Mundo de ficçãoIniciar sessãocontinuação:
— Ele é meu filho! minha voz saiu rasgada, um grito sufocado. — Eu acabei de perder meu pai e vocês não têm um pingo de humanidade para me deixar com ele? A mãe de Ricardo soltou uma risada curta, seca. — Ele não era seu pai, Paloma. Ele te desprezava pelo que você fez com o meu filho e com a Clarisse. — Seu filho fez tanto quanto eu! gritei, mas as palavras pareciam fumaça. Naquele tribunal invisível, só eu era a culpada. Sempre foi assim. — O que está acontecendo aqui? A voz de Ricardo cortou o ar. Ele se aproximava, e Clarisse vinha junto, pendurada no braço dele como se fosse sua única tábua de salvação. Eu não conseguia olhar para ela. Ver os dois juntos, no dia em que meu mundo desmoronava, fazia meu coração sangrar de um jeito que eu não sabia se teria cura. — Ela quer levar o menino no seu fim de semana, Ricardo. a mãe dele explicou, com aquele tom de quem entrega um problema para ser resolvido. Ignorei Clarisse. Ignorei o perfume dela que começou a infestar o meu espaço. Olhei diretamente nos olhos cinzentos do meu ex-marido, buscando qualquer rastro do homem com quem dividi a cama por sete anos. — Eu acabei de perder o único pai que conheci, Ricardo. Eu só quero ficar com o meu filho. Por favor... Eu estava mendigando de novo. A humilhação era um manto que eu vestia com facilidade. Eu implorava por piedade ao homem que detinha todo o poder sobre a minha sanidade. Ele me observou por um segundo que pareceu uma eternidade de silêncio. — É nosso filho, Paloma. ele me corrigiu, a voz sem um pingo de emoção. — Pode levá-lo. Mas eu o busco durante a semana. Apenas acenei. Não conseguia mais falar. Me afastei o mais rápido que pude, guiando Henry até o carro. Quando fechei a porta e o motor arrancou, o choro veio pesado, daqueles que sacodem o corpo. Pelo retrovisor, vi a cena final: Ricardo acolhendo Clarisse, cercado pela aprovação dos pais e da minha família. Todos satisfeitos. Todos unidos na minha derrota, sentindo prazer em ver o meu sofrimento. Eu morria por dentro. Era uma dor surda, profunda, que não saía com remédio. Eu já não aguentava mais ser o erro de todo mundo. Cheguei em casa e me joguei no sofá, abraçada ao Henry. — Não chora, mamãe. Eu estou aqui... ele disse, limpando meu rosto. O amor dele era a única coisa real naquele oceano de rejeição. — Eu sei meu amor eu sei, você é tudo que eu tenho, meu único amor. O telefone tocou. Era minha tia, a única que nunca me olhou com nojo. — Eu esperava te ver aqui, querida. ela disse. Com certeza ela estava na casa da minha mãe. — Venha. Você também é família e ele deixou uma carta com a herança. Eu não queria ir. Eu queria desaparecer. Mas algo em mim ainda esperava uma migalha, um sinal de que eu existi para aquele homem. — Eu.. eu vou. — Estarei te esperando. .... Quando cheguei lá, o clima era de velório e celebração ao mesmo tempo. Ricardo e Clarisse estavam sentados no sofá principal, ela com todo o seu "grande sofrimento" exposto para quem quisesse ver. Como se só ela perdeu o pai, como a vítima que sempre foi. Eu sei que ela não tinha mais ninguém, os dois pais faleceram mas não conseguia não sentir o amargor de pensar que ela só estava mais uma vez, fazendo tudo ser sobre ela. Sobre como ela sofre, como ela e ela... E mais uma vez ela, sempre ela. Quando entrei naquela sala todos me olharam, como se eu precisasse pedir para existir naquele mundo. — querida... Minha tia me chamou, fui até ela sem olhar para nenhum dos presentes ali. — Eu sinto muito. — Tia... Cássia. Abraçar ela foi como ter uma fagulha de amor de alguém. O advogado começou a leitura. O seguro de vida, o dinheiro guardado por anos... ele foi distribuindo as fatias. A maior parte para Clarisse e Maik. Uma parte para Márcia... e uma cota para o meu filho, Henry. Eu sempre soube que ele amava meu menino, mas nunca foi por mim, talvez fosse apenas porque o meu filho era filho do Ricardo. Ele fechou a pasta. Meu nome não foi dito. Nem uma vez. Nenhuma linha, nenhum centavo, nenhuma menção. Eu fui oficialmente apagada. Morta antes mesmo dele partir. Senti um enjoo subir pela garganta. Sentir os olhares, a queimação que me causava. Meu coração ardia em decepção, angústia e uma imensa vontade de sair correndo e nunca mais olhar para trás. Nunca mais olhar para eles. Saí da sala procurando um lugar onde eu pudesse por tudo aquilo para fora, entrei na cozinha com aquilo me sufocando. — Tudo bem? Minha tia veio atrás de mim, olhei para ela negando e ela me olhou com tanta pena, mesmo com um sorriso pequeno, tentando minimizar o que era impossível de deixar leve. — Eu sinto muito por isso, Paloma... ela sussurrou, segurando minhas mãos com pena. Eu odiava a pena. Antes que eu pudesse responder, a porta bateu. Clarisse entrou, os olhos vermelhos de choro, mas a língua afiada como sempre. — O que você ainda está fazendo aqui? ela disparou, a voz tremendo de ódio. — Você não tem o direito de estar nesta casa. Meu pai não iria querer você aqui! Depois de tudo que você fez depois de tudo que você me tirou de mim. Olhei para ela, e depois para nossa tia, sentindo que a exaustão finalmente estava vencendo a minha vontade de lutar. Eu já não tinha forças. ....






