Mundo de ficçãoIniciar sessãoO primeiro pensamento de Maya, ao abrir os olhos, foi que a cama era macia demais. O segundo foi que ela não estava sozinha.
Virou o rosto devagar e viu Josh deitado ao lado dela, ainda dormindo. Ele estava de costas, respirando fundo, o peito subindo e descendo em ritmo lento. O cheiro suave de uísque vinha dele, misturado ao perfume discreto e masculino. Por um momento, Maya ficou imóvel, com o coração acelerado. A lembrança do casamento, da mansão, do quarto enorme, tudo voltou de uma vez. Ela apertou os lábios. — “É real. Eu realmente me casei com ele.” Mesmo assim, manteve uma distância respeitosa a noite inteira. A cama era grande o bastante para que os corpos nem se encostassem. E, pelo cheiro de álcool, ela imaginou que ele tinha bebido antes de deitar. Tentando não fazer barulho, ela se levantou na ponta dos pés. Pegou o robe deixado na poltrona, vestiu e foi para o banheiro. A água morna do chuveiro ajudou a clarear um pouco a cabeça. Maya fechou os olhos, sentiu a água escorrer pelos ombros e tentou se convencer de que conseguiria lidar com aquilo. — “Você fez isso pela sua mãe. Não esquece.” Depois do banho, ela foi até o closet. Ao entrar, teve a sensação de estar dentro de uma loja de luxo. Havia araras e prateleiras por todos os lados, com vestidos, sapatos, bolsas, caixas de joias. Nenhuma daquelas peças era realmente dela. Tudo havia sido escolhido pela senhora Eleonora Hayes, mãe de Elizabeth e “mãe adotiva” dela aos olhos dos outros. Tamanhos, cores, estilos, tudo pensado para combinar com o papel que teria que desempenhar. — “Não combinam com a Maya de verdade” — pensou. — “Combinam com a substituta.” Ela passou os dedos pelas roupas, sentindo o tecido macio. Um vestido delicado ombro a ombro, azul safira, chamou sua atenção. Havia um conjunto de joias no mesmo tom, um colar simples e brincos discretos, de safira. Maya suspirou. — Então tá… vamos fingir mais um pouco. Vestiu o vestido com cuidado, prendeu o colar no pescoço, colocou os brincos. Depois foi até a penteadeira do quarto e pegou a nécessaire de maquiagem que tinham preparado para ela. Fez uma sombra leve azul céu, um delineado delicado e um batom nude. Quando terminou, olhou o próprio reflexo no espelho. Ela estava bonita. Elegante. Completamente diferente da mulher que servia café e fazia barras de calça na sala de casa. Engoliu o orgulho e a vontade de chorar. — Só mais um dia — sussurrou para si mesma. Josh ainda dormia profundamente quando ela saiu do quarto. Ela não sabia se ele costumava acordar tarde, se tinha dormido pouco ou se simplesmente não se importava em parecer cansado. Mas, por algum motivo, ela sentiu alívio por não ter que encará-lo logo ao despertar. A mansão, naquela manhã, estava quieta. O tipo de silêncio caro, cheio de espaço. Maya desceu as escadas devagar, segurando levemente o corrimão. Cada corredor era amplo demais, com obras de arte nas paredes e tapetes que abafavam qualquer ruído. De vez em quando, via algum empregado passando, com passos discretos. Eles a cumprimentavam com um leve aceno de cabeça, mas também a observavam com atenção. Era curiosidade. E, talvez, julgamento. Ela tentou ignorar. Uma funcionária a guiou até o salão de café da manhã. A mesa era enorme, capaz de acomodar facilmente dez pessoas. Mas só havia dois lugares arrumados, um na ponta e outro ao lado. Maya sentou-se onde indicaram, ajeitando o vestido. Na frente dela havia frutas cortadas, pães, geleias, café, sucos, tudo disposto com perfeição. Ela segurou a xícara de café, mas não conseguiu beber de imediato. A mão ainda tremia um pouco. O tempo passou devagar. Só então escutou passos firmes se aproximando. Josh entrou no salão como se já tivesse feito aquilo a vida inteira. Vestia um terno escuro impecável, camisa clara, gravata bem alinhada. O cabelo ainda úmido denunciava um banho recente. Nem de longe parecia o homem com cheiro de uísque que ela tinha deixado dormindo um pouco antes. Ele se aproximou da mesa e sentou-se de frente para ela, sem sequer cumprimentá-la. Nenhum “bom dia”. Nenhum sorriso. Nada. Maya pousou a xícara com cuidado. Esperou alguns segundos, na esperança de que ele dissesse algo casual, qualquer coisa. Mas o silêncio se prolongou até ele finalmente falar: — Precisamos deixar algumas coisas claras. A voz era calma, mas carregada de firmeza. Maya ergueu os olhos, encontrando o olhar dele. — Estou ouvindo — respondeu. Josh apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando as mãos. — Você pode usar meu sobrenome — começou. — Pode morar nesta casa, dormir no meu quarto e desempenhar o papel de esposa diante da sociedade. Ele falava como quem recita regras de um contrato. — Vai aparecer ao meu lado em eventos, jantares, reuniões de família. Vamos tirar fotos, sorrir para as câmeras, manter as aparências. Maya apertou as mãos no colo, sentindo o peso de cada frase. — Mas fora disso — ele continuou — nossas vidas são separadas. Ela respirou fundo. — Eu entendo. Josh não parou. — Não interfira nos meus assuntos. Nem pessoais, nem profissionais. Se alguém vier até você para falar de negócios, encaminhe para meus assistentes. Não tome decisões em meu nome. Não fale por mim. Cada regra era uma barreira a mais sendo erguida entre eles. — Não crie problemas — ele completou. — Não faça cenas, não se envolva em escândalos, não dê motivos para a imprensa se interessar mais do que o necessário. Maya apenas assentiu. — E principalmente… — ele fez uma pequena pausa, olhando diretamente nos olhos dela — não espere que eu seja um marido de verdade. A frase doeu mais do que ela gostaria de admitir. Não porque ela tivesse qualquer ilusão romântica sobre ele, mas porque escutá-la em voz alta tornava tudo ainda mais real. Ainda assim, ela tentou manter a dignidade. — Não se preocupe, senhor Kameron — respondeu, sem desviar o olhar. — Eu também não me casei por amor. E não espero nada de você. Por um breve instante, algo na expressão dele mudou. Não foi muito, mas o suficiente para ela perceber. Josh pareceu surpreso com a resposta. Como se esperasse que ela chorasse, se humilhasse, implorasse por atenção. Em vez disso, ela havia colocado os dois no mesmo nível, ninguém ali tinha se casado por sentimento. Ele a observou com mais atenção. Os olhos dele percorreram discretamente o rosto maquiado, o vestido azul safira, o colar que combinava, os ombros expostos de forma elegante. O azul deixava a pele dela mais viva, os olhos mais intensos. Por um segundo, ele pensou, contra a própria vontade: — “Ela é bonita demais para esse papel.” E se amaldiçoou mentalmente por ter olhado tempo demais. Resetou a expressão em seguida, voltando ao semblante indiferente. Pegou uma fatia de pão, passou manteiga com calma, como se a conversa tivesse sido sobre o tempo. — Ótimo — disse, por fim. — Então não teremos problemas, senhora Kameron. A forma como ele disse “senhora Kameron” soou ao mesmo tempo formal e distante. Um rótulo sem qualquer laço emocional. Ele tomou um gole de café, levantou-se sem pressa, ajeitou o paletó. — Tenho uma reunião importante agora de manhã — avisou. — A equipe da casa pode te mostrar o resto da mansão. Se precisar de mais roupas, mais joias ou qualquer coisa, fale com minha secretária ou com a governanta. Maya apenas assentiu. — Certo. Ele deu alguns passos em direção à porta, mas parou por um segundo. Não olhou para trás, apenas falou: — E não se preocupe com a imprensa. Eles vão falar de nós por alguns dias, depois vão se cansar. A única coisa que você precisa fazer é… continuar bonita ao meu lado e em silêncio quando for necessário. Maya sentiu o rosto esquentar, mas não respondeu. Josh saiu do salão e desapareceu pelo corredor. A porta se fechou. Maya ficou sozinha à mesa, cercada de comida que não tinha apetite para tocar, em uma casa enorme que não parecia sua, com um sobrenome que não lhe pertencia de verdade. Ela respirou fundo, sentindo o peito apertar. — “Você não se casou por amor” — repetiu mentalmente. — “Mas também não veio aqui para ser humilhada.” Pegou a xícara, tomou um gole de café finalmente, e olhou em volta. Talvez, naquele momento, ela não tivesse muito controle sobre o que acontecia na própria vida. Mas uma coisa ela prometeu a si mesma, ali, naquela mesa enorme. Ela não seria apenas um enfeite na vida de Josh Kameron.






