Mundo ficciónIniciar sesiónCAPÍTULO 6 — CELESTE
Manter o controle sempre foi a única forma que encontrei de não desmoronar completamente, porque quando você aprende da pior maneira possível que confiar em alguém pode custar muito mais do que apenas um coração partido, você começa a entender que sentir demais não é uma fraqueza passageira, mas um risco real que pode destruir tudo aquilo que você levou tempo para reconstruir, e é exatamente por isso que, enquanto caminho pelos corredores do hospital naquela manhã, com o corpo cansado e a mente ainda mais exausta, eu me esforço para manter cada pensamento no lugar certo, longe de qualquer coisa que possa me tirar do eixo que eu lutei tanto para manter.
O problema é que, por mais disciplinada que eu seja, por mais que eu tenha passado meses me convencendo de que não preciso de ninguém, de que minha vida já está completa do jeito que está, existe uma presença que insiste em atravessar essa barreira com uma facilidade irritante, como se não reconhecesse os limites que eu estabeleci com tanto cuidado, e o mais frustrante de tudo é perceber que essa presença não faz absolutamente nada de errado para justificar a reação que causa em mim, o que torna tudo ainda mais difícil de ignorar.
Ben.
O simples fato de pensar no nome dele já é suficiente para me deixar em alerta, não porque exista alguma ameaça concreta, mas porque ele representa exatamente aquilo que eu decidi evitar, alguém que observa demais, que percebe demais e que, mesmo sem intenção aparente, se aproxima de uma forma que não me deixa confortável, não porque ele faça algo inadequado, mas porque ele não se mantém distante como deveria.
Eu entro em um dos quartos para verificar um paciente, me concentrando nos procedimentos, nos dados, nos detalhes técnicos que sempre funcionaram como uma espécie de escudo contra qualquer distração emocional, mas mesmo enquanto faço isso, uma parte da minha atenção permanece inquieta, como se estivesse esperando algo acontecer, e eu odeio essa sensação porque ela me lembra de uma versão minha que eu não reconheço mais, uma versão que reagia a presença de alguém com curiosidade em vez de cautela.
Depois de terminar o atendimento, sigo para o corredor novamente, ajustando a postura e respirando fundo, decidida a manter o foco no que realmente importa, repetindo mentalmente a lista de tarefas que ainda preciso cumprir como se isso fosse suficiente para reorganizar tudo dentro de mim, mas é então que eu o vejo, e por mais que eu tente fingir que não percebi, meu corpo reage antes que minha mente consiga acompanhar.
Ele está mais à frente, conversando com outro médico, com aquela postura firme e segura que transmite uma sensação de controle absoluto, como se ele estivesse exatamente onde deveria estar, fazendo exatamente o que nasceu para fazer, e isso, de alguma forma, me irrita mais do que deveria, porque pessoas assim costumam ser perigosas, não por serem arrogantes, mas por serem difíceis de ignorar.
Eu desvio o olhar imediatamente, tentando seguir em frente como se aquilo não tivesse importância, mas o problema não está no que eu vejo, e sim no que eu sinto, porque há uma diferença clara entre perceber alguém e reagir a essa percepção, e eu definitivamente estou reagindo, mesmo sem querer.
Enquanto continuo caminhando, sinto um leve movimento na barriga, e isso é suficiente para me puxar de volta para o que realmente importa, porque, no fim das contas, é isso que define minhas prioridades agora, não importa o que esteja acontecendo ao redor, não importa quem apareça na minha vida, existe algo muito maior que qualquer sentimento passageiro, algo que depende exclusivamente de mim para estar bem.
— Eu sei — murmuro quase sem perceber, levando a mão à barriga em um gesto automático, tentando reforçar para mim mesma aquilo que já deveria estar claro.
Ainda assim, quando chego à sala de medicação e começo a organizar os materiais, a inquietação não desaparece completamente, permanecendo ali como uma presença silenciosa que se recusa a ser ignorada, e é então que a porta se abre novamente, trazendo com ela exatamente aquilo que eu estava tentando evitar.
Eu não preciso olhar para saber que é ele, mas ainda assim olho, porque ignorar completamente seria óbvio demais, e a última coisa que eu quero é dar qualquer sinal de que a presença dele tem algum efeito sobre mim.
— Você sempre começa o dia assim concentrada ou é só hoje? — ele pergunta, encostando-se na porta com uma naturalidade que sugere que aquela interação não tem nada de extraordinário.
Eu continuo organizando os materiais por alguns segundos antes de responder, garantindo que minha voz saia estável, sem entregar nada além do necessário.
— Depende do dia — respondo, sem olhar diretamente para ele, mantendo o foco no que estou fazendo.
— E hoje parece ser um daqueles dias mais complicados — ele observa, como se estivesse analisando algo além do óbvio.
Eu paro por um instante, respirando fundo antes de finalmente levantar o olhar, encontrando o dele com uma firmeza calculada.
— Hoje é um dia normal — digo, porque admitir qualquer coisa diferente significaria abrir uma porta que eu não estou disposta a abrir.
Ele não parece convencido, mas também não insiste imediatamente, o que de certa forma é ainda mais desconcertante, porque o silêncio dele não é vazio, e sim carregado de uma atenção que eu preferia não ter.
— Você não precisa fingir que está tudo sob controle o tempo todo — ele diz depois de alguns segundos, em um tom que não é invasivo, mas que ainda assim ultrapassa um limite que eu não autorizei.
Eu cruzo os braços automaticamente, sentindo uma leve irritação surgir, não exatamente com ele, mas com o fato de que ele conseguiu perceber algo que eu não queria que fosse percebido.
— Eu não estou fingindo — respondo, mantendo a voz firme.
— Certo — ele diz, mas a forma como fala deixa claro que ele não acredita completamente na minha resposta.
Esse tipo de coisa me incomoda.
Muito.
Porque eu passei tempo demais aprendendo a controlar exatamente o que as pessoas conseguem ver, e o fato de alguém questionar isso tão facilmente me deixa em alerta imediato.
— Você sempre questiona tudo assim ou é só comigo? — pergunto, deixando escapar um pouco mais do que pretendia.
Um leve sorriso aparece no rosto dele, mas não é provocativo, e sim quase… compreensivo, o que só piora a situação.
— Só quando acho que vale a pena — ele responde.
Silêncio.
E dessa vez, não é confortável.
Porque existe alguma coisa ali que eu não consigo definir completamente, algo que não deveria estar acontecendo, mas que, mesmo assim, continua se desenvolvendo de forma inevitável.
Eu desvio o olhar primeiro, voltando a mexer nos materiais como se aquilo fosse suficiente para encerrar a conversa, mas sinto que ele ainda está ali, ainda observando, ainda presente de uma forma que eu não consigo simplesmente ignorar.
E isso é exatamente o que me preocupa.
Porque, no fundo, eu sei que não é só ele que não está indo embora.
Eu também não estou conseguindo me afastar.







