CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 5 — BEN

Eu sempre acreditei que sabia reconhecer limites, que conseguia estabelecer uma linha clara entre o que me envolvia e o que não me dizia respeito, principalmente dentro do hospital, onde decisões precisavam ser rápidas, objetivas e livres de qualquer interferência emocional que pudesse comprometer o julgamento, mas naquela noite, enquanto dirigia de volta para casa com as luzes da cidade refletindo no para-brisa e o cansaço acumulado pesando nos meus ombros, percebi que essa linha, que durante anos pareceu sólida e inquestionável, estava começando a se desfazer de uma maneira silenciosa e perigosa.

O plantão havia terminado há pouco, mas a rotina intensa da emergência ainda pulsava na minha cabeça, misturando imagens, vozes e decisões que precisaram ser tomadas sem hesitação, porém, entre tudo aquilo, havia algo que insistia em se destacar, algo que não tinha relação direta com nenhum paciente crítico, nenhum procedimento urgente ou qualquer situação que exigisse minha habilidade médica, e sim com uma única pessoa que, sem esforço aparente, havia conseguido atravessar as barreiras que eu passei anos construindo com extremo cuidado.

Celeste.

O nome dela surgiu na minha mente de forma automática, carregando consigo não apenas a lembrança do que havia acontecido mais cedo, mas também a sensação incômoda de que aquilo não deveria ter importância, de que eu deveria simplesmente seguir em frente como sempre fiz, deixando qualquer interação pessoal no lugar que ela pertence, distante, controlada e irrelevante para a minha vida fora do trabalho, porém, por mais que eu tentasse racionalizar, havia algo diferente, algo que não se encaixava na lógica que eu costumava seguir.

Quando estacionei o carro em frente ao conjunto de unidades, o silêncio do lugar contrastava com o caos que ainda ecoava dentro de mim, e por um instante permaneci ali, com as mãos apoiadas no volante, observando a fachada simples, as luzes apagadas em algumas janelas e o leve movimento das plantas sendo tocadas pelo vento, como se estivesse tentando encontrar naquele cenário comum algum tipo de resposta que justificasse a inquietação que eu não conseguia ignorar.

Saí do carro sem pressa, sentindo o peso do corpo e da mente, caminhando em direção à minha porta enquanto o som distante das ondas quebrando na praia reforçava a sensação de isolamento que eu sempre associei a esse lugar, não como algo negativo, mas como uma escolha consciente de manter distância de tudo aquilo que pudesse complicar ainda mais uma vida que já havia sido fragmentada o suficiente.

No entanto, ao passar pela unidade ao lado, meus olhos se voltaram automaticamente para o pequeno jardim que eu já havia notado antes, agora iluminado por uma luz suave que escapava pela janela parcialmente aberta, revelando os girassóis cuidadosamente alinhados e o cuidado evidente de alguém que, apesar de tudo, ainda se permitia criar beleza em meio ao caos, e foi impossível não pensar nela novamente, não apenas como a mulher que eu havia encontrado na praia ou a enfermeira que trabalhava comigo, mas como alguém que carregava algo mais profundo, algo que eu ainda não conseguia definir completamente, mas que claramente existia.

Entrei no meu apartamento e fechei a porta atrás de mim, sendo recebido pelo mesmo ambiente simples e impessoal que havia escolhido justamente por não exigir envolvimento, por não carregar história, por não me obrigar a criar raízes, e, ainda assim, pela primeira vez desde que havia chegado, aquele espaço pareceu insuficiente, como se faltasse alguma coisa que eu não estava disposto a admitir.

Joguei as chaves sobre a mesa e passei a mão pelo rosto, tentando afastar o cansaço e reorganizar os pensamentos, mas em vez disso, me vi lembrando do momento na sala de descanso, da forma como ela reagiu quando o bebê se mexeu, do silêncio que se instalou entre nós e da maneira como, por um breve instante, tudo pareceu parar, criando uma conexão que eu não havia buscado, mas que também não consegui evitar.

Aquilo não era normal.

Não para mim.

Não depois de tudo.

Eu caminhei até a cozinha e servi um copo de água, bebendo devagar enquanto tentava trazer de volta a racionalidade que sempre guiou minhas decisões, lembrando a mim mesmo que situações como aquela não significavam nada além de circunstâncias momentâneas, que qualquer sensação diferente era apenas resultado do cansaço, da proximidade constante com pacientes e histórias que naturalmente afetavam mais do que eu gostaria de admitir, mas, mesmo enquanto construía essa explicação, uma parte de mim sabia que não era tão simples assim.

A verdade era que eu reconhecia aquele tipo de reação.

Eu já tinha sentido algo parecido antes.

E foi exatamente isso que me fez recuar.

Porque da última vez, aquilo não terminou bem.

A lembrança de Jennifer surgiu sem aviso, trazendo consigo um peso familiar que nunca desaparecia completamente, não importava quanto tempo passasse ou quantas vezes eu tentasse seguir em frente, e por um momento me permiti sentir, mesmo sabendo que aquilo só complicaria ainda mais uma situação que já estava fora do controle.

Eu me apoiei na bancada, fechando os olhos enquanto tentava organizar as sensações conflitantes que se acumulavam, reconhecendo que, apesar de todos os meus esforços para manter distância de qualquer envolvimento emocional, havia algo em Celeste que desafiava essa lógica, algo que não se encaixava na categoria de distração passageira ou interesse superficial, mas que também não deveria existir considerando tudo o que eu havia perdido.

Ela não era apenas uma paciente em potencial ou uma colega de trabalho.

Ela era um risco.

E eu sabia disso.

Sabia desde o momento em que a vi na praia, quando algo dentro de mim reagiu antes mesmo que eu tivesse tempo de analisar a situação de forma racional, e agora, depois de tudo o que havia acontecido, ignorar esse fato não parecia mais uma opção viável.

Terminei a água e deixei o copo sobre a pia, caminhando até a janela enquanto o vento frio entrava pelo pequeno espaço aberto, trazendo consigo o cheiro do mar e uma sensação estranhamente familiar de calma que contrastava com o tumulto interno que eu tentava controlar.

Do lado de fora, o movimento era quase inexistente, mas a luz na unidade dela ainda estava acesa, e, contra o meu próprio julgamento, eu me peguei observando por mais tempo do que deveria, como se esperasse ver algum sinal, algum movimento que justificasse o interesse que eu não queria sentir.

Balancei a cabeça, irritado comigo mesmo, afastando-me da janela com a consciência de que aquele comportamento não fazia sentido e não deveria se repetir, porque, no fundo, eu sabia exatamente onde aquilo poderia levar, e não estava disposto a passar por isso novamente.

Ainda assim, enquanto me preparava para finalmente tentar descansar, uma ideia persistente se instalou na minha mente, ignorando todas as tentativas de ser descartada como irrelevante.

Desta vez, eu não tinha certeza se conseguiria simplesmente ir embora.

E isso, mais do que qualquer outra coisa, foi o que realmente me preocupou.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App