Capítulo 1

Clara

Sabe aqueles dias em que você precisa acordar cedo, mas resolve dormir só às três da manhã porque ficou vendo série até tarde? Pois é. Bem-vinda à minha vida.

Se eu tivesse um mínimo de controle sobre as minhas vontades, não faria isso. Ainda mais sabendo que tinha que trabalhar cedo. Mas, aparentemente, eu sou do tipo de pessoa que gosta de brincar com a sorte. Resultado: estou correndo feito uma lunática pela calçada, sem café da manhã e com a dignidade em frangalhos. Definitivamente, não nasci para madrugar.

E, claro, para completar: como sempre que chego atrasada, tenho que passar na cafeteria. Não é suborno, juro. Talvez só um pouquinho. Um café pro Marcos costuma amenizar a bronca que me espera. Além disso, eu precisava desesperadamente de cafeína.

Apertei o passo e empurrei a porta de vidro com força, sem olhar. Um erro.

O impacto foi imediato. Esbarrei em alguém do outro lado e perdi o equilíbrio, indo direto ao chão. Protagonista de comédia romântica… só que sem trilha sonora e com café espalhado pela roupa.

— Você está bem?

A voz veio de cima. Grave, firme, com um sotaque leve que eu não consegui identificar de imediato. O tipo de voz que, em outras circunstâncias, faria meu coração saltar de empolgação. Mas naquele momento, só me fez pensar: Por favor, não seja bonito. Por favor, não seja bonito.

Levantei o olhar.

Ele era bonito.

Claro que era.

Ele parecia saído de um sonho de verão. Alto, corpo marcado pelo sol, músculos definidos sem exagero, como se tivesse sido esculpido na areia e endurecido pelo vento do mar. Os cabelos loiros, ligeiramente ondulados, caíam de forma displicente sobre a testa.

E os olhos… havia algo neles que me deixou sem ar. Azul profundo, quase translúcido, como o reflexo do céu sobre a água. Não eram apenas bonitos, eram intensos demais. O tipo de olhar que fazia você esquecer por um instante de onde estava, como se estivesse sendo despida sem que ele sequer estendesse a mão.

Estava olhando diretamente pra mim.

E eu ali, no chão, com calça manchada de café e zero glamour. Maravilha.

— Oh meu Deus, sinto muito! Eu não vi você aí e acabei derrubando todo o seu café!

Ele já estava ajoelhado ao meu lado, um joelho no chão, como se fosse me pedir em casamento ou me aplicar primeiros socorros. Sinceramente, não sei qual seria mais estranho.

— Você se queimou? — perguntou, sério demais para o acidente bobo que foi.

— Não. Talvez. Possivelmente sim. — Ótimo, minha boca decidiu ser sarcástica agora.

Um sorriso surgiu, o que só piorou tudo. Um daqueles sorrisos meio tortos, meio contidos, que parecia vir de alguém que não sorria com frequência. Ou seja: ainda mais atraente. Porque o universo me odeia.

— Posso ver? — Ele apontou para a minha perna. Antes que eu protestasse, já examinava a mancha na calça, os dedos roçando perto da minha coxa.

Arfei.

— Acho que o tecido protegeu. Ou talvez eu já tenha me tornado insensível à dor. Trauma acumulado.

Ele ergueu uma sobrancelha, avaliando. O olhar demorou mais do que o necessário.

— Você sempre responde com sarcasmo mesmo quando está ferida?

— Não sei. É a primeira vez que derramo café quente na frente de um estranho elegante.

Ele soltou uma risada breve, quase involuntária. Mas os olhos não riram junto.

— Tem uma farmácia aqui perto. Posso comprar pomada. Ou… você pode manter a marca como lembrança do nosso encontro.

Meus olhos se estreitaram.

— Isso foi... uma cantada?

— Eu sou péssimo com cantadas — confessou levantando-se e me oferecendo a mão.

Toquei os dedos dele com hesitação. Mãos grandes, firmes, com veias marcadas e calor suficiente para derreter qualquer neurônio funcional que eu ainda tivesse.

Ele me ajudou a levantar. E foi então que percebi que a ardência na perna era real. E que ele estava muito perto.

— Eu sou Dante.

— Clara.

— Nome forte. Significa “brilhante”, sabia?

Revirei os olhos, tentando não sorrir.

— E o seu significa “inferno”. Combinação promissora, não acha?

Dante arqueou a sobrancelha novamente. Claramente um homem de poucas palavras e muitas expressões.

— Você tem respostas afiadas.

— Eu tenho ansiedade social e zero filtros. Parece charme, mas é só desespero bem disfarçado.

Dessa vez Dante riu. Um som baixo, contido, quase… ensaiado. Olhou em volta e apontou para uma mesa próxima, no cantinho da cafeteria.

— Posso te pagar um café.

— Só se vier com uma compressa de gelo grátis.

— Feito.

— Na verdade, vou querer dois. Eu vou querer um café expresso do maior que tiver e um capuccino, se não for pedir demais.

— Pode deixar comigo.

— Obrigada!

Minutos depois, ele voltou com três copos. Colocou dois na minha frente com solenidade, como se fosse vinho.

— Cappuccino Italiano, com açúcar e canela. Acertei?

Arregalei os olhos.

— Você leu minha mente?

— Você tem “viciada em cappuccino” escrito na testa.

Ri. Nervosa. Estranhamente confortável e desconfortável ao mesmo tempo.

— E você? — perguntei, apontando para o copo dele. — O que um cara com você bebe?

— Espresso duplo. Puro. Sem alma.

Assenti.

— Combina com o nome. Dante. Parece que você deveria estar andando por corredores sombrios com uma espada ou... assombrando sonhos femininos.

Ele arqueou a sobrancelha. De novo. Estava virando marca registrada.

— Isso foi uma cantada?

Mordi o lábio.

— Eu sou péssima com cantadas.

Ele sorriu de verdade agora. Mas havia algo no fundo daquele sorriso, uma sombra, um peso.

Meu celular vibrou freneticamente.

Maria: “CLARA. A reunião começa em DOIS MINUTOS. O Marcos está perguntando de você.”

Ah, droga.

Levantei num pulo, quase derrubando tudo outra vez.

— Trabalho? — perguntou, ainda calmo demais.

— Inferno pessoal. Mas com planilhas.

Ele se levantou também, alto e tranquilo. O tipo de presença que ficava gravada mesmo quando você tentava ir embora.

— Você vem sempre aqui?

Parei por um instante na porta.

— Quase sempre.

Ele sorriu, como se aquilo fosse exatamente o que queria ouvir. Eu me virei antes que meu rosto entregasse que eu também queria.

— Então talvez a gente se encontre de novo.

Não sei o que me deixou mais nervosa: a ideia de reencontrá-lo, ou a certeza de que eu queria isso.

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