Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 5
Narrativa do Autor O quarto estava cheio de malas abertas. Roupas dobradas em cima da cama, caixas espalhadas pelo chão, alguns objetos antigos que Noemi ainda não sabia se levava ou deixava para trás. Era estranho empacotar a própria vida. Cada peça de roupa parecia carregar uma lembrança. Cada objeto parecia perguntar se ela tinha certeza do que estava fazendo. Noemi segurou uma fotografia antiga nas mãos. Era uma foto dela ainda adolescente, com a mãe atrás da cadeira do salão, ensinando ela a dividir o cabelo de uma cliente. As duas estavam sorrindo. O peito dela apertou. — A senhora ia gostar de ver isso… — ela murmurou baixinho. Noemi colocou a foto dentro de uma pequena caixa que guardaria com cuidado. Algumas coisas não podiam ser deixadas para trás. O celular vibrando em cima da cama tirou ela dos pensamentos. Era Bárbara. Noemi atendeu. — Oi, mulher. Do outro lado da linha veio a voz animada da amiga. — E aí, baiana? Como estão as coisas? Noemi respirou fundo, olhando para as malas abertas. — Já estão prontas. — Sério? — Sério. Assim que eu assinar a documentação da casa… eu embarco pro Rio. Por alguns segundos só se ouviu o barulho da respiração do outro lado da linha. Então Bárbara soltou uma risada feliz. — Eu sabia que você ia vir mesmo! Noemi sorriu. — Eu também não achei que teria coragem. — Coragem você sempre teve, Noemi. Só estava escondida atrás da dor. Noemi sentou na cama. — Dá até um frio na barriga pensar nisso tudo. — Relaxa. Aqui no Vidigal você vai ter onde ficar, vai ter trabalho… e vai ter eu enchendo seu saco todo dia. Noemi riu. — Já estou até vendo. Ela ficou alguns segundos em silêncio. — Me conta uma coisa… como estão as coisas por aí? Bárbara soltou um suspiro longo. — Ah… como sempre no morro. — Isso significa o quê? — Significa barulho de moto, pagode na quadra, gente discutindo na rua e criança correndo pra todo lado. Noemi imaginou a cena. Era diferente de Salvador, mas ao mesmo tempo parecia familiar. Comunidade tinha suas próprias regras em qualquer lugar. — E o salão? — perguntou Noemi. — Lotado como sempre. Depois daquele curso em Salvador apareceu mais cliente ainda. Bárbara era conhecida no Vidigal. Tinha trinta anos, dez a mais que Noemi, e já tinha construído uma reputação forte como trancista. O pequeno salão dela ficava em uma das ruas movimentadas do morro. As mulheres confiavam no trabalho dela. Mas o respeito que Bárbara tinha no Vidigal não vinha só das tranças perfeitas que fazia. Ela também era namorada do subchefe do morro. O homem era conhecido como Magrão. Alto, forte, olhar sempre atento. Era o braço direito do dono do morro, o homem que mandava em tudo por ali. Magrão e Bárbara estavam juntos há alguns anos. A relação deles tinha começado de forma inesperada. Bárbara sempre foi uma mulher independente. Criada no Vidigal desde pequena, filha de uma cozinheira e de um pedreiro, aprendeu cedo que precisava trabalhar para ter suas coisas. Começou fazendo trança nas amigas da escola. Depois nas vizinhas. Quando percebeu, já tinha clientes marcando horário. Com o tempo, juntou dinheiro e abriu seu próprio salão. Foi lá que conheceu Magrão. Ele apareceu um dia para cortar o cabelo. Quieto. Observador. Bárbara lembrava bem daquela primeira impressão. — Esse homem parece problema — ela tinha comentado com uma amiga. Mas o problema acabou virando relacionamento. Magrão era diferente dos outros homens do morro. Falava pouco, mas quando falava era direto. Protegia Bárbara com uma intensidade que às vezes assustava. — Eu cuido de você — ele costumava dizer. E cuidava mesmo. Ninguém mexia com Bárbara no Vidigal. Todo mundo sabia quem ela era. E com quem ela estava. — O Magrão perguntou de você hoje — disse Bárbara pelo telefone. Noemi arregalou os olhos. — De mim? — Sim. Eu contei sua história para ele. — E o que ele falou? Bárbara riu. — Que se aquele ex seu aparecer aqui no Rio ele mesmo resolve o problema. Noemi soltou uma pequena risada. — Ainda bem que ele está em Salvador. — Melhor assim. O silêncio voltou por alguns segundos. Então Noemi perguntou: — E o dono do morro? — O Ruivo? — Esse mesmo. Bárbara fez um pequeno som pensativo. — Ele continua o mesmo de sempre. O nome dele era conhecido no Vidigal inteiro. Ruivo era o tipo de homem que todo mundo respeitava… ou temia. Tinha cabelos avermelhados que deram origem ao apelido e um olhar frio que parecia enxergar tudo ao redor. Pouca gente sabia muito sobre o passado dele. O que se comentava no morro era que ele tinha crescido no meio da violência. Que a mãe tinha abandonado ele ainda criança. Que o pai era um homem cruel. Ruivo aprendeu cedo que o mundo não era um lugar gentil. E acabou se tornando alguém ainda mais duro. Nunca tinha sido conhecido por ter relacionamentos sérios. Nunca tinha sido visto apaixonado. Mulheres passavam pela vida dele como sombras. Nada ficava. Nada criava raiz. — Ele quase não aparece no salão — continuou Bárbara. — Mas quando aparece… o morro inteiro fica em silêncio. Noemi ouviu aquilo com curiosidade. — Parece um homem complicado. — Complicado é pouco. — Você tem medo dele? Bárbara pensou um pouco antes de responder. — Medo… não. Respeito. Noemi ficou pensativa. O Rio de Janeiro estava começando a parecer um lugar cheio de histórias. Cheio de pessoas fortes. Cheio de vidas diferentes da dela. Talvez fosse exatamente isso que ela precisava. Uma mudança completa. — Quando você chega mesmo? — perguntou Bárbara. — Se tudo der certo com os papéis… em três dias. — Eu vou te buscar na rodoviária. — Não precisa. — Precisa sim. Você não conhece o Vidigal ainda. Noemi sorriu. — Está bem. Ela olhou novamente para as malas. — Bárbara… — Oi? — Obrigada. — Pelo quê? — Por não me deixar sozinha. Do outro lado da linha, a voz de Bárbara ficou mais suave. — Às vezes a vida coloca pessoas na nossa frente por um motivo. Noemi sentiu algo quente no peito. Talvez fosse gratidão. Talvez fosse esperança. — Descansa hoje — continuou Bárbara. — Porque quando você chegar aqui… sua vida vai mudar. Noemi olhou ao redor do quarto mais uma vez. Tudo estava quase vazio. A casa que carregava tantas memórias estava prestes a deixar de ser dela. — Eu acho que já começou a mudar — ela respondeu. Depois que desligou o telefone, Noemi fechou a última mala. O zíper fez um som seco no silêncio do quarto. Ela respirou fundo. Agora era oficial. Sua vida em Salvador estava terminando. E uma nova história estava prestes a começar. No Rio de Janeiro. No Vidigal. Num lugar onde ela ainda não sabia… Mas onde o destino já estava preparando encontros que mudariam tudo.






