Mundo de ficçãoIniciar sessãoOs dias seguintes ao casamento passaram como um borrão para Maya. Ela tentou se adaptar à rotina na mansão… acordar cedo, café em uma mesa grande demais para duas pessoas, almoços em silêncio, tardes andando pelos corredores para não enlouquecer. Josh saía cedo e voltava tarde, sempre com a expressão fechada, falando pouco.
Quando Aimée Kameron, sua sogra, bateu à porta do quarto para avisar sobre o jantar de negócios, Maya estava sentada na cama, olhando o celular sem realmente ver nada. — Hoje à noite teremos um evento importante — Aimée anunciou, entrando no quarto sem cerimônia, acompanhada por uma funcionária que carregava uma capa de roupa. — Parceiros antigos da empresa. Você vai com o Josh. Maya se levantou, um pouco tensa. — Claro… eu vou me arrumar. Aimée abriu a capa e revelou um vestido longo na cor vinho, tecido brilhando discretamente sob a luz do quarto. Era elegante, com decote moderado e caimento perfeito. — Escolhi este para você — disse, com um toque de orgulho. — Vinho te deixa mais… marcante. Joias de rubi para combinar. A funcionária abriu uma caixinha e mostrou o conjunto de colar e brincos. Maya observou tudo, sentindo o coração apertar. — É muito bonito… — sussurrou. — Mas talvez seja demais. Aimée ergueu uma sobrancelha. — Nada é “demais” ao lado de um Kameron, minha querida. A esposa de Josh precisa ser vista, comentada… e aprovada. — Ela colocou a mão no ombro de Maya. — Hoje, mais do que nunca, você precisa parecer à altura. Maya engoliu seco, entendendo o recado. — Eu vou fazer o meu melhor. Horas depois, diante do espelho, ela mal se reconhecia. O vestido vinho abraçava o corpo de forma elegante, valorizando a cintura. O colar de rubis se destacava contra a pele, os brincos brilhavam quando ela virava o rosto. A maquiagem tinha sido feita por uma profissional, olhos levemente esfumados, delineado preciso, batom em um tom rosado discreto. Ela estava linda. E, mesmo assim, por dentro, ainda se sentia a garota da cafeteria, com cheiro de café e linhas de costura nas mãos. Josh apareceu na porta do quarto, já pronto. Terno preto impecável, gravata escura, postura reta. Por um segundo, ele parou para observar. Os olhos dele percorreram o vestido, as joias, o rosto maquiado. Não havia desejo explícito ali, mas também não havia indiferença total. — Minha mãe caprichou — ele comentou, por fim. Maya segurou a bolsa com mais força. — É… ela escolheu tudo. Josh fez um gesto com a cabeça em direção ao corredor. — Vamos. Não gosto de chegar atrasado em eventos que envolvem dinheiro. Ela respirou fundo e o seguiu. O jantar acontecia em um salão reservado de um hotel de luxo. Lustres de cristal pendiam do teto, mesas redondas com toalhas brancas ocupavam o espaço. Garçons circulavam com bandejas de aperitivos e taças de champanhe. Havia música ambiente, conversas em tom baixo, risadas contidas. Logo na entrada, alguns olhares se voltaram para o casal. — Josh! — chamou um homem de meia-idade, vindo em direção a eles com um sorriso largo. — Que bom que pôde vir. Josh apertou a mão do homem, um dos sócios antigos da empresa. — Não perderia. — Ele fez um gesto em direção a Maya. — Esta é minha esposa, Maya. A palavra ainda soava estranha. O homem sorriu para ela. — Um prazer, senhora Kameron. — O prazer é meu — ela respondeu, treinando um sorriso educado. Depois de algumas apresentações, Josh foi puxado por um pequeno grupo de investidores para uma conversa sobre números, projetos, contratos. Ele se encaixou ali com tanta naturalidade que parecia feito para aquele ambiente. Maya ficou ao lado dele por alguns minutos, ouvindo termos que não entendia totalmente, até se afastar um pouco, com uma taça de água na mão. Caminhou pelo salão, tentando parecer segura, embora o coração batesse rápido. Observava as pessoas, mulheres em vestidos caros, homens em ternos sob medida, todos se cumprimentando com beijos no rosto e frases prontas. Parou perto de uma mesa onde algumas mulheres conversavam. Não estava tão perto a ponto de participar da conversa, mas perto o suficiente para ouvir o que diziam. — Ela é bonita, não é? — uma delas comentou, olhando discretamente na direção de Maya. — Bonita, sim — respondeu outra, mexendo no próprio brinco de diamante. — Mas ouvi dizer que é filha adotiva da família Hayes. A primeira fez um biquinho, como se considerasse a informação. — Filha adotiva? Nunca ninguém comentou. — Pois é. Eu achei estranho também — continuou a segunda. — Nunca apareceu em evento nenhum, em foto nenhuma… e agora surge, do nada, como esposa do Josh? As duas riram baixo, cúmplices. — Você sabe como é — emendou uma terceira, girando a taça de champanhe. — Quando uma família está desesperada por dinheiro, até parente escondido aparece. Maya sentiu o sangue subir ao rosto. A taça de champanhe pesou na mão. Ela tentou se convencer de que não era com ela. Mas era. Cada palavra parecia uma agulha. “Filha adotiva.” “Do nada.” “Família desesperada.” Ela sabia que não podia explodir ali. Não naquele lugar, não daquele jeito. Só respirou fundo e tentou se afastar, mas as vozes continuaram ecoando. — E, convenhamos — disse a primeira — nenhuma de nós ouviu falar dela antes. Nada em colunas sociais, nada em viagens, nada. — Talvez fosse um projeto secreto — ironizou a segunda. — Tipo: “filha de reserva”, caso a original não funcione. As três riram de novo. Maya apertou ainda mais os dedos ao redor da taça. Quis desaparecer. Quis voltar para casa, para a sala simples com sofá gasto e cheiro de comida caseira. Quis ser, de novo, apenas Maya. Mas ali, naquela noite, ela era “Maya Hayes, esposa de Josh Kameron”. E esse título vinha com veneno. Ela tentou se acalmar. — “Você sabia que isso ia acontecer. Sabia que ia ser julgada. Aguenta.” De relance, viu Josh do outro lado do salão, conversando com um grupo de homens em volta de uma mesa alta. Ele gesticulava pouco, mas falava com segurança. Alguns riam, outros concordavam. Por um momento, ela pensou em ir até ele. Não para pedir ajuda, mas para usar a presença dele como escudo. Talvez, ao lado dele, as pessoas pensassem duas vezes antes de falar. Juntou coragem e caminhou até lá. Esperou o momento em que ele fez uma pausa entre uma frase e outra e se aproximou discretamente. — Com licença… — sussurrou, chegando ao lado dele. Josh a olhou rápido, surpreso pela interrupção. — Eu… — ela começou, sem saber exatamente como se justificar na frente de todos. — Acho que estou atrapalhando seus negócios. Ele franziu levemente a testa. — O que você quer dizer? — perguntou, sem suavidade na voz. Maya o encarou por um segundo, a luz do salão refletindo nos olhos dela. — Eu não pertenço a esse lugar — disse, em voz baixa, apenas para ele. — E todo mundo aqui parece saber disso. Josh olhou ao redor, como se só então percebesse os olhares, os cochichos. — Este é o mundo em que você escolheu entrar — respondeu, frio. A frase atingiu Maya como um tapa. Ela respirou fundo. — Eu não escolhi tudo isso — retrucou, ainda baixo, mas firme. — Eu só… aceitei o que foi colocado diante de mim. Josh ficou em silêncio por um segundo. Podia ter perguntado mais. Podia ter tentado entender um pouco do que ela sentia. Mas, em vez disso, voltou à armadura. — Então deveria ter pensado melhor antes de aceitar — disse, seco. As palavras entraram como facas. Maya não respondeu. Sentiu o peito apertar, os olhos arderem, mas engoliu tudo. — Entendi — sussurrou. Deu um passo para trás, depois outro, até se afastar do grupo. Voltou para um canto mais vazio do salão, onde ninguém se importava se ela estava ali ou não. Encostou-se em uma coluna, respirando fundo. — “Você fez isso pela sua mãe. Não pode fraquejar agora.” Mesmo assim, não conseguiu impedir que uma lágrima escorresse discreta pelo canto do olho. Limpou rápido, antes que alguém notasse. Naquela noite, Maya entendeu duas coisas. Primeiro, que o mundo dos ricos era feito de aparências afiadíssimas, prontas para cortar qualquer um que não se encaixasse. Segundo, que o marido que poderia ser seu único aliado naquele ambiente… preferia tratá-la como alguém que fez uma má escolha e agora tinha que lidar sozinha com as consequências.






