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Capítulo 6 – A nova vida na mansão Kameron

Quando a porta do carro se fechou atrás de Maya, o barulho abafado pareceu selar de vez o destino que ela tinha escolhido. Ou que foi obrigada a escolher.

Ela sentou no banco de trás do carro preto, o vestido de noiva cuidadosamente acomodado sobre as pernas, o buquê agora deixado para trás no hotel. Ao lado dela, Josh entrou sem olhar para ela. Apenas se acomodou, ajeitou o paletó e olhou pela janela oposta.

O motorista ligou o carro e saiu em direção à mansão. O silêncio era tão pesado que Maya quase podia ouvi-lo. Ela apertou os dedos, tentando controlar o nervosismo. Olhou brevemente para Josh, mas ele parecia distante, como se estivesse em outro mundo, outro problema, outro pensamento.

— “É esse o homem com quem me casei” — pensou. — “Com quem vou dividir uma casa. Uma cama.”

O coração apertou.

Do lado de fora, as luzes da cidade passavam rápido. Placas, prédios, pessoas na rua. Uma vida comum que continuava normalmente, sem saber que, dentro daquele carro, uma mulher tinha acabado de vender o próprio destino.

Ela respirou fundo e decidiu tentar, pelo menos, quebrar o gelo.

— Obrigada… por ter aceitado na frente do padre — ela arriscou, lembrando do casamento, do jeito que ele não hesitou em responder, mesmo que sem emoção.

Josh não desviou o olhar da janela.

— Eu não fiz nada de mais — respondeu, seco. — Eu só fiz o que esperavam de mim.

Maya mordeu a língua.

— Eu sei que você não me queria como esposa — ela sussurrou — mas eu também não pedi pra estar lá.

Ele finalmente a olhou, rápido, como se não esperasse tanta sinceridade.

— Então estamos quites — disse, voltando a olhar para fora.

Maya desistiu de falar. O resto do trajeto foi engolido pelo som do motor e pelo peso daquilo que nenhum dos dois dizia em voz alta.

Quando o carro atravessou o portão da mansão Kameron, Maya teve a sensação de estar entrando em outro universo agora casada.

Assim que o veículo parou, dois funcionários abriram as portas. Maya desceu com cuidado, segurando a barra do vestido. Sentiu o vento da noite bater no rosto, misturando perfume de flores e cheiro de grama molhada.

Na entrada, uma fileira de empregados os esperava, alinhados. Homens de terno, mulheres de uniforme impecável. Todos de cabeça levemente baixa, em respeito.

Era o tipo de cena que ela só via em dramas na TV.

Rever a grandiosidade do lugar fez o estômago dela revirar. Aquele não era o mundo dela. Ela sabia disso com todas as células do corpo.

Uma mulher de meia-idade, postura reta e olhar firme, deu um passo à frente. Usava um uniforme mais elegante que os demais, um avental discreto, e parecia ser a responsável por organizar tudo ali.

— Bem-vinda à mansão Kameron, senhora — disse, com um tom respeitoso, mas sem exageros.

Maya demorou um segundo para perceber que “senhora” era ela. Ela, que até pouco tempo atrás pegava dois ônibus para chegar no trabalho.

— Eu… obrigada — respondeu, sem saber exatamente como se portar.

Josh finalmente falou, a voz dura cortando o ar.

— Esta é a senhora Ingrid, governanta da casa. Ela cuida da mansão, dos funcionários e da organização de tudo.

Ingrid fez um leve aceno com a cabeça.

— Qualquer coisa que precisar, basta me chamar.

Maya assentiu.

— Certo.

Josh então completou, virando-se para a governanta:

— Mostre o quarto do… casal a ela.

Houve uma pausa breve antes da palavra “casal”, como se ele engasgasse com o termo. Maya o olhou, confusa.

— Não terá viagem de lua de mel? — perguntou, sem pensar muito.

Tinha ouvido tanto sobre isso em histórias, novelas, fotos de outras pessoas nas redes sociais. Parecia algo padrão. Josh soltou uma risada baixa, sem humor.

— Lua de mel? — repetiu, como se fosse um conceito distante. — Esse casamento é apenas um acordo entre famílias. Não espere que eu finja mais do que isso.

Ele ajeitou o relógio no pulso, como se estivesse apenas discutindo um contrato de trabalho.

— Então, sem lua de mel — concluiu. — E sem encenação desnecessária.

Maya sentiu o rosto queimar.

— Eu também não pedi lua de mel — respondeu, num tom baixo, mas firme. — Só perguntei.

Ele não se deu ao trabalho de continuar a conversa. Apenas se virou para Ingrid.

— Vou para o meu escritório. Certifique-se de que a… senhora Kameron saiba onde estão as coisas básicas.

“Senhora Kameron.”

A expressão caiu sobre ela como um peso. Era estranho ouvir aquilo. O nome não combinava com a história que ela carregava dentro de si.

Josh se afastou pelos corredores da mansão, sem olhar para trás.

Maya o acompanhou com os olhos até ele desaparecer em uma curva. Só então percebeu que havia prendido a respiração.

Ingrid se aproximou, com um olhar que misturava curiosidade e profissionalismo.

— Por aqui, senhora — disse, com gentileza controlada.

Enquanto caminhavam pelos corredores largos, Maya tentava absorver tudo. As paredes eram decoradas com quadros caros, havia mesas com vasos de flores frescas, tapetes macios que abafavam o som dos passos. Tudo organizado, limpo, brilhante.

Ela se sentia uma intrusa.

— A casa é… enorme — comentou, quase sem perceber.

— A senhora se acostuma — respondeu Ingrid, com um meio sorriso. — No começo, parece um labirinto. Depois, começa a fazer sentido.

— Não tenho certeza se esse lugar vai fazer sentido algum dia pra mim — Maya sussurrou, mais para si mesma.

Ainda assim, Ingrid escutou.

— A senhora não é a primeira a se sentir deslocada em uma casa grande demais — disse, num tom que deixava escapar um pouco de humanidade.

Chegaram a uma porta dupla no fim de um corredor do segundo andar. Ingrid a abriu.

O quarto era enorme. Tinha uma cama king size com cabeceira estofada, uma varanda com vista para o jardim, um sofá, uma poltrona, um closet que parecia maior do que o quarto inteiro da casa onde Maya morava com os pais. O banheiro anexado tinha banheira, duas pias, um espelho enorme.

Era bonito. Luxuoso. Impressionante.

E frio.

— Este é o quarto do casal — explicou Ingrid. — Suas coisas já foram trazidas para o closet. Amanhã podemos ver o que precisa ser ajustado.

Maya deu alguns passos para dentro, meio sem acreditar.

“Quarto do casal.”

Ela olhou para a cama como se fosse um objeto estranho.

— O senhor Kameron não volta para cá hoje? — arriscou.

Ingrid hesitou por um segundo.

— O senhor Josh costuma trabalhar até tarde no escritório. Ele virá quando o sono bater junto com o cansaço.

Maya entendeu a mensagem implícita. Aquele quarto, embora fosse “do casal”, não seria necessariamente dividido como “do casal”.

Uma parte dela se sentiu aliviada por não ter obrigatoriamente o sexo. Outra se sentiu ainda mais rejeitada.

— Se precisar de alguma coisa, basta telefonar para a recepção interna — disse Ingrid, apontando para o telefone sobre a mesinha. — Há um ramal para a cozinha, outro para a equipe de limpeza e um direto para mim.

— Certo… obrigada — respondeu Maya.

A governanta fez um leve aceno de cabeça e saiu, fechando a porta atrás de si. Quando ficou sozinha, o silêncio pareceu ainda maior.

Maya caminhou até a varanda e abriu a porta de vidro. O ar da noite entrou, junto com o som distante da fonte no jardim.

Ela apoiou as mãos no parapeito e olhou para baixo.

Lá embaixo, tudo era bonito, bem feito, organizado. Luzes suaves iluminando o gramado, uma piscina refletindo o céu escuro, árvores cercadas por pequenos pontos de luz.

— “É aqui que eu vou viver agora” — pensou. — “É isso que eu escolhi.”

Ou o que a vida escolheu por ela.

Voltou para dentro, sentou na beira da cama e tirou os sapatos com cuidado. O vestido ainda estava impecável, mas por dentro ela se sentia desmanchando.

— “Casada.”

A palavra parecia grande demais para ela. Com um homem lindo, rico, poderoso… e completamente inacessível.

A imagem de Josh veio à mente… alto demais, postura impecável, rosto sério, olhos frios. Ele era, sem dúvida, atraente. Tinha um corpo que chamaria atenção em qualquer lugar, uma presença que preenchia o ambiente.

Mas nada disso importava.

Deitar ao lado de um homem lindo e com um corpo sedutor não era o que ela queria, não daquele jeito. Não com ele sendo tão cruel, tão frio, tão fechado para qualquer possibilidade de aproximação.

Ela não queria ser apenas um corpo ao lado do dele. Não queria ser uma estranha com aliança no dedo.

Maya deitou na cama, olhando para o teto. O colchão era macio, o travesseiro perfeito, o quarto cheirava a algo caro e delicado. Mas ela se sentia mais desconfortável do que jamais tinha se sentido na pequena cama de solteiro que tinha em casa.

Pegou o celular na bolsa e abriu a conversa com a mãe. Havia várias mensagens.

— “Maya, chegou bem? Está tudo certo aí? Consegue ligar quando der?”

Ela respirou fundo e digitou:

— “Cheguei sim, mãe. É tudo muito grande aqui. O trabalho é importante, mas vou conseguir dar conta. Amanhã te ligo. Te amo.”

Ela não mencionou a palavra “casamento”. Não falou da mansão, do marido frio, do vestido branco. A mãe só sabia que ela tinha conseguido um emprego que pagaria bem.

Uma mentira, em cima de outra, em cima de outra. Maya fechou os olhos, sentindo as primeiras lágrimas escorrerem.

— Eu consigo… — sussurrou para si mesma. — Eu preciso conseguir.

Lá em algum lugar da casa, talvez em um escritório cheio de papéis e telas de computador, Josh também estava acordado. Talvez pensando em negócios, talvez tentando esquecer que tinha colocado uma aliança no dedo naquele dia.

O casamento que ninguém queria tinha sido feito.

E, naquela primeira noite na mansão Kameron, Maya percebeu com clareza que sua vida ali seria muito mais difícil do que imaginava.

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