Mundo de ficçãoIniciar sessãoNARRAÇÃO RICARDO:
DEPOIS DO DIVÓRCIO.: Observei o rastro de poeira que o carro de Paloma deixou no asfalto. Por sete anos, eu me acostumei com a presença silenciosa dela, com o modo como ela flutuava pela casa tentando não incomodar, tentando sempre ser o que eu precisava. Mas a mulher que saiu por aquele portão hoje... eu não a conhecia. Aquela Paloma tinha fogo nos olhos e uma exaustão que parecia ter quebrado algo definitivo dentro dela. — Ela me bateu, mãe... o lamento de Clarisse me trouxe de volta. Ela segurava o rosto, as lágrimas escorrendo, buscando o consolo que eu sempre estive pronto para dar. — O que eu fiz para ela me odiar tanto? O que eu fiz? Minha mão ainda buscava o ombro de Clarisse por puro instinto, mas as palavras da tia de Paloma cortaram o ar como um chicote, impedindo meu movimento. — Como você deixa que isso aconteça dentro da sua casa, Márcia! Logo você que invadiu o luto do meu irmão. a tia disparou, encarando a mãe de Paloma com um desprezo que eu nunca vi naquela família. — E agora quer se fazer de santa? — Eu sempre fui apaixonada por ele! Márcia retrucou, a voz aguda de indignação. — Eu cuidei dele até o fim! — E teve o que quis, não teve? a tia deu um passo à frente. — Passou anos ao lado do meu irmão, desprezando a própria filha para agradar o marido e a enteada. E você, Ricardo... ela virou aqueles olhos severos para mim. — Você, mais do que ninguém, deveria assumir a culpa que carrega em vez de permitir que maltratem sua esposa. Você deixou que todos a culpassem por um erro que foi de vocês dois! Senti o maxilar travar. A palavra "erro" ecoava na minha mente como um sino fúnebre. — Eu nunca tirei o meu peso das costas. respondi, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia. — Eu fiz o que foi preciso. Assumi a responsabilidade, dei a ela um nome, uma casa. Foi ela quem pediu o divórcio, não eu. A tia de Paloma soltou uma risada amarga, sem qualquer humor. — Ela demorou foi muito para fazer isso. Só espero que agora ela consiga ser feliz longe de toda essa toxicidade. E se você é tão honrado quanto diz ser, Ricardo, vai deixar ela em paz com o filho de vocês. O que você tanto queria está aí na sua frente. ela apontou para Clarisse, que ainda soluçava. — Espero que você não se arrependa. Porque o que aconteceu aqui hoje... é vergonhoso. Com licença, vou procurar minha sobrinha. Ela saiu sem olhar para trás, deixando um vácuo de desconforto no jardim. Clarisse se aproximou de mim, o perfume dela, o mesmo de sete anos atrás tentando invadir meus sentidos. Eu amava aquela mulher, amei por todos esses anos. Preso aquele casamento, esperando ela voltar e agora eu tinha isso. Tinha ela ali pra mim. — Ela colocou minha tia contra mim, ela me odeia tanto, mãe... ela não vai me deixar em paz, nunca. Clarisse disse abraçando a mãe delas. Mas o embrulho que revirou meu estômago me sufocou. Olhava para Clarisse e via a mulher por quem esperei, mas na minha mente, eu só conseguia ver o modo como Paloma me olhou antes de partir. Foi um olhar de quem desistiu de esperar. De quem parou de mendigar. Um sentimento corrosivo e culposo começou a crescer no meu peito, um gosto amargo de algo que eu não conseguia nomear. Eu sempre me orgulhei de ser um homem de palavra, de honra. Mas, ao ver Paloma sair com o Henry, percebi que minha "honra" talvez tivesse sido apenas uma forma polida de crueldade. — Ricardo? Clarisse chamou, tocando meu braço. — Rick... Ela não vai nos separar de novo, não deixa isso acontecer. Olhei para a mão dela no meu terno e, por um segundo, senti vontade de me afastar. — Preciso ver como o Henry está. eu disse, a voz seca. — Ele não deveria ter visto nada disso. não disse que precisava ver como a Paloma estava. Eu não podia. — Não deixa ela usar seu filho, é isso que ela quer que você vá atrás por causa do menino. — É meu filho Clarisse, não vou deixar nada prejudicar ele. Olhei prós outros acenando. — Vou prestar todo meu apoio a vocês, para o que precisar. — Obrigado, Ricardo. A mãe dela disse. — Com licença. Mas, enquanto eu caminhava em direção ao carro, a imagem dela entregando o papel do divórcio com as mãos trêmulas não saía da minha cabeça. Eu tive o que queria: Clarisse estava de volta. Então por que o silêncio da Paloma agora parecia o barulho mais ensurdecedor da minha vida? ...






