Mundo de ficçãoIniciar sessãoSinopse Noemi sempre foi conhecida como uma baiana arretada, daquelas que não abaixa a cabeça para ninguém. Aos vinte anos, ela luta todos os dias para manter vivo o pequeno salão de beleza na periferia de Salvador, herança da mãe que morreu de forma trágica em um incêndio criminoso provocado pelo próprio marido — um homem violento que preferiu destruir tudo a aceitar ser abandonado. Naquela noite, Noemi só conseguiu salvar uma coisa: sua irmã mais nova, Nelzinha. Desde então, as duas sobreviveram juntas, tendo o salão como abrigo, sustento e memória da mulher que as criou com amor. Enquanto Noemi trabalha duro como trancista e barbeira para reconstruir a casa e dar uma vida digna às duas, Nelzinha cresce deslumbrada, sem querer responsabilidades. A única coisa que parecia segura na vida de Noemi era Henrique, seu noivo. Dono de uma padaria herdada do pai, ele sempre foi respeitoso demais, paciente demais… distante demais. Noemi acreditava que era amor. Até a noite em que tudo desmorona. Voltando mais cedo do trabalho, cansada e faminta, Noemi encontra a casa mergulhada em silêncio — quebrado apenas por gemidos, risadas e juras de amor vindas do quarto da irmã. Ao abrir aquela porta, ela descobre a pior traição de todas: Henrique estava na cama com Nelzinha. Humilhada, chamada de gorda e humilhada pela própria irmã, e vendo o noivo confirmar cada palavra cruel, Noemi sente seu mundo ruir. Na mesma noite, Nelzinha vai embora para viver com Henrique, deixando Noemi sozinha com sua dor. Sem conseguir suportar as lembranças, ela vende tudo o que construiu com tanto esforço e decide recomeçar longe dali. Seu destino é o Rio de Janeiro, no morro do Vidigal, onde passa a morar com uma amiga trancista. Mas a vida na favela carioca guarda encontros inesperados. É lá
Ler maisCapítulo 1
Noemi Narrando Meu nome é Noemi, tenho vinte anos e um salão pequeno perto da periferia de Salvador. Nada de luxo. Sou trancista. Uma cadeira de barbeiro já meio gasta, dois espelhos grandes que minha mãe comprou em uma feira antiga, um secador que esquenta mais do que devia e uma prateleira cheia de pentes, agulhas de trança e elásticos coloridos. Foi ali que minha vida começou a mudar. Foi ali que minha vida quase acabou também. Eu sempre fui chamada de baiana arretada. Não por ser valente sem motivo, mas porque a vida me ensinou cedo que, se eu não fosse forte, ninguém seria por mim. Sou uma mulher plus size, daquelas de corpo grande mesmo. Coxas grossas, quadril largo, barriga que nunca foi chapada, mas também não é uma barriga grande tenho cintura fina, e peito farto que sempre chamou atenção demais. Quando eu era mais nova, isso me incomodava. Escutava piadinhas na rua, comentários maldosos na escola. Mas minha mãe sempre dizia: — Minha filha, mulher bonita não é a que cabe no vestido. É a que faz o vestido caber nela. E eu acreditava nela. Minha mãe se chamava Dalva. Era uma mulher forte, dessas que acordava antes do sol nascer e ainda estava de pé quando todo mundo já tinha dormido. Foi ela quem abriu o salão onde eu trabalho hoje. Aprendeu a fazer trança sozinha, vendo revista velha, treinando em boneca de plástico até pegar prática. Ela dizia que cabelo era coroa, e que cada trança que fazia era uma forma de devolver dignidade para alguém. Mas a vida da minha mãe nunca foi fácil. Principalmente por causa do meu pai. Meu pai era o tipo de homem que a gente aprende a odiar antes mesmo de aprender a entender o que é ódio. Bebia demais, gritava demais, batia demais. Eu ainda lembro das noites em que ele chegava em casa com o cheiro forte de cachaça. A porta batia. O silêncio vinha logo depois. E então começava. — Mulher inútil! ele gritava. — Essa casa é minha! Minha mãe tentava manter a calma. Às vezes ela só ficava quieta, esperando a tempestade passar. Outras vezes tentava argumentar. Quase sempre terminava da mesma forma. Com ele batendo nela. Eu e minha irmã, Nelzinha, ficávamos escondidas no quarto. Eu abraçava ela forte enquanto ouvíamos o barulho dos t***s, dos móveis arrastando, dos gritos. Nelzinha sempre tremia. — Vai passar… — eu sussurrava. Mas nem sempre passava. Às vezes ele também batia em mim. Principalmente quando eu tentava defender minha mãe. Eu devia ter uns quinze anos quando isso começou a ficar pior. Meu corpo já era grande, minhas mãos já tinham força, e eu não conseguia mais ficar parada vendo aquilo. Uma noite eu empurrei ele. Foi a primeira vez. Ele me deu um tapa tão forte que eu caí no chão da cozinha. Mas naquele dia minha mãe fez algo que nunca tinha feito antes. Ela se colocou na frente dele. — Chega. A voz dela estava baixa, mas firme. — Você não toca mais nas minhas filhas. Meu pai riu. Aquele riso ainda me dá arrepio quando lembro. — Ou o quê? Minha mãe abriu a porta da frente. — Ou você sai dessa casa. Agora. Eu achei que ele ia bater nela. Achei que ia matar ela ali mesmo. Mas ele só pegou a jaqueta velha dele e uma mochila com poucas roupas, cuspiu no chão e saiu. — Vocês vão se arrepender. Essas foram as últimas palavras que ele disse dentro daquela casa. Naquela noite, eu achei que tudo tinha acabado. Achei que finalmente íamos ter paz. Eu estava errada. Algumas semanas depois.Acordei com o cheiro de alguma coisa queimando. Primeiro pensei que era algo queimando na cozinha. Depois veio a fumaça. Quando abri os olhos, o quarto estava cheio de fumaça. — Noemi! Minha mãe gritou. Eu levantei assustada. A casa estava pegando fogo. As chamas já estavam na sala. Minha mãe entrou correndo no quarto. — Pega sua irmã! Eu corri até a cama de Nelzinha. Ela estava chorando, confusa. — Levanta! A gente precisa sair! Eu segurei a mão dela e puxei. A fumaça queimava a garganta. A madeira estalava. Eu ainda lembro da imagem da minha mãe empurrando a gente para fora da casa. — Corre! Eu saí pela porta da frente com Nelzinha. Quando virei para trás, minha mãe ainda estava lá dentro. — Mãe! Eu tentei voltar. Mas o fogo explodiu pela janela. E alguém me segurou. Um vizinho. — Não entra! Eu gritei até minha voz acabar. Mas minha mãe nunca saiu de lá. Depois descobriram. Meu pai tinha voltado. Tinha jogado gasolina na casa. E ateado fogo. Ele nunca foi encontrado. Depois disso, o mundo ficou diferente. O salão da minha mãe foi a única coisa que sobrou no terreno. O fogo não alcançou aquela parte porque era separado da casa. E foi ali que eu decidi que não ia deixar a história da minha mãe morrer. Eu tinha dezesseis anos. Aprendi a fazer trança na marra. No começo minhas mãos tremiam. Mas logo eu peguei jeito. As mulheres da comunidade começaram a vir. Primeiro por pena. Depois porque gostavam do meu trabalho. Quando percebi, o salão já pagava nossa comida. Eu reconstruí a casa devagar. Tijolo por tijolo. Levou anos. Mas consegui. Cada uma tinha seu quarto agora. Eu trabalhava de manhã até a noite. Fazia trança nagô, box braids, twist, cortava cabelo masculino também. O salão vivia cheio. Enquanto isso, Nelzinha…só usava o dinheiro que eu fazia com os cabelos. Ela nunca quis aprender nada. — Isso não é pra mim, Noemi. Ela dizia sem nenhuma vergonha. Ela passava horas se arrumando, tirando foto, saindo com amigas. Eu não brigava. Achava que talvez ela só estivesse tentando esquecer o que a gente viveu. E então tinha Henrique. Ele apareceu na minha vida quando eu tinha dezoito anos. Era dono de uma padaria perto dali, herdada do pai que tinha morrido. Era mais velho, tinha vinte e nove anos, e parecia diferente dos homens que eu conhecia. Ele era educado. Calmo. Respeitoso. Começou indo no salão cortar cabelo. Depois passou a aparecer mais vezes. Um dia me chamou para sair. — Quero fazer direito, ele disse. E fez. Com o tempo, ele me pediu em namoro. Depois em noivado. Mas tinha algo estranho. Ele nunca queria ir longe demais comigo. Nunca. No começo eu achei bonito. — Eu respeito você, ele dizia. Mas às vezes eu sentia algo estranho no olhar dele. Uma distância. Uma coisa que eu não sabia explicar. Mesmo assim, eu acreditava que era amor. Até aquela noite. Eu tinha trabalhado o dia inteiro. Minhas mãos doíam de tanto trançar cabelo. Era tarde, mas o movimento tinha acabado mais cedo. Fechei o salão e caminhei até a casa. Estava cansada. Com fome. Quando entrei, estranhei o silêncio. A casa estava escura. Então ouvi. Primeiro um gemido baixo o ranger da cama batendo na parede e um gemido de prazer mais alto. Depois risadas. Depois palavras sussurradas. Meu coração apertou. O som vinha do quarto de Nelzinha. Eu caminhei devagar até a porta. Encostei o ouvido nela. E ouvi algo que fez meu estômago virar. — Eu te amo… A voz era masculina. Eu conhecia aquela voz. Minhas mãos começaram a tremer. A porta se abriu de repente. E lá estava ele. Henrique. Sem roupa . Dentro do quarto da minha irmã que tambem estava nua. O mundo girou na minha frente. Eu quase caí. Quando me viu veio falar comigo. Fiz questão de olhar para ela que estava atrás dele Nelzinha, se enrolou em um lençol, com um sorriso cheio de desprezo. — Ah… então você viu. A voz dela estava fria. Cruel. — Já era hora de descobrir, né? Meu coração quebrou ali. E eu ainda não sabia que aquilo era só o começo.Capítulo 12 Narrativa do Autor A música já podia ser ouvida de longe.Enquanto Noemi e Bárbara desciam as ruas estreitas do Vidigal, o som do cavaquinho e do pandeiro ecoava pelas vielas do morro. O ritmo do samba parecia pulsar junto com o coração do lugar.Gente subia e descia as escadas rindo, conversando, carregando latas de cerveja ou garrafas de bebida. Algumas mulheres estavam arrumadas como se fossem para uma festa grande, com vestidos justos, salto alto e maquiagem impecável.Noemi observava tudo com curiosidade.Era a primeira vez que ela estava vivendo aquilo.O morro à noite parecia outro mundo.— Tá nervosa? — perguntou Bárbara, percebendo o silêncio dela.Noemi deu um pequeno sorriso.— Um pouco.— Relaxa, baiana.Bárbara segurou no braço dela enquanto caminhavam.— Aqui ninguém morde… pelo menos não de primeira.Noemi riu.— Engraçada você.Quando chegaram perto da quadra, o movimento era ainda maior. Um grupo de homens estava parado perto de um bar improvisado, bebe
Capítulo 11 Narrativa do Autor O dia promete Hoje no Vidigal.O calor já era forte no morro. Quando Noemi abriu os olhos. Por alguns segundos ela ficou olhando o teto simples do quarto de Bárbara, tentando lembrar onde estava.Depois veio tudo de uma vez.O Rio.O morro.A nova vida.Ela respirou fundo.Já fazia algumas semanas desde que tinha chegado ao Vidigal, mas ainda existiam momentos em que parecia tudo um sonho estranho. Um sonho que começou com dor, mas que aos poucos estava ganhando outras cores.Da cozinha vinha o cheiro de café.Quando ela saiu do quarto, Bárbara já estava sentada à mesa, mexendo no celular.— Bom dia, baiana.— Bom dia.Noemi se sentou e pegou a xícara.— Hoje o movimento vai ser grande — disse Bárbara.— No salão?— No morro inteiro.Ela levantou os olhos.— Hoje tem samba na quadra.Noemi sorriu.— Você já falou disso ontem umas dez vezes.Bárbara riu.— Porque você vai.— Eu?— Sim, você.Noemi tomou um gole de café.— Ainda não conheço quase ning
Capítulo 10Narrativa do Autor O salão da Bia já tinha virado rotina para Noemi.Todos os dias ela acordava cedo, tomava um café rápido com Bárbara e descia para o salão antes das nove. O movimento no Vidigal começava cedo, e as mulheres que queriam ficar bonitas para o fim de semana sempre apareciam primeiro.Quando Noemi chegou naquela manhã, Bia já estava abrindo as janelas.O sol entrava forte pela porta aberta.— Bom dia, baiana! — disse Bia.— Bom dia.Bárbara chegou logo atrás, carregando uma caixa cheia de cabelo sintético.— Hoje tem samba na quadra — avisou ela. — Então se prepara.Noemi riu.— Quer dizer que o salão vai bombar?Bia respondeu na mesma hora.— Vai ficar lotado.E ficou.Antes mesmo das dez horas, já tinha mulher sentada em todas as cadeiras.Algumas queriam tranças nagô.Outras queriam box braids.Outras queriam colocar mega hair para sair à noite.A música tocava baixa no fundo do salão, misturada com as conversas animadas.— Mulher, hoje eu vou pro samba c
Capítulo 9 Narrativa do Autor O salão da Bia já estava aberto antes das nove da manhã, e mesmo assim já tinha gente esperando na porta.Noemi chegou carregando sua bolsa de trabalho, com os pentes, agulhas de trança e elásticos organizados como sempre fazia. O sol do Rio já estava quente, e o morro acordava cheio de barulho.Mototáxis subindo.Gente abrindo comércio.Crianças correndo pelas vielas.Quando ela entrou no salão, Bia já estava terminando um café.— Bom dia, baiana!— Bom dia.Bárbara estava sentada em uma das cadeiras, separando cabelos sintéticos para as tranças.— Hoje vai ser corrido — avisou ela.Noemi olhou pela porta aberta.Tinha quatro mulheres esperando.Ela riu.— Então bora trabalhar.O salão não parava mais.A notícia de que tinha uma trancista nova no Vidigal corria rápido. E não demorou muito para o nome de Noemi começar a rodar entre as clientes.— Aquela baiana faz trança que é uma obra de arte.— Ela coloca mega hair que parece cabelo natural.— A mão d
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