Capítulo 2

Dante

Dias antes

Ela entrou… e o mundo ao redor simplesmente perdeu o som.

Não precisava de apresentação. Eu já sabia quem você era, mesmo sem nunca ter te visto antes.

Percebi que pede o mesmo todos os dias.

Um cappuccino italiano com açúcar e canela, sempre esse, para ela. E um expresso forte, sem frescura, para o chefe.

O dela, quase sempre em copo térmico. O dele, com tampa vedada e um bilhete amassado grudado com fita, como se isso aliviasse o gosto amargo que a criatura carrega no humor desde às sete da manhã.

Na maioria das vezes, ela entra apressada, cabelo preso de qualquer jeito, blazer torto, celular no viva-voz e pasta de documentos quase caindo do braço.

Pede no balcão, checa o relógio, morde o lábio. E sai. Como se estivesse sendo cronometrada por alguma entidade invisível chamada “chefia”.

Mas, em dias raros…

Ah, em dias raros, ela senta.

Na mesa perto da janela, a mesma de sempre, como se o mundo tivesse finalmente lhe dado dez minutos de trégua.

Nesses momentos, ela tem um ritual.

Segura o copo com as duas mãos, observa o vapor subindo como se estivesse lendo o futuro ali. Sopra duas vezes, não uma, sempre duas, e só então prova.

Como se até o tempo respeitasse o ritmo dela nesses breves instantes de calma.

Já estou na sexta semana observando. Ou sétima?

Não importa.

O que importa é que nunca a vi repetir roupa. Nem perfume. parecia ter um perfume para cada dia da semana. Às vezes ela usa lavanda. Outras, cheiro de baunilha. Hoje é jasmim. Discreto. Quase tímido. Mas tá ali.

Ela tira um dos fones. O outro continua. Porque ela nunca se desliga por completo. É como se uma parte dela estivesse sempre de guarda. E isso… me intriga. Porque até na pressa, até na correria, carrega poesia.

Ela se chama Clara.

Descobri quando ouvi a garçonete chamá-la pelo nome.

Clara... Iluminada. Apropriado demais para alguém que parece não perceber o próprio brilho.

A pele clara com um tom quente, que refletia a luz como se tivesse sido pintada para provocar desejo.

Seus cabelos… longos, negros, como se a noite tivesse se derramado sobre os seus ombros. Cada onda parecia se mover lenta demais, como se desafiando o tempo. E os olhos… os seus olhos não eram apenas bonitos, eles eram uma armadilha. Um convite silencioso para se perder dentro, e eu aceitei antes mesmo de perceber.

A boca, ruborizada, firme… uma boca que parecia feita para guardar segredos, mas que, eu sabia, mais cedo ou mais tarde, me diria “sim”. Porque você ainda não sabe, Clara, mas sempre houve algo de meu em você.

Pequena, delicada, com um corpo magro mas com curvas sutis.

E é isso que me intriga: ela não tenta. Não força.

É como se tivesse nascido com aquela luz natural, incômoda de tão pura. Como se pertencesse a outro tempo. A outro tipo de gente.

Gente que ainda sorri com os olhos.

Gente que ainda acredita.

Ela tem o tipo de beleza que não sabe que tem. E isso é perigoso. Porque gente assim machuca sem querer.

E então você sorriu.

Não para mim, não ainda. Mas isso não importa. Porque, no instante em que vi aquele sorriso, eu soube: não havia como escapar. Nem para você. Nem para mim.

***

Não era para ter voltado aqui hoje.

Nem ontem.

Nem na semana passada.

Mas voltei.

Ela faz isso comigo. Me arrasta para perto sem se mover um centímetro. Me prende num labirinto de curiosidade doentia.

Eu poderia simplesmente ir embora. Parar com isso. Desligar o radar. Fingir que não reparei na forma como ela ajeita o cabelo por trás da orelha sempre que está nervosa.

Ou como ela aperta os dedos da caneca quando lê alguma mensagem no celular que não gosta.

Ou como ela fala sozinha às vezes, sussurrando respostas que não foram ditas.

Mas não dá. Porque Clara... mexe com algo que mantive trancado por anos.

Ela é diferente.

E isso, pra mim, é quase um problema.

***

Já pensei em falar com ela. Duas vezes. Três, na verdade. Na última, me levantei e dei dois passos. Mas ela sorriu pra garçonete. E aquele sorriso me paralisou.

Como eu, um predador treinado, o homem que trabalha lidando com coisas que fariam os outros perderem o sono, como eu fico paralisado diante de um sorriso?

Ela me amolece. E isso me enfraquece.

Sou o que sou. E não posso simplesmente ser outro alguém porque uma garota de olhos castanhos me faz esquecer por cinco minutos que tenho um passado que não permite paz.

Mas mesmo sabendo disso… continuo vindo. Me sento sempre do outro lado. Finjo ler, finjo trabalhar, finjo ser parte da mobília.

Mas eu vejo.

Vejo que ela sorri quando vê crianças. Que ela fala com o porteiro ao sair. Que ela anda com passos leves, como se a vida ainda não tivesse pesado nos ombros dela.

E isso me assusta mais do que qualquer coisa.

Porque eu quero tocar. Quero conhecer. Quero... pertencer.

Mas sei que a minha presença no mundo dela é uma sentença. E não sou mais tolo de acreditar que posso ser diferente só porque alguém parece “melhor” do que eu.

***

Ainda assim… Hoje, algo em mim decidiu. Hoje eu chego perto.

Hoje criei um tropeço. Um acidente. Um empurrão do destino. Algo sutil. Quebrei o próprio código para poder olhar nos olhos dela. Porque, sinceramente?

Eu preciso ouvir a voz dela me dizendo “tudo bem”. Mesmo que não esteja. Mesmo que nunca vá estar.

Ela vai me odiar por isso. Ou vai sorrir. Ou vai me esquecer.

Mas pelo menos, por um instante, vou existir na história dela.

E se tudo der certo… esse café derramado será apenas o primeiro capítulo.

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