Mundo de ficçãoIniciar sessãoClara
Entrei na agência bufando, descabelada, segurando o café intacto, milagrosamente, como se fosse a tocha olímpica. Maria me olhou com aquela expressão mista de pânico e julgamento maternal. — Você tá atrasada — sussurrou, empurrando a porta da sala de reunião aberta com o cotovelo. — Eu trouxe café. Isso redime crimes, certo? Ela revirou os olhos, mas segurou a risada. Marcos estava de pé, em frente à parede de vidro, postura ereta, os ombros largos preenchendo o terno escuro como se ele tivesse nascido para usá-lo. E aquele maldito cabelo preto bagunçado de propósito que ele fingia que não arrumava por vinte minutos toda manhã. Meu coração deu o salto de sempre. Ele se virou ao ouvir a porta. Os olhos verdes, pousaram em mim, e seu rosto relaxou. — Clara. Você está atrasada... mas com café. Isso não te salva. Estendi o copo pra ele. — Café expresso, como o senhor gosta. — Vou deixar passar dessa vez. Ele pegou o copo e, por um segundo, nossos dedos se tocaram. Meu cérebro explodiu em fogos de artifício silenciosos. — Obrigada! Você é um anjo — ele murmurou. Ouça isso de novo em câmera lenta, Clara. Ele disse que você é um anjo. — Ainda bem que não sou paga apenas para ser pontual — respondi, tentando parecer profissional, mesmo com o joelho ardendo e a mente vagando e o caos da minha vida romântica inexistente. Marcos sorriu de lado, daquele jeito que me fazia querer bater com a cabeça na parede e ao mesmo tempo abraçá-lo pra sempre. — Depois da reunião, quero conversar com você sobre a nova campanha. — Claro — respondi, antes mesmo de saber do que ele estava falando. Eu aceitaria qualquer coisa dita com aquele tom. Sentei ao lado da Maria. Sentado à cabeceira da mesa. Marcos parecia feito para aquele lugar. A barba por fazer lhe dava um ar de descuido calculado, mas nada desviava a atenção dos olhos atentos, penetrantes, capazes de calar qualquer um sem que precisasse levantar a voz. Ele não falava muito, mas quando abria a boca, a sala inteira se inclinava em sua direção. Havia algo magnético na forma como escolhia as palavras: firme, controlado, cada frase como uma sentença que não admitia réplica. Eu, no entanto, não me prendi ao discurso. Meus olhos seguiam detalhes que ninguém mais parecia notar: a tensão leve no maxilar quando alguém discordava dele, a maneira quase imperceptível com que girava a caneta entre os dedos, o brilho contido nos olhos quando encontravam os meus mesmo que por apenas um segundo. Maria sussurrou: — Disfarça. Você está parecendo uma adolescente apaixonada. — Não estou apaixonada. Estou apenas... funcionalmente desorientada por um homem bonito. — Não é a mesma coisa? Me virei lentamente para encará-la. — Desisto de você. Volto minha atenção para a reunião. *** Trabalhar numa agência de publicidade parece glamouroso, até você realmente trabalhar numa. Paredes de vidro, brainstorms que viram crises existenciais, e um chefe que parece ter saído de um comercial de terno slim fit. Ou seja: Marcos. Depois da reunião, voltei à minha mesa fingindo produtividade enquanto o café aliviava meu ego e o perfume do Marcos ainda pairava no ar. Ele surgiu do nada, como sempre, encostado na divisória do meu cubículo. — Sala 2. Agora — disse, sem sequer olhar pra mim, antes de se virar e ir embora com as mãos nos bolsos. Olhei para Maria, que levantou uma sobrancelha. — Parece que alguém vai levar uma bronquinha carinhosa. Revirei os olhos. Mas o estômago afundou. Mesmo com todo o charme, Marcos era meu superior. E eu estava atrasada. Paro em frente à porta, respiro fundo e depois de tomar coragem bato à porta. Ouço a voz dele pedindo para entrar. Entrei na sala. Ele já estava lá em pé perto da janela ao celular, espero parada em pé próxima a porta. Vendo que não terminei de entrar, ele faz um sinal para que me sente na cadeira em frente a sua mesa. Vou até a cadeira e me sento. Falando ao celular, sua voz soava grave e confiante, seu maxilar marcante, ele parecia estar pronto para enfrentar qualquer desafio, afinal ele era o dono da empresa e ele só tinha trinta e um anos, mas combinando perfeitamente com seu cargo. Olhando melhor vejo que os primeiros botões de sua camisa estavam abertos no pescoço, revelando um pouco de sua pele levemente bronzeada dando-lhe um ar saudável e atraente. Eu senti uma onda de atração ao olhar para ele, e não pude deixar de me perguntar onde ele tinha estado para ficar bronzeado. Será que ele estava passando um tempo na praia? A imagem dele na praia vem na minha mente, e é uma imagem e tanto. Sem sombra de dúvidas ele é um homem que ao entrar em um ambiente chamava a atenção de todos ao redor. Eu sabia que não devia estar pensando assim, afinal, aqui ele era meu chefe e eu era uma funcionária. Mas não conseguia evitar o meu interesse secreto por ele, e me pego imaginando como seria se ele tivesse olhos apenas para mim. Tenho que parar de pensar nele dessa maneira, e ainda mais no trabalho, isso é errado. Até porque ele me vê apenas como uma irmã caçula, lembro dele ter mencionado isso certa vez, as vezes acho que esse é o motivo dele me aturar por tanto tempo. Olho para ele novamente. Ele parecia totalmente à vontade e confiante enquanto caminhava até a mesa ao desligar o celular e não pude deixar de sentir meu coração bater mais forte ao ver o quanto ele é lindo. Ele poderia ter qualquer mulher que desejasse, e eu não poderia deixar de me perguntar se ele algum dia me daria uma chance. Marcos se senta à minha frente com os braços cruzados, expressão fechada. A versão “chefe” dele era quase tão linda quanto a versão “crush”, só que mais difícil de decifrar. — Clara! — ele disse em um tom sério, sabia que era para olhar para ele. — Você chegou vinte minutos depois do horário. Isso não é aceitável. — Eu sei, me desculpa. Tive um pequeno... acidente. Ele franziu o cenho. — Que tipo de acidente? — Café. Perna. Combinação desastrosa. Ele deu um passo à frente, os olhos percorrendo minha calça como se procurasse marcas. Senti o rosto queimar. — Você se queimou? Sério? — Nada grave. Só uma segunda-feira tentando me matar com estilo. Marcos suspirou, e então algo mudou no olhar dele. Uma sombra de preocupação real passou por seu rosto. — Você devia ter me avisado. Podia ter ido ao médico. — E perder a chance de entregar seu café com drama? Jamais. Ele quase sorriu, quase. Mas o controle voltou em segundos. — Você precisa cuidar mais de si, Clara. Aquilo me pegou de surpresa. Não pela frase, mas pelo jeito como ele disse. Baixo. Quase... íntimo. Pisquei rápido, antes que meus pensamentos voassem longe demais. — Sim, senhor. Posso ir agora? Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente lutando com algo. A distância entre a versão chefe e a versão homem estava diminuindo perigosamente. — Sim, você pode ir agora. — disse ele meio sem ânimo. Levantei-me e saio da sala. Meu telefone tocou me trazendo de volta a realidade, então o peguei dentro da bolsa e atendi, era a minha melhor amiga Eduarda me telefonando. — Fala Duda. — disse animada. Duda e eu dividimos um apartamento. Ela é alta, loira, com cabelos lisos curto e com olhos pretos. Uma morena que parava o trânsito. Ela é linda, de dar inveja a qualquer uma e despertar o desejo de qualquer homem. Eu e ela somos amigas desde crianças, pois nossas mães eram grandes amigas, então foi quase inevitável nossa amizade. Nós duas somos como unha e carne. — Oi Clara! — pude perceber que ela estava bem animada, já até imaginava o que devia ser. Não sou nenhuma vidente, mas se tratando da minha melhor amiga não é difícil adivinhar. — Quem é o cara? — perguntei logo. — Nossa amiga! Não é assim, nem sempre se trata de garotos. Eu posso estar só querendo conversar. — Percebi que ela ficou meio magoada. — Desculpa! Fala então do que se trata? — Eu tenho um encontro hoje. — Sabia que era alguma coisa relacionada a garotos! — disse brava. Ela é linda, mas tem dedo podre para namorado. — Clarinha não faz assim! Esse é diferente, posso sentir. — Tem certeza? — Esse não é um babaca como os outros. — Ela tentava me convencer, mas algo me dizia que não ia dar certo. — Você sempre diz isso e depois sou eu que tenho que ficar vendo você sofrer, além de comer todo o meu estoque de sorvete, de chocolate e olha que nem estou falando das músicas de sofrência que você fica escutando no último volume toda vez que está na fossa. — Já estava começando a me irritar. — A vida é minha e eu vou sair com ele, sim! Você querendo ou não. E eu não como todo seu precioso estoque de sorvete e chocolate. — Ela quase gritava ao telefone. — Faz o que você quiser. Só não diz depois que não te avisei! — desliguei assim que terminei de falar. Como ela podia ser tão ingênua às vezes, se ilude tanto e quando a pessoa tenta ajudar, ela acaba sempre vindo com o mesmo papo. Talvez, eu tenha pegado pesado, acabei descontando nela. Fui para a minha e passei o resto da manhã e a tarde toda concentrada no trabalho. Ou, pelo menos, grande parte, pois não posso negar que um certo loiro de barba invadiu meus pensamentos.