CAPÍTULO 7

 CAPÍTULO 7 — BEN

Existem momentos dentro da emergência em que tudo acontece rápido demais para qualquer tipo de reflexão, em que decisões precisam ser tomadas antes mesmo que o cérebro consiga organizar completamente as informações disponíveis, e é exatamente nesses momentos que eu sempre me senti mais confortável, porque agir sem pensar demais significa não abrir espaço para lembranças, dúvidas ou qualquer sentimento que possa comprometer a clareza necessária para fazer o que precisa ser feito, mas naquela manhã, enquanto eu analisava os dados de um paciente recém-admitido, uma inquietação persistente se instalava de forma incômoda, como se alguma coisa estivesse fora do lugar, mesmo que, à primeira vista, tudo parecesse seguir dentro da normalidade.

Eu tentei ignorar essa sensação, concentrando minha atenção nos detalhes clínicos, nos números, nos sinais que sempre me guiaram de forma confiável ao longo dos anos, mas havia uma parte da minha mente que não estava completamente ali, uma parte que insistia em se desviar para algo que não tinha relação direta com o caso à minha frente, e por mais que eu soubesse que isso não deveria acontecer, que misturar questões pessoais com o ambiente de trabalho era um erro que eu não podia cometer, a verdade era que eu já não estava operando com a mesma distância emocional de antes.

O motivo era óbvio, mesmo que eu não quisesse admitir.

Celeste.

Desde o momento em que a vi pela primeira vez na praia, havia algo que não se encaixava na forma como eu estava acostumado a reagir às pessoas ao meu redor, e agora, depois dos encontros no hospital, essa sensação só havia se intensificado, criando uma espécie de tensão constante que eu não conseguia simplesmente desligar como fazia com todo o resto.

Foi exatamente nesse estado de atenção dividida que o chamado chegou, interrompendo qualquer tentativa de racionalização e exigindo ação imediata, e assim que ouvi o nome dela, algo dentro de mim reagiu antes mesmo que eu tivesse tempo de processar completamente a situação.

— Celeste Mitchell, enfermaria três.

O som do nome foi suficiente para que meu corpo entrasse em movimento automático, deixando para trás qualquer outra preocupação enquanto eu me dirigia rapidamente para o local indicado, sentindo uma urgência que ia além do que a situação, naquele momento, parecia exigir, mas que eu não questionei, porque já estava envolvido demais para fingir indiferença.

Quando entrei na sala, a primeira coisa que notei foi a postura dela, apoiada na maca, com uma das mãos pressionando a lateral do abdômen e a expressão controlada demais para alguém que claramente estava sentindo dor, e foi nesse instante que toda a racionalidade que eu vinha tentando manter deu lugar a uma atenção focada exclusivamente nela.

— O que está acontecendo? — perguntei, aproximando-me sem hesitação, enquanto já começava a avaliar os sinais visíveis.

— Não é nada — ela respondeu rapidamente, mas a tensão na voz entregava o contrário.

Eu ignorei a resposta, porque já havia aprendido que pacientes nem sempre são as melhores fontes de informação quando se trata da própria condição, especialmente quando estão tentando minimizar o que estão sentindo.

— Desde quando? — insisti, mantendo o tom firme enquanto colocava a mão no abdômen dela com cuidado, buscando identificar qualquer alteração mais evidente.

Ela hesitou por um breve instante, como se estivesse decidindo o quanto deveria revelar, e isso, por si só, já era um sinal de alerta.

— Começou há pouco — disse, finalmente, evitando meu olhar.

A resposta não me tranquilizou.

Pelo contrário.

— Dor contínua ou em intervalos? — continuei, focando no que precisava ser avaliado, mesmo que, por dentro, uma preocupação crescente começasse a se formar.

— Intervalos — ela admitiu, dessa vez mais baixa.

Contrações.

O pensamento foi imediato, mas eu não tirei conclusões precipitadas, preferindo observar mais alguns sinais antes de qualquer diagnóstico, embora a possibilidade já estivesse claramente presente.

— Precisamos monitorar isso — falei, já sinalizando para que os equipamentos fossem preparados, enquanto minha mente trabalhava rapidamente para organizar os próximos passos.

— Não precisa — ela retrucou, com uma firmeza que parecia mais defesa do que convicção.

Eu levantei o olhar, encontrando o dela de forma direta.

— Precisa, sim.

Não era apenas uma opinião.

Era uma decisão.

Por um momento, ela pareceu pronta para argumentar, mas algo na minha expressão, ou talvez na forma como eu estava conduzindo a situação, fez com que ela recuasse, permitindo que o procedimento seguisse sem mais resistência.

Enquanto conectávamos os monitores e começávamos a acompanhar os sinais, o ambiente ao redor se tornou secundário, reduzido a sons e movimentos automáticos que eu registrava sem precisar olhar diretamente, porque toda a minha atenção estava concentrada nela, na forma como ela respirava, na maneira como tentava manter o controle mesmo diante de algo que claramente a preocupava.

— Olha para mim — pedi em determinado momento, percebendo que ela estava evitando contato visual.

Ela demorou um segundo a mais do que o necessário, mas acabou obedecendo.

— Você precisa me dizer exatamente o que está sentindo — continuei, mantendo a voz firme, mas sem perder o controle.

— Eu já disse — respondeu, embora a resistência ainda estivesse ali.

— Não, você disse o suficiente para tentar me afastar, mas não o suficiente para me ajudar a entender o que está acontecendo — corrigi, sem suavizar demais as palavras, porque naquele momento, ser direto era mais importante do que ser gentil.

O silêncio que se seguiu não foi confortável, mas também não foi hostil, porque havia algo ali que ia além de uma simples discordância, algo que envolvia confiança, ou a falta dela, e que eu não podia simplesmente ignorar.

— Eu não gosto disso — ela admitiu por fim, em um tom mais baixo, quase relutante.

— Disso o quê? — perguntei.

— De não ter controle.

A resposta foi simples, mas carregava um peso que eu reconheci imediatamente, não apenas como médico, mas como alguém que já havia passado pela mesma sensação de impotência diante de algo que não podia ser evitado.

Eu assenti levemente, entendendo mais do que ela provavelmente gostaria que eu entendesse, mas sem comentar, porque aquele não era o momento para explorar aquilo.

— Eu sei — disse apenas, voltando a atenção para os monitores.

Os dados começaram a aparecer, confirmando o que eu já suspeitava, e embora não fosse uma situação crítica naquele momento, também não era algo que pudesse ser ignorado ou tratado com descaso.

— Não é trabalho de parto — expliquei, mantendo o tom controlado para não gerar mais ansiedade do que o necessário. — Mas são contrações que precisam ser observadas com atenção.

Ela soltou o ar devagar, como se estivesse segurando aquilo há mais tempo do que demonstrava.

— Eu falei que não era nada grave.

— E eu estou dizendo que não é grave agora, mas pode se tornar se você continuar ignorando.

Ela não respondeu.

Mas não desviou o olhar dessa vez.

E isso já era alguma coisa.

Enquanto o monitor continuava registrando os sinais, o silêncio entre nós voltou, mas dessa vez carregado de uma tensão diferente, menos defensiva, mais… consciente, como se ambos estivéssemos reconhecendo algo que ainda não havia sido dito em voz alta, mas que estava presente de qualquer forma.

Eu me afastei um pouco, dando espaço enquanto mantinha a observação, tentando retomar o equilíbrio profissional que sempre guiou minhas ações, mas sabendo que, naquele caso, isso não era tão simples quanto deveria ser.

Porque não era só sobre o que estava acontecendo com ela.

Era sobre o efeito que aquilo estava tendo em mim.

E isso era algo que eu não podia mais ignorar.

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