Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 4
Narrativa do Autor A placa de VENDE-SE na frente da casa parecia gritar para a rua inteira. Noemi ficou alguns minutos parada olhando para ela, com os braços cruzados e o coração apertado. Aquela casa não era apenas tijolo e cimento. Cada pedaço daquele lugar carregava uma parte da sua história. Ali tinha sido o lugar onde ela nasceu. Ali tinha sido o lugar onde ela perdeu a mãe. Ali tinha sido o lugar onde ela e Nelzinha cresceram juntas depois da tragédia. E também tinha sido o lugar onde seu coração foi destruído pela traição. Agora ela estava vendendo tudo. Era estranho. Mas, ao mesmo tempo, parecia necessário. O primeiro dia depois de colocar a placa foi silencioso. As pessoas da rua passavam devagar, olhando curiosas, cochichando umas com as outras. — Tu viu? A casa da Noemi tá à venda. — Vai embora daqui? — Dizem que vai pro Rio de Janeiro. — Depois do que aconteceu com ela… eu até entendo. Noemi ouvia alguns comentários quando estava no salão. Fingindo que não prestava atenção, continuava trançando cabelos, concentrada no trabalho. Mas por dentro seu coração estava em conflito. À noite, quando o salão fechava e ela entrava em casa, o silêncio parecia ainda maior. Cada quarto carregava uma memória. O quarto de Nelzinha ainda tinha algumas marcas da presença dela: um espelho pendurado torto, uma prateleira vazia onde ficavam os perfumes, um adesivo antigo colado na parede. Noemi passou a mão pela madeira da porta. — Quem diria… — ela murmurou. Era difícil acreditar que aquela mesma irmã, que ela tinha carregado nos braços para fora de uma casa em chamas, tinha sido capaz de machucar ela daquela maneira. Ela fechou a porta devagar. Algumas lembranças eram melhores quando ficavam trancadas. As primeiras pessoas interessadas na casa apareceram poucos dias depois. Um casal com dois filhos pequenos. Eles olharam cada cômodo com atenção. — A casa é grande — disse a mulher. — Tem potencial — respondeu o marido. Noemi caminhava atrás deles, explicando. — Eu reconstruí tudo depois do incêndio. O homem franziu a testa. — Incêndio? Noemi assentiu. — Muitos anos atrás. Ela não entrou em detalhes. Não precisava. Quando eles foram embora, disseram que iam pensar. E assim foi com os próximos visitantes também. Alguns elogiavam. Outros achavam caro. Outros apenas tinham curiosidade de ver a casa. Enquanto isso, o salão continuava funcionando. Era impossível vender a casa sem que a notícia se espalhasse pela comunidade. Algumas clientes ficaram chocadas. — Noemi, tu vai embora mesmo? — Vou. — Mas por quê? Ela sempre respondia da mesma forma. — Às vezes a gente precisa começar de novo. Algumas entendiam. Outras apenas balançavam a cabeça. Mas havia também aquelas que gostavam de provocar. Certa tarde, duas mulheres entraram no salão rindo baixo entre si. Noemi reconheceu as duas imediatamente. Elas eram amigas de Nelzinha. Ou pelo menos eram agora. Uma delas sentou na cadeira. — Faz uma trança box braids pra mim. Noemi começou o trabalho em silêncio. A outra ficou andando pelo salão olhando tudo. — Então é verdade… tu vai fugir da cidade? Noemi continuou trabalhando. — Não é fuga. — Ah, não? — a mulher riu. — Parece sim. A cliente na cadeira falou também. — Dizem que tua irmã tá muito feliz. Noemi apertou os dedos na mecha de cabelo. — Fico feliz por ela. — O bebê tá crescendo rápido. Silêncio. — Henrique tá todo orgulhoso. As mãos de Noemi pararam por um segundo. Mas ela respirou fundo e continuou trançando. — Que bom. A mulher riu. — Tu é forte mesmo, viu? Eu não teria esse sangue frio. Noemi terminou a trança. Virou a cadeira para o espelho. — Está pronta. A cliente olhou o cabelo e sorriu. — Ficou lindo. Pagou e foi embora com a amiga. Assim que a porta fechou, Noemi soltou o ar que estava preso no peito. Era mais difícil do que ela imaginava. Mas cada dia que passava, ela tinha mais certeza da decisão. Uma semana depois, apareceu um homem diferente. Ele chegou sozinho, usando camisa social clara e óculos escuros. — A casa está à venda? — Está sim — respondeu Noemi. Ela mostrou cada cômodo com calma. O homem parecia realmente interessado. — Você reconstruiu tudo sozinha? — Sim. — Impressionante. Ele observou a estrutura, as paredes, o quintal. Depois de quase meia hora caminhando pela casa, ele se virou para ela. — Vou ser direto. Noemi ficou atenta. — Eu quero comprar. Ela piscou surpresa. — Assim? — Sim. Ele falou o valor. Era justo. Talvez até um pouco mais alto do que ela esperava. Noemi sentiu o coração acelerar. Aquilo estava realmente acontecendo. — Podemos resolver a documentação rápido — continuou o homem. Ela respirou fundo. — Podemos. Enquanto ele ia embora, prometendo voltar no dia seguinte com os papéis, Noemi ficou parada no meio da sala. A casa estava silenciosa. Como sempre. Mas agora parecia diferente. Parecia uma despedida. Naquela noite, ela ligou para Bárbara. — Eu vendi a casa. Do outro lado da linha, Bárbara soltou um grito animado. — Eu sabia! Noemi riu pela primeira vez em dias. — Acho que agora não tem mais volta. — Claro que não tem. O Vidigal está esperando por você. Noemi caminhou até a janela. A rua estava tranquila. O vento quente da noite de Salvador balançava as árvores. Ela olhou para a casa mais uma vez. Cada canto carregava dor. Mas também carregava força. Porque ela tinha sobrevivido ali. Tinha reconstruído tudo do zero. E agora estava pronta para fazer isso de novo. Só que em outro lugar. Em outra cidade. Em outra vida. — Rio de Janeiro… — ela murmurou. Pela primeira vez, o nome daquela cidade não parecia distante. Parecia destino.






