Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 3
Narrativa do Autor Os dias continuavam passando arrastados para Noemi. Ela acordava cedo, abria o salão, colocava a vassoura na calçada e fingia que estava tudo normal. As mãos continuavam rápidas nas tranças, firmes no corte de cabelo, mas o coração parecia sempre pesado, como se carregasse uma pedra dentro do peito. Salvador continuava linda como sempre. O céu azul. O cheiro de acarajé na esquina. O barulho das pessoas conversando alto nas ruas. Mas, para Noemi, tudo parecia um pouco mais cinza. As pessoas continuavam falando dela. Algumas com pena, outras com deboche. A história da traição tinha virado assunto na comunidade inteira. Mesmo assim, ela não parava. O salão era tudo o que ela tinha. Era a herança da mãe. Era o lugar que tinha salvado ela e Nelzinha depois do incêndio. Parar significava desistir. E Noemi nunca foi de desistir. Foi em uma manhã quente de quarta-feira que algo diferente aconteceu. Uma das clientes entrou no salão animada, segurando o celular. — Noemi, tu soube da novidade? Noemi estava terminando uma trança nagô em uma menina de doze anos. — Que novidade? — Vai ter curso de trança aqui em Salvador essa semana. Com uma trancista famosa do Rio de Janeiro. Noemi levantou o olhar. — Do Rio? — Sim. Dizem que ela é das boas mesmo. Faz uns trabalhos que parecem arte. Noemi limpou as mãos na toalha. — Qual o nome dela? — Bárbara do Vidigal. O nome ficou na cabeça de Noemi. Naquela mesma noite, quando fechou o salão, ela pegou o celular e procurou na internet. As fotos apareceram na tela. Tranças gigantes. Desenhos perfeitos no couro cabeludo. Estilos modernos misturados com técnicas antigas. Noemi ficou impressionada. Aquela mulher era realmente boa. Quando viu o anúncio do curso, descobriu que seriam três dias intensivos de treinamento. O preço era alto. Mas Noemi não pensou duas vezes. Ela já tinha se inscrito semanas antes, quando ainda estava tentando se distrair da dor. Agora o curso estava chegando. Talvez fosse exatamente o que ela precisava. O primeiro dia do curso aconteceu em um salão grande no centro de Salvador. Trancistas de vários bairros estavam ali. Algumas iniciantes. Outras já experientes. Noemi chegou cedo, como sempre fazia em qualquer compromisso. Carregava sua bolsa com pentes, agulhas de trança e cadernos de anotação. Ela gostava de aprender. Era assim que tinha conseguido melhorar o trabalho do salão. Quando Bárbara entrou, o salão inteiro ficou em silêncio por um segundo. Ela era uma mulher alta, de pele escura e sorriso confiante. Usava tranças longas que iam até a cintura e um jeito de quem sabia exatamente o que estava fazendo. Mas o que mais chamava atenção era a presença dela. Não era arrogante. Era forte. Segura. — Bom dia, meninas — ela disse com um sorriso. — Vamos fazer arte hoje. O curso começou com teoria. História das tranças. Técnicas africanas. Tipos de divisão. Proteção do couro cabeludo. Noemi anotava tudo com atenção. Durante uma das práticas, Bárbara passou observando cada aluna. Quando chegou perto de Noemi, ficou alguns segundos olhando o trabalho dela. — Foi você que fez essa divisão? — Foi — respondeu Noemi. Bárbara levantou as sobrancelhas. — Você já trabalha com isso há quanto tempo? — Desde os dezesseis. Bárbara analisou melhor. — Você tem talento. Noemi sorriu, meio sem jeito. — Aprendi com minha mãe. — Sua mãe também era trancista? — Era. Esse salão onde eu trabalho hoje era dela. Bárbara assentiu com respeito. — Então você carrega uma história. A conversa foi curta, mas algo ali mudou. No segundo dia de curso, Bárbara puxou assunto novamente. — Você é de Salvador mesmo? — Sou. — Então vai ter que me mostrar essa cidade direito. Noemi riu pela primeira vez em muito tempo. — Eu mostro. Depois do segundo dia de curso, as duas saíram para caminhar. Noemi levou Bárbara para ver o Farol da Barra. O vento do mar batia forte, espalhando o cheiro salgado pelo ar. — Isso aqui é bonito demais — disse Bárbara olhando o horizonte. — Salvador tem dessas coisas — respondeu Noemi. No dia seguinte, ela mostrou o Pelourinho. As casas coloridas. Os músicos tocando na rua. O som dos tambores ecoando entre as construções antigas. Bárbara parecia encantada. — O Rio é bonito — ela comentou — mas Salvador tem alma. Durante esses passeios, as duas conversaram muito. Sobre trabalho. Sobre clientes. Sobre as dificuldades de ser mulher nesse meio. Mas Noemi nunca falava sobre sua dor. Bárbara percebia. Ela notava o olhar distante às vezes. O sorriso que sumia rápido demais. Mas nunca perguntava. Respeitava o silêncio. E talvez fosse exatamente por isso que a amizade começou a crescer. Quando o curso terminou, as duas já se tratavam como velhas amigas. Na despedida, Bárbara abraçou Noemi forte. — Não some não. — Não vou. — A gente se fala. — Com certeza. E se falaram. Depois que Bárbara voltou para o Vidigal, no Rio de Janeiro, as duas começaram a trocar mensagens quase todos os dias. Falavam sobre trabalho. Clientes difíceis. Novos estilos de trança. Mandavam fotos de serviços. Riam de histórias. A amizade crescia mesmo à distância. Para Noemi, aquelas conversas começaram a virar um pequeno refúgio. Porque com Bárbara ela não sentia julgamento. Não sentia pena. Só sentia acolhimento. Mas a dor que ela carregava ainda estava lá. Guardada. Pesada. Até que uma noite tudo saiu. Era tarde. O salão já estava fechado. A casa estava silenciosa como sempre. Noemi estava sentada na cama olhando para o celular. Uma foto tinha aparecido nas redes sociais. Henrique. Nelzinha. E a barriga dela… agora bem maior. Eles estavam sorrindo. Felizes. Como se a vida deles fosse perfeita. As lágrimas começaram a cair antes mesmo de Noemi perceber. Sem pensar muito, ela abriu a conversa com Bárbara. "Você está acordada?" A resposta veio rápido. "Estou. O que foi?" Noemi demorou alguns segundos. Então começou a digitar. E pela primeira vez… contou tudo. Contou sobre o pai violento. Sobre o incêndio. Sobre a morte da mãe. Sobre criar a irmã sozinha. Sobre Henrique. Sobre a traição. Sobre a gravidez. Sobre o bullying. Sobre a solidão. As mensagens foram longas. Pesadas. Cheias de dor. Quando terminou, Noemi estava chorando. A resposta de Bárbara demorou um pouco. Quando chegou, era simples. "Agora eu entendo seus olhos." Noemi ficou olhando a tela. Então veio outra mensagem. "Você não merece continuar sofrendo aí." Mais uma. "Vem para o Rio." Noemi franziu a testa. "O quê?" "Vem morar aqui no Vidigal." Noemi ficou em silêncio. "Eu tenho espaço na minha casa." "Aqui tem trabalho para trancista." "Aqui você pode recomeçar." O coração de Noemi começou a bater mais forte. Ela nunca tinha pensado em sair de Salvador. Ali estava a história da mãe. A casa que ela tinha reconstruído. O salão. Mas também estavam as lembranças. A traição. A dor. Bárbara mandou mais uma mensagem. "Às vezes a gente precisa mudar de lugar para conseguir respirar de novo." Noemi ficou olhando aquelas palavras. Por muito tempo. Talvez fosse loucura. Talvez fosse exatamente o que ela precisava. Ela respondeu devagar. "Você acha mesmo que daria certo?" A resposta veio rápida. "Eu tenho certeza." Noemi respirou fundo. Então digitou duas palavras que mudariam sua vida. "Eu vou." Na semana seguinte, Noemi tomou a decisão que nunca imaginou tomar. Colocou a casa à venda. Não foi fácil. Cada parede carregava lembranças. Da mãe. Da infância. Mas também carregava dor. E às vezes… para sobreviver… a gente precisa deixar algumas coisas para trás. Quando colocou a placa de venda na frente da casa, Noemi sentiu o coração apertar. Mas também sentiu algo diferente. Algo que ela não sentia há muito tempo. Esperança. Porque, pela primeira vez desde a traição… O futuro não parecia apenas um lugar de dor. Talvez, em algum lugar longe dali… A vida estivesse esperando por ela de novo.






