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Capítulo 8: Pele em Carne Viva

​Tranquei a porta do quarto e girei a chave duas vezes, como se o metal pudesse manter o nojo do lado de fora. O silêncio da suíte era pesado, mas não o suficiente para abafar o eco das palavras de Caleb no corredor. Eu ainda conseguia sentir a pressão do corpo dele contra o meu, o volume obsceno da sua ereção e o gosto de uísque barato que ele forçou na minha boca.

​Corri para o banheiro. Não liguei as luzes; a claridade parecia um insulto à minha indignação. No escuro, arranquei o vestido esmeralda. A seda, que horas atrás era minha armadura de vingança, agora parecia um pano sujo de graxa. Eu a joguei no canto do box com um ódio visceral. Se eu pudesse, teria ateado fogo ali mesmo.

​Liguei o chuveiro no máximo. A água caiu fervendo, mas eu não recuei. Eu queria que a pele ardesse. Queria que o calor desintegrasse o rastro de Caleb.

​— Sai de mim... porra, sai de mim — sibilei, esfregando a bucha com tanta força no ombro e no pescoço que a pele começou a ficar em carne viva.

​Eu me esfreguei até os braços doerem. Usei o sabonete mais forte que encontrei, tentando desesperadamente substituir o odor de "posse" de Caleb pelo cheiro de limpeza química. Mas o pior não era o cheiro. Era a memória celular. Meu corpo parecia traumatizado pelo toque dele, uma reação biológica de repulsa que nenhuma quantidade de água quente conseguia lavar.

​Saí do banho vermelha, com o vapor embaçando tudo. Evitei o espelho. Eu não queria ver a Jade que tinha se deixado prensar contra uma parede. Vesti a camisa de dormir mais larga e velha que tinha — de algodão grosso, nada de seda, nada que marcasse o corpo. Queria me sentir invisível, enterrada sob camadas de pano.

​Deitei na cama e fechei os olhos, mas a escuridão trouxe Dominic. O contraste era paralisante. Dominic, que nem tinha me tocado, despertava um incêndio de desejo que eu mal conseguia controlar. Caleb, que tinha me apalpado como se fosse dono do meu útero, despertava um desejo de assassinato.

​— Só mais alguns dias — sussurrei para o travesseiro. — Ou ele morre, ou eu mato.

​A manhã seguinte chegou com uma luz clara e cruel. Eu não tinha dormido quase nada, mas a adrenalina ainda sustentava meus movimentos. Desci para o café da manhã com a expressão mais neutra que consegui esculpir.

​Meu pai estava sentado à cabeceira, o jornal digital aberto e uma xícara de café preto fumegando ao lado. O silêncio dele era calculado.

​— Sente-se, Jade — ele disse, sem tirar os olhos da tela.

​Puxei a cadeira e me servi de café. O estômago estava fechado, mas eu precisava de cafeína para não desmoronar.

​— Recebi uma ligação do Alfa Caleb agora pouco — Silas começou, finalmente baixando o tablet e me encarando com aquele olhar de quem está avaliando o lucro trimestral. — Ele está... impressionado.

​— Imagino que sim — respondi, a voz seca. — Ele tem gostos bem básicos para alguém com tanto dinheiro.

​Silas ignorou meu sarcasmo, mas seus olhos brilharam com uma advertência perigosa.

​— Ele disse que sua postura no jantar foi impecável. A "ousadia" do seu vestido e o jeito que você o provocou... parece que funcionou melhor do que eu esperava. Ele me confessou que não vê a hora de acelerar o casamento. Ele te quer, Jade. Mais do que antes.

​— Ele quer um objeto de cena, pai. Não confunda tesão possessivo com admiração.

​— Não me importa como ele chama isso! — Silas bateu a mão na mesa, fazendo as xícaras vibrarem. — O que importa é que ele está satisfeito. Você agiu como uma fêmea de valor, atraiu o interesse dele e garantiu que ele não olhasse para nenhuma outra matilha. Aquela exibição na varanda... ele me contou que você foi "muito receptiva" às investidas dele antes de ele ir embora.

​Senti meu sangue gelar. "Receptiva". Caleb tinha mentido, transformando o assédio em um flerte mútuo para inflar o próprio ego diante do meu pai.

​— Receptiva? — Dei uma risada amarga, sentindo a bile subir. — Ele me prensou contra a parede e me beijou à força, pai. Ele me tratou como se eu fosse uma puta de beira de estrada.

​Silas deu de ombros, voltando a pegar a xícara de café com uma indiferença que me atingiu mais do que qualquer tapa.

​— Ele é o seu futuro marido e um Alfa de linhagem superior. Ele tem o direito de ser impaciente. Se você não queria que ele te tocasse daquela forma, não deveria ter usado um vestido que convida qualquer macho a perder o controle. Você jogou o jogo, Jade. Agora aguente as regras.

​— As regras são que eu sou um ser humano, não um pedaço de carne no açougue!

​— As regras são as que eu ditei! — Ele rugiu, a aura de Alfa inundando a sala, pesada e asfixiante, me forçando a baixar a cabeça contra a minha vontade. — Caleb está satisfeito, o contrato está sendo finalizado e você vai continuar sendo a noiva perfeita. Ele virá amanhã para discutirmos a data oficial. Quero você pronta. E, desta vez, tente ser um pouco menos sarcástica e um pouco mais... agradecida pela sorte que tem.

​Ele se levantou e saiu da sala, deixando-me sozinha com o cheiro de café frio e a sensação de que as paredes daquela mansão estavam se fechando sobre mim.

​Eu não era mais uma pessoa naquela casa. Eu era uma moeda de troca que tinha acabado de ser valorizada no mercado. O fato de Caleb ter gostado da minha "ousadia" só tornava tudo pior; minha tentativa de vingança tinha se tornado o combustível para a obsessão dele.

​Caminhei até a janela da sala de jantar que dava para a parte de trás da propriedade. O jardim estava em silêncio sob o sol da manhã, mas meu olhar foi direto para a orla da floresta.

​Lá fora, nas sombras que o sol ainda não tinha alcançado, o mundo era diferente. Dominic não estava visível, mas a conexão entre nós estava vibrando como uma corda de violino prestes a estourar. Eu sabia que ele tinha sentido minha raiva no banho. Sabia que ele estava sentindo o nojo que eu sentia agora.

​— Ele não vê a hora de se casar comigo, pai? — sussurrei para o vidro embaçado pela minha respiração. — Pois eu não vejo a hora de ver o que o Dominic vai fazer com ele quando descobrir que o "Alfa de Ferro" tocou no que o destino reservou para um monstro.

​Se Silas achava que Caleb era a nossa salvação, ele estava prestes a descobrir que tinha convidado o diabo para jantar, enquanto o verdadeiro apocalipse estava apenas esperando o convite para entrar e quebrar tudo.

​Voltei para o meu quarto. Eu não ia ser "agradecida". Eu ia ser letal. Se Caleb queria uma loba ousada, eu ia dar a ele exatamente isso. Mas a última coisa que ele veria antes de o mundo dele desabar seria o meu sorriso — o real, não o ensaiado.

​Peguei meu celular e vi uma mensagem de um número desconhecido. Apenas duas palavras que fizeram meu coração parar e recomeçar em um ritmo frenético:

​"Limpe o cheiro dele. Você é minha."

​O celular escorregou da minha mão. Dominic não estava apenas na floresta. Ele estava em todo lugar. E o jogo de Caleb tinha acabado de se tornar um suicídio assistido.

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