capítulo 05

A cozinha, que um dia cheirou a bolos de domingo e risadas de infância, agora sufocava.

O ar estava carregado com o veneno que Clarisse destilava.

Olhava para ela e não via a menina com quem dividi bonecas, via a carrasca da minha dignidade.

— Você não tem o direito de estar nesta casa.

a voz dela chicoteou, fria, cortante.

Minha tia, que até então apenas observava com o rosto banhado em tristeza, deu um passo à frente, colocando a mão no meu braço, me apoiando, mesmo todos contra mim.

— Pare com isso, Clarisse. Paloma é da família. Ela carrega o sangue do seu pai, ele era tio dela antes de ser padrasto. Esta casa também tem a história dela.

Clarisse soltou uma risada histérica, os olhos faiscando.

— Família? Tia, ela me traiu! O papai morreu sem perdoar a sujeira que ela fez. Ele nunca apoiaria a presença dessa... dessa mulher aqui!

— Paloma não fez nada sozinha, Clarisse.

Nossa tia rebateu, a voz ganhando uma firmeza que me surpreendeu.

— O homem que você diz que a "ajudou" a te trair está sentado na sala agora. E eu vi você agarrada a ele como se nada tivesse acontecido. Quem deveria ter algum respeito aqui é você. Eles ainda são casados aos olhos de muitos.

— Já nos separamos, tia...

interrompi, a voz saindo como um sopro, ela me olhou sem saber.

Tia Cassia morava longe, mal sabia de toda a sujeira em baixo do tapete.

— Não somos mais nada. O papel já foi assinado.

Clarisse deu um passo na minha direção, o rosto contorcido.

— Você o seduziu! Eu sempre soube que você o desejava, que tinha inveja de tudo o que era meu. Nós tínhamos planos, Paloma! Prometemos voltar um para o outro, mas você usou a primeira oportunidade para se enfiar na cama dele!

— Ele já era um homem feito quando isso aconteceu, Clarisse.

Nossa tia interveio novamente.

— Ele quis. Não tente distorcer a realidade para se sentir a única vítima. Ele teve escolha.

— Você fez a cabeça dela contra mim, não foi?

Clarisse sibilou para mim, ignorando a tia.

— Até nisso você tenta me roubar.

Henry apareceu na porta, assustado com os tons de voz alterados. Ele correu e abraçou minhas pernas, escondendo o rosto no meu vestido.

— Não briga com minha mamãe! Eu vou contar pro meu pai.

— Está tudo bem, meu amor. Tudo bem!

sussurrei, acariciando o cabelo dele, mas minhas mãos tremiam.

— Olhe para isso...

Clarisse apontou para o meu filho com desprezo.

— Você usa essa criança até hoje para prender o Ricardo. Você sabe que ele nunca te amou, que casou por obrigação. Mas agora eu voltei. Eu vou ter tudo o que é meu de volta, e você não vai mais usar esse menino para chamar a atenção dele.

O sangue subiu para o meu rosto. A exaustão, a dor do luto, a humilhação do testamento... tudo se fundiu em uma fúria cega.

— Você pode falar o que quiser de mim, Clarisse. Pode me chamar de traidora, do que quiser. Mas não ouse falar do meu filho na frente dele! Ele nunca foi moeda de troca!

— Ele é o seu passaporte para a vida do Ricardo!

ela gritou.

— Mas o seu tempo acabou!

Eu não pensei. Eu não planejei.

A mão agiu antes da mente.

O estalo do tapa no rosto dela ecoou nas paredes da cozinha, um som seco que interrompeu todos os gritos.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Clarisse cambaleou, levando a mão à bochecha, os olhos arregalados em choque.

— Aí!!

Eu mesma entrei em transe.

Meu coração martelava contra as costelas. Mas, em vez de arrependimento, senti uma clareza cortante.

— Você pode ter colocado todo mundo contra mim. Pode ter me feito perder o meu pai, a minha casa e o meu casamento. Mas no meu filho você não toca. Nunca mais.

— Tá vendo, tia?

Clarisse começou a chorar, a voz subindo no tom de vítima que ela dominava tão bem.

— Ela me bateu! Me bateu no dia que eu perdi o meu pai!

Eu não fiquei para ouvir o resto. Peguei Henry no colo e saí daquela cozinha como se estivesse fugindo de um incêndio. No corredor, minha mãe me parou, o rosto cheio de censura ao me ver saindo transtornada.

— Paloma, o que foi isso? Onde você vai?

— Você está se importando com a filha errada, mamãe.

respondi, sem parar.

— A sua protegida está lá dentro, fazendo o show dela. É com ela que vocês deveriam se preocupar. Eu cansei de ser o saco de pancadas de vocês.

— Você bateu na sua irmã?

Henry, agarrado ao meu pescoço, perguntou com a voz miúda:

— Mamãe... quem é aquela mulher? Ela é sua irmã?

— Ela nunca foi minha irmã, Henry. E nunca vai ser.

Ricardo apareceu no final do corredor, bloqueando o caminho por um segundo.

Ele viu o estado dos meus olhos.

— Paloma, não fale essas coisas para o menino. Ele não precisa ouvir essas coisas.

Parei diante dele, o homem que eu amei até o meu último átomo, e que agora me olhava com aquela repreensão de sempre.

— E você, Ricardo? O que ainda faz aqui fora? Vá lá dentro acolher a mulher que você sempre amou. Não era isso que você estava fazendo o tempo todo? Esperando... Ela está aqui agora, mas meu filho nunca vai conviver com ela, não quando ela chama ele de moeda de troca pra ter sua atenção!

Respirei fundo, sentindo o gosto de liberdade no meio da amargura.

— Eu não me arrependo daquela noite. Nunca vou me arrepender, porque o resultado foi o Henry, o único amor real da minha vida. Mas o meu maior erro, Ricardo, foi ter escolhido amar você. Mas isso acabou. Acabou para todos vocês!

Saí da casa pisando no gramado que eu não voltaria a pisar. Quando estava colocando Henry ni banco do carro, meu irmão, Maik, apareceu na varanda, faltando.

— Você não tem o direito de falar com a nossa mãe assim! Isso é a consequência de amar o homem que a sua irmã ama! Você sempre soube!

Girei a chave e olhei para ele uma última vez.

— Você se enganou, Maik. Ela é a sua irmã. Ela não é nada minha. Diga para todos lá dentro que hoje não houve só um velório aqui. Para todos vocês, eu morri hoje.

Entrei no carro.

Vi Ricardo saindo pela porta, talvez para tentar dizer algo, talvez para defender Clarisse.

Eu não parei para descobrir.

Arranquei com o carro, o coração sangrando, cada fibra do meu ser doendo, mas com uma certeza que queimava mais que a dor:

nenhum deles voltaria a me humilar.

A Paloma que mendigava amor tinha ficado naquele cemitério, enterrada junto com as ilusões da minha juventude.

....

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App