Mundo ficciónIniciar sesiónO jantar finalmente chegou ao fim, mas a sensação de sufocamento só piorou. O som dos talheres batendo no cristal parecia o tique-taque de uma bomba relógio. Enquanto os convidados começavam a se dispersar, desfilando suas falsas promessas de lealdade e apertos de mão corporativos, eu sentia o olhar de Caleb como uma queimadura química na minha pele.
Eu estava exausta. A máscara de "noiva radiante" pesava mais que as joias de esmeralda no meu pescoço. Meu pai e minha mãe estavam na entrada principal, distribuindo sorrisos e apertos de mão, agindo como se tivessem acabado de salvar a espécie, quando na verdade só tinham assinado o meu atestado de óbito social. Aproveitei um momento de distração de Silas e tentei escapar pelo corredor lateral que levava à biblioteca. Eu só precisava de cinco minutos sem o cheiro de testosterona e mentiras. Mas Caleb era um rastreador. Eu não estava nem na metade do corredor, em um recuo escurecido perto de uma das colunas de mármore, quando senti o ar ser arrancado dos meus pulmões. Uma mão pesada agarrou meu ombro e me girou com uma violência bruta, me prensando contra a parede fria. — Pensou que ia se livrar de mim sem um "boa noite" adequado, Jade? — Caleb rosnou. Ele colou o corpo no meu com uma força que fez minha cabeça bater levemente na pedra. Não havia espaço. Nem para respirar, nem para pensar. O calor que emanava dele era agressivo, sufocante. Antes que eu pudesse protestar, ele cravou as mãos nas minhas coxas, subindo pela fenda do vestido verde até apertar a carne com força suficiente para deixar marcas roxas amanhã. — Você me provocou a noite inteira — ele sibilou contra o meu pescoço, a voz carregada de uma luxúria sombria e possessiva. — Aquele vestidinho, aquele sorriso... Você acha que é engraçado brincar com o apetite de um Alfa? — Me solta, Caleb. Você está bêbado de poder e uísque — tentei empurrá-lo, mas era como tentar mover uma montanha de músculos e má intenção. Ele soltou uma risada baixa e perversa, e então se pressionou ainda mais contra mim. Eu senti. A ereção dele era rígida, um volume invasivo e impiedoso que ele esfregou deliberadamente contra o meu ventre, usando o peso do próprio corpo para me manter imobilizada. O contraste entre a seda fina do meu vestido e a brutalidade do corpo dele era nojento. — Sente isso? — ele perguntou, a respiração quente e fétida atingindo minha orelha. — Isso é o que você desperta. E eu juro pela minha linhagem que a única razão de eu não te jogar nesse chão e te marcar agora mesmo, na frente de todo mundo, é porque eu tenho uma imagem a manter. Por enquanto. Ele soltou uma das minhas coxas para levar a mão ao meu seio, apertando-o com uma posse grosseira, sem um pingo de ternura. Eu fechei os olhos, sentindo uma onda de ódio tão pura que meu lobo interior pareceu finalmente despertar do coma, rosnando nas profundezas da minha mente. — Mas não perde por esperar, Jade — ele continuou, a voz descendo para um tom de promessa sombria. — Depois que o papel estiver assinado e as portas do meu quarto trancadas, eu vou tirar essa sua arrogância na base do grito. Eu vou te quebrar até você não conseguir nem lembrar o próprio nome, só o meu. Você vai ser a Luna mais submissa que essa região já viu. — Você nunca vai ter a minha alma, Caleb — cuspi as palavras, encarando-o com todo o desprezo que eu conseguia reunir. — Você só está comprando um corpo vazio. — Eu não dou a mínima para a sua alma — ele rebateu com um sorriso cruel. — Eu só quero o que está entre as suas pernas e o poder que o seu sangue me dá. Antes que eu pudesse reagir, ele segurou minha nuca com força, os dedos cravados no meu couro cabeludo, e esmagou a boca na minha. Não era um beijo. Era uma invasão. Ele forçou a língua, o gosto de álcool e possessão me dando náuseas imediatas. Eu mordi o lábio dele com força, sentindo o gosto metálico de sangue, mas ele nem recuou. Ele apenas grunhiu e apertou meu corpo contra a parede com mais força, como se quisesse me fundir à pedra. Quando ele finalmente se afastou, ele limpou o sangue do lábio com o polegar, olhando para mim com um brilho sádico de triunfo. — Guarde esse fogo para a lua de mel, querida. Você vai precisar dele. Ele se afastou, ajeitando o terno impecável como se nada tivesse acontecido. Caminhou de volta para o salão principal com a mesma arrogância de sempre, deixando-me ali, trêmula de fúria e nojo, encostada na parede fria. Eu me sentia suja. Sentia como se o toque dele tivesse deixado uma crosta de lodo sobre a minha pele esmeralda. Limpei minha boca com as costas da mão, sentindo o coração martelar contra as costelas. — Eu vou te matar — sussurrei para o corredor vazio. — Eu juro que vou ver você sangrar. Saí do canto escuro e caminhei em direção à varanda lateral, precisando desesperadamente de ar puro. Meus pulmões ardiam. Eu precisava de algo que não fosse o cheiro de Caleb. O ar da noite me atingiu, frio e cortante. Apoiei as mãos no parapeito, olhando para a floresta. O silêncio lá fora era absoluto, mas eu sabia que a paz era uma ilusão. E foi então que eu senti. Não era apenas o cheiro de sândalo e tempestade. Era uma vibração no ar, uma pressão estática que fazia meus pelos se arrepiarem de uma forma completamente diferente. Dominic não estava mais apenas assistindo. Ele estava perto. Muito perto. O rosnado que veio da escuridão não foi baixo. Foi um som gutural, carregado de uma fúria ancestral que fez as janelas de vidro da mansão vibrarem levemente. Eu olhei para a linha das árvores e vi um par de olhos cinzas que brilhavam como metal derretido. Dominic tinha visto. Ele tinha sentido cada segundo da investida de Caleb através do nosso laço. E, pela primeira vez, eu vi o reflexo da lua nas garras dele, que estavam cravadas no tronco de um carvalho, estraçalhando a madeira como se fosse papel. — Se você sentiu isso — eu disse baixo, olhando diretamente para onde ele estava escondido —, então sabe que eu não aguento mais nem um segundo nessa casa. O vento soprou mais forte, trazendo o cheiro dele para dentro dos meus pulmões, limpando o rastro de Caleb. Dominic deu um passo para fora das sombras profundas, a luz da lua atingindo seu rosto marcado e as mandíbulas travadas. Ele parecia um deus da guerra prestes a declarar o apocalipse. Ele não disse uma palavra, mas o jeito que ele olhou para o meu lábio inchado e para a marca de dedos no meu braço foi o suficiente. Ele não ia esperar pelo casamento. Ele não ia esperar pelo contrato. A contagem regressiva para o massacre de Caleb tinha acabado de chegar a zero. E, pela primeira vez naquela noite de horrores, eu me senti segura sob o olhar de um monstro. — Leve-me embora — pedi em pensamento, fechando os olhos. — Leve-me e queime este lugar até o chão. O silêncio que se seguiu foi o prelúdio do caos.






