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Capítulo 6: O Ritmo do Abatedouro

l​A música clássica no salão mudou para algo mais lento, uma valsa moderna que soava como um lamento sofisticado. O som do violino arranhava meus ouvidos, mas eu mantinha a máscara de porcelana intacta. Caleb caminhou em minha direção, atravessando o mar de convidados com a arrogância de quem já se sentia dono do território.

​— Acho que esta é a nossa deixa, Luna — ele disse, estendendo a mão.

​Eu olhei para os dedos dele, imaginando como seria fácil quebrá-los um por um. Mas eu sorri. Aquele sorriso que eu tinha ensaiado no espelho: brilhante, vazio e perigoso.

​— É uma valsa, Caleb. Tente não pisar nos meus pés ou na minha paciência.

​Ele soltou uma risada curta e me puxou para o centro do salão. A mão dele pousou na base das minhas costas nuas, exatamente onde o vestido verde terminava e a minha pele começava. O contato foi como um choque de baixa voltagem, mas sem a faísca do desejo. Era apenas invasivo. Seus dedos apertaram minha carne com uma força possessiva, reivindicando cada centímetro sob o olhar atento dos Anciãos.

​Começamos a nos mover. Caleb dançava como se estivesse em uma luta de boxe disfarçada, conduzindo-me com uma agressividade que beirava o domínio físico.

​— Você está muito tensa, Jade — ele sussurrou, aproximando o rosto do meu. O cheiro de uísque e poder emanava dele. — Relaxa. Você deveria estar aproveitando o seu triunfo. Olhe para eles. Todos sabem que você é a fêmea mais desejada desta sala.

​— Ser desejada por uma sala cheia de abutres não é exatamente o meu conceito de triunfo, Caleb.

​— Mas ser desejada por mim deveria ser — ele rebateu, puxando-me para mais perto, eliminando qualquer espaço que ainda restava entre nós. Senti o calor do corpo dele através da seda fina do meu vestido. — Eu vi como você me olhou na mesa. Você gosta desse jogo de poder, não gosta? Gosta de saber que eu posso te esmagar se eu quiser.

​Eu inclinei a cabeça para trás, encarando os olhos dele.

​— Você confunde medo com fascinação, Caleb. E confunde submissão com silêncio. Eu não sou uma das suas betas de luxo que aceitam migalhas de atenção em troca de um colar de diamantes.

​— Eu sei o que você é — ele rosnou baixo, e por um momento o lobo dele apareceu na superfície, os olhos brilhando em um tom amarelado doentio. — Você é uma loba sem marca que precisa de um Alfa para não ser descartada como lixo pela própria família. Eu sou a sua única saída, Jade. E quanto mais rápido você aceitar isso, mais prazeroso será o nosso... arranjo.

​Ele deslizou a mão das minhas costas para o meu quadril, puxando minha coxa contra a dele enquanto girávamos. Foi uma investida pública, um gesto deliberado para mostrar a todos os presentes que eu já era propriedade dele. Vi meu pai, Silas, ao longe, assentindo com a cabeça, um brilho de satisfação nos olhos.

​A náusea subiu pela minha garganta. O desejo de Caleb era um peso morto, uma pressão que não encontrava resposta no meu sangue. Eu era um deserto de gelo para ele, e quanto mais ele tentava me incendiar, mais fria eu ficava.

​— Você fala muito de prazer, mas cheira a desespero — provoquei, minha voz um sussurro letal perto do ouvido dele. — O que foi? Suas outras fêmeas ficaram entediadas com a sua "intensidade"?

​O rosto de Caleb endureceu. Ele parou a dança abruptamente no meio do salão, mantendo os braços ao meu redor, ignorando os casais que continuavam a circular.

​— Você tem a língua muito comprida para alguém que está prestes a ser marcada — ele disse, a voz vibrando de uma raiva contida. — Talvez eu deva te mostrar aqui mesmo o que acontece com lobas que desafiam o Alfa errado.

​Ele me apertou com tanta força que senti minhas costelas protestarem. Ele estava tentando me intimidar, usando sua aura de Alpha para me forçar a baixar os olhos. Mas o que ele não sabia é que eu tinha visto a verdadeira escuridão na floresta. Comparado a Dominic, Caleb era apenas um filhote latindo alto.

​Eu não desviei o olhar. Eu sorri.

​— Faça isso, Caleb. Mostre a todos o quão inseguro você é. Marque-me à força na frente do Conselho e prove que você não consegue conquistar uma fêmea sem usar os dentes.

​Ele rosnou, um som gutural que silenciou os convidados mais próximos. Por um segundo, achei que ele realmente fosse me atacar ali. Mas ele era político demais para isso. Ele relaxou o aperto, embora seus olhos continuassem prometendo violência.

​— Você vai pagar por cada insolência, Jade. Eu vou me certificar de que, após a nossa noite de núpcias, você não consiga nem andar, muito menos falar comigo desse jeito.

​— Mal posso esperar para ver você tentar — respondi, soltando-me dos braços dele com uma elegância gélida.

​Virei as costas e caminhei em direção à mesa de bebidas. Meu coração estava disparado, não de medo, mas de uma adrenalina pura e tóxica. Eu estava no limite. O teatro estava ficando insuportável.

​Peguei uma taça de cristal e a bebi de uma vez, sentindo o líquido queimar. Meus olhos foram atraídos, quase que magneticamente, para as janelas de vidro que davam para a floresta.

​Lá fora, a escuridão era absoluta. A iluminação de segurança da mansão criava um perímetro de luz, mas além disso, o mundo pertencia às sombras. E eu sabia que ele ainda estava lá.

​Eu não precisava vê-lo para saber que Dominic não tinha se movido. Eu sentia o peso do olhar dele atravessando o vidro, a floresta e a minha própria pele. A fúria dele era como uma nota baixa e constante tocando no fundo da minha mente. Ele estava assistindo a cada toque de Caleb, a cada palavra, a cada tentativa de humilhação.

​Imaginei Dominic lá fora, com os pés fincados na terra úmida, as cicatrizes no peito pulsando sob a luz da lua. Imaginei a mandíbula dele travada, o autocontrole sendo esticado até o ponto de ruptura. Ele era o predador silencioso esperando o momento em que a presa — eu — estivesse exausta demais para lutar, ou o momento em que o rival cometesse o erro fatal.

​Caleb se aproximou de novo, desta vez acompanhado pelo meu pai.

​— Jade, o Alpha Caleb sugeriu que fizéssemos o brinde oficial de noivado agora — meu pai disse, a voz carregada de uma autoridade que não aceitava contestação. — Vamos ao palco.

​— Agora não, pai — eu disse, olhando fixamente para a escuridão lá fora.

​— Agora, Jade — ele sibilou, segurando meu braço com força. — Pare de olhar para o nada e foque na sua obrigação.

​Eu me deixei ser conduzida. Subi os pequenos degraus do estrado de madeira sob as luzes ofuscantes dos lustres. Caleb parou ao meu lado, pegando uma taça e levantando-a para a multidão.

​— A todos os presentes — ele começou, a voz projetada para cada canto do salão. — Hoje não celebramos apenas a união de duas linhagens. Celebramos a posse. A partir desta noite, a Matilha da Lua Prateada e a Matilha de Ferro caminham como uma só. E Jade... ela é a promessa de um futuro de força.

​Ele se virou para mim, levantando a taça.

​— Para a minha Luna. Que ela aprenda rápido que o seu lugar é ao meu lado, e em nenhum outro lugar.

​Os convidados aplaudiram. O som era como o bater de asas de urubus. Eu olhei para a multidão, para os rostos gananciosos e complacentes, e depois olhei para o vidro.

​Naquele momento, uma sombra se moveu na borda da luz. Foi rápido, quase imperceptível para um olho humano, mas para uma loba, foi como um sinalizador de guerra.

​Um vulto massivo cruzou o campo de visão da janela dos fundos. Dominic estava se movendo. Ele não estava mais apenas assistindo. Ele estava circulando a casa, como um tubarão em volta de um barco prestes a naufragar.

​Senti um arrepio de prazer genuíno percorrer minha espinha. Caleb achava que tinha feito um brinde à sua vitória. Ele não tinha ideia de que tinha acabado de tocar o sino do jantar para o monstro que morava na escuridão.

​Eu levantei minha taça, o sorriso nos meus lábios agora era real e aterrorizante.

​— Ao futuro, Caleb — eu disse, a voz clara e direta. — Que ele seja exatamente o que todos vocês merecem.

​Bebi o champanhe enquanto o vento lá fora começava a uivar, trazendo o cheiro de ozônio e sândalo para mais perto das portas trancadas da mansão. Dominic ainda não tinha aparecido, mas a contagem regressiva para o massacre tinha começado. E eu mal podia esperar para ver o sangue manchar o tapete branco da sala de jantar.

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