Não diga que me Ama
Não diga que me Ama
Por: Keila Zanardi
Prólogo

O amor sempre foi o gatilho e não um refúgio. Para uns, promessa de eternidade; para mim, sentença de morte. Sempre disse a todas: não diga que me ama. Não era um pedido, era uma regra. Mas, ainda assim, sempre havia aquela que ousava quebrá-la. E, quando a palavra proibida saía de seus lábios, não sobrava escolha. A lâmina fazia o que o coração não podia perdoar. Era simples: o amor não salva, o amor mata.

Naquela noite, guiando pela estrada sinuosa que mais parecia um corredor secreto esculpido pela natureza, pensei em como tudo sempre terminava igual. O som dos pneus sobre o cascalho seco era o único ruído além do vento sussurrando entre os galhos, como se guardasse os segredos que eu carregava.

As árvores ladeavam o caminho de cascalho como sentinelas silenciosas, levantando nuvens de poeira sobre as rodas. O GPS dizia que eu havia chegado, mas a casa ainda parecia distante. Então, finalmente, a vi: no alto de uma pequena colina, solitária, porém tinha ares de cartão-postal. Simples, charmosa, com varanda de madeira, janelas iluminadas e um telhado de telhas vermelhas que contrastava com o céu coalhado de estrelas. O tipo de lugar onde a paz parecia morar em definitivo.

Estacionei o carro diante da casa, desliguei o motor e saí, esticando os braços. O ar estava frio e úmido, com um cheiro de terra molhada e madeira envelhecida. O tipo de cheiro que gruda na pele e no fundo da memória. O jardim era caprichado demais, fileiras de flores perfeitamente alinhadas, nenhuma folha fora do lugar. Parecia um cenário cuidadosamente montado para um espetáculo, e eu era o ator que sabia exatamente como a última cena terminaria.

No andar de cima, avistei Lúcia na varanda, sorrindo. Seus cabelos dourados brilhavam sob o luar, estavam presos em um coque frouxo, e ela usava um vestido branco que tremulava com o vento como se pertencesse ao cenário, não à realidade.

Ao notar minha chegada, ela entrou.

Lúcia abriu a porta, com o sorriso estampado no rosto. O calor da lareira invadiu meus sentidos com cheiro de vinho, madeira queimada e algo doce... talvez maçã e canela.

— Pensei que não viria — disse ela, com a voz leve.

— Eu disse que viria — respondi, subindo os degraus da varanda.

Reparei que ela usava um vestido branco de renda que marcava suas curvas com precisão cirúrgica. A maquiagem sutil realçava os olhos castanhos, e por um momento, confesso, admirei a composição.

Mas então lembrei: nada disso importava.

A sala exalava conforto artificial, arrumada com perfeição inquietante: cortinas alinhadas milimetricamente, almofadas simétricas no sofá. Ela me conduziu até a sala de jantar, que parecia saída de um filme. Uma mesa de jantar posta como se fosse fotografada para uma revista de decoração, talheres de prata, taças de cristal, velas estavam acesas por toda parte, lançando sombras vacilantes nas paredes e pintando tudo com um tom dourado e artificial. Um cenário cuidadosamente preparado, e perfeitamente inútil.

Sentei-me à mesa, observando os detalhes. Um violino suave tocava ao fundo, vindo de uma pequena caixa de som. Lúcia não parava de sorrir. Seus olhos brilhavam de expectativa, mas havia algo mais ali. Um tremor na respiração. Uma hesitação nos dedos.

Ela mal encostou no prato. Nem eu.

— Você ficou linda hoje — elogiei, inclinando a cabeça. Ela corou, como se aquela fosse a primeira vez que ouvia aquilo. — E a comida parece deliciosa.

Ela sorriu. Um sorriso ansioso.

— Eu... Eu precisava te dizer algo. Algo importante. — Sua voz tremia. As velas também.

Revirei mentalmente os olhos. Respirei fundo. Já sabia o que estava por vir. E, no fundo, era exatamente por isso que eu estava ali.

— Querido, faz cinco meses que estamos juntos... E eu sei que pode parecer pouco, mas... desde o começo, foi diferente com você. Eu... Eu te amo.

A palavra caiu como uma lâmina.

O mundo ficou em silêncio por um instante. Nem o violino se atreveu a continuar. Olhei para ela com a calma de quem já ouviu aquela frase várias vezes.

Olhei para ela em silêncio. Mantive o rosto calmo. Eu já havia deixado claro, desde o início. Aquilo não era apenas um pedido, era uma regra. Uma maldita cláusula contratual do nosso acordo informal.

Mas ela disse mesmo assim.

E agora, eu tinha que cumprir minha parte.

Ela se ajoelhou ao meu lado, tocando meu rosto com ternura. Os olhos cheios de esperança, como uma criança oferecendo flores a um monstro.

— Você está bravo comigo?

Sim, pensei. Irritado, decepcionado. Enojado. Queria gritar. Queria arrancar aquela palavra da boca dela com as mãos.

Mas sorri.

— Claro que não. — Segurei sua mão, beijei seus dedos com ternura ensaiada. — Eu entendo. Foi egoísmo meu esperar que você escondesse o que sente. Você foi sincera. Isso é... bonito.

Ela suspirou aliviada. Me abraçou com força e voltou a se sentar, os ombros relaxando. Ela não fazia ideia.

Levantei devagar, caminhei até atrás dela. Meus passos eram leves como os de um jardineiro prestes a arrancar a erva errada.

— Obrigada por me entender. Por um momento, achei que você fosse…

— Terminar com você? — sussurrei em seu ouvido, sorrindo. — Claro que não, Lúcia. Não seria tão fácil assim.

Ela relaxou ainda mais.

— Você sabia que algumas flores morrem quando recebem cuidado demais?

Ela se afastou um pouco, confusa.

— O quê?

Ela virou-se. Foi o momento exato. Ela não teve tempo de reagir. Tirei minha jagdkommando do bolso do casaco e a enterrei em sua barriga, sem hesitação.

A lâmina deslizou precisa e silenciosa. Ela arfou, recuando, os olhos arregalados. A mão indo instintivamente ao ferimento. O sangue tingiu seus dedos. O vestido branco manchou de vermelho vivo, florescendo como uma rosa escura e grotesca.

Ela caiu de joelhos. Nenhum grito. Só lágrimas. Lúcia sempre foi educada.

— Por quê?

Me aproximei novamente. Ela tentou se apoiar na mesa, mas fraquejou. Ajoelhei ao seu lado. Peguei seu rosto entre as mãos. Era tão quente. Tão vivo. Mas não por muito tempo.

— Porque você quebrou a regra — respondi com calma, me afastando. — Eu avisei. Nunca diga que me ama.

Segurei seu rosto entre as mãos. Seus olhos ainda buscavam uma explicação.

— Você mentiu. Como todas as outras. O amor é uma praga. E eu cuido do meu jardim com zelo.

Ela tentou dizer algo, mas o ar já lhe faltava. Seus olhos me imploravam por misericórdia, mas tudo o que ela encontrou foi a frieza de um jardineiro meticuloso que cuidava de seu canteiro.

Beijei sua boca pela última vez. Cravei a lâmina entre suas costelas, no ponto exato onde o coração pulsa mais forte. Foi rápido. Limpo.

O sangue deslizou pela madeira polida do chão. O violino voltou a tocar sozinho, como se o próprio inferno aprovasse a trilha sonora.

— Mais uma praga removida do jardim.

Senti seu último suspiro escapar.

Limpei a arma, ajeitei os talheres sobre a mesa, tudo limpo com precisão cirúrgica, como sempre, uma obsessão por ordem que me acompanhava desde o início.

Antes de sair, olhei para ela no chão uma última vez. Os olhos abertos. A boca entreaberta. Ainda bela. Ainda tola.

— Adeus, Lúcia! E obrigado pela noite maravilhosa.

Fechei a porta atrás de mim.

A noite me acolheu como uma velha amiga.

Voltei ao carro. E me perguntei, por um segundo... quantas ainda precisariam cair antes que alguém entendesse?

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