente vinha girando em torno do mesmo pensamento.
Casamento.
Um casamento de mentira com um homem que ela não conhecia. Um homem que, segundo a amiga, odiava relacionamentos.
Alina fitou as mãos no colo.
— E se ele… não vai gostar de mim.
Emma soltou um suspiro curto.
— Alexander não gosta de quase ninguém, então isso não é exatamente pessoal.
A frase arrancou de Alina algo próximo de um riso, mas tão pequeno, tão frágil, que desapareceu antes mesmo de nascer.
Emma segurou sua mão.
— Escuta. Meu irmão pode ser difícil. Arrogante. Mandão. Insuportavelmente convencido quando quer. — Fez uma pequena pausa. — Mas ele não é cruel. E quando decide proteger alguém… ninguém passa por cima dele.
Alina ouviu em silêncio.
Queria acreditar. Deus, como queria. Mas acreditar em homens não era mais uma coisa simples para ela.
O carro passou por avenidas mais elegantes, diante de fachadas imponentes e portarias discretas até entrar numa rua mais reservada. Alguns minutos depois, Thomas estacionou diante de um prédio luxuoso, com arquitetura sóbria e intimidadora.
Alina ergueu os olhos.
Era o tipo de lugar que parecia existir num universo separado do resto do mundo.
Emma percebeu a tensão voltando ao corpo da amiga.
— Não precisa falar com ele imediatamente se não estiver pronta.
Mas as palavras saíram da boca de Emma ao mesmo tempo em que o telefone dela vibrava. Ela pegou o aparelho, leu a tela e fechou os olhos por um instante, como quem já previa o conteúdo.
— É ele. — murmurou.
Alina empalideceu e Emma atendeu.
— Alex.
Mesmo sem ouvir a voz do outro lado, Alina sentiu um arrepio desconfortável atravessar sua nuca.
Emma ouviu por alguns segundos.
— Nós chegamos agora.
Emma lançou um rápido olhar para Alina.
— Não, ela não está bem.
A expressão de Emma mudou quase imperceptivelmente. Menos irritada, mais séria.
— Chego ai no máximo em trinta minutos.
Ela desligou.
— O que ele disse?
Emma guardou o celular na bolsa.
— Que quer conhecê-la hoje.
Alina sentiu o estômago afundar.
— Hoje?
— Sim.
— Emma, eu… eu não consigo.
Emma segurou o rosto dela com doçura.
— Você consegue. Não porque precise agradá-lo. Mas porque, agora, esse encontro pode ser a linha entre você continuar fugindo… ou finalmente ter alguém disposto a enfrentar Viktor de frente.
As palavras ficaram pairando no ar entre as duas.
Alina fechou os olhos. Sabia que não podia mais recuar.
Quando abriu os olhos novamente, havia lágrimas neles, mas também uma pequena centelha de algo que há muito Viktor vinha tentando apagar.
Instinto de sobrevivência.
— Está bem — sussurrou.
Emma assentiu.
— Está bem.
Thomas abriu a porta do carro.
E quando Alina colocou os pés em solo americano de verdade, diante daquele prédio silencioso e elegante, teve a estranha sensação de que estava entrando num território novo.
Não seguro.
Ainda não.
Mas, pela primeira vez desde que fugira de Moscou, Alina teve a sensação de que Viktor Volkov talvez encontrasse alguém disposto a enfrentá-lo sem baixar a cabeça.







