Mundo ficciónIniciar sesiónDante não esperava voltar ao salão de um hotel de mãos dadas com uma noiva. Muito menos com fotógrafos disputando espaço diante deles e o homem que deveria estar no altar tentando impedir sua passagem. Olívia mantinha os dedos entrelaçados aos seus, mas a tensão em sua mão denunciava o esforço necessário para permanecer erguida enquanto dezenas de câmeras registravam sua humilhação.
— Isso não vai acontecer — disse Henrique. — Ela está agindo por impulso.
Dante observou o terno caro, a gravata frouxa e a expressão indignada de quem ainda acreditava possuir algum direito sobre a mulher que acabara de trair. Mais atrás, Bianca mantinha uma das mãos sobre a barriga, cercada pela família que aparentemente participara do plano.
— Você chegou ao próprio casamento acompanhado da irmã dela — respondeu Dante. — Talvez não seja a melhor pessoa para falar sobre impulsos.
Alguns convidados abafaram risos. Henrique ficou vermelho, mas Olívia puxou levemente a mão de Dante, indicando que não desejava prolongar a discussão.
Eles avançaram, porém os fotógrafos bloquearam o caminho. Perguntas surgiram de todos os lados. Quem era aquele homem? Havia quanto tempo se conheciam? O casamento ainda aconteceria? Henrique havia sido trocado no altar?
Olívia endureceu ao lado dele. O decote do vestido deixava seus ombros e parte do colo expostos, e Dante viu uma mancha rosada surgir sobre a pele conforme a pressão aumentava. O corpete marcava sua cintura estreita; a saia ampla, feita para outra cerimônia e outro homem, roçava as pernas dele sempre que alguém os empurrava.
Ela se inclinou para falar perto de seu ouvido.
— Precisamos fazer alguma coisa.
O perfume de Olívia misturou-se ao cheiro das flores do salão. Dante sentiu os cabelos dela tocarem seu rosto e precisou se lembrar de que aquela mulher havia acabado de descobrir uma traição diante de centenas de pessoas.
— Podemos voltar para fora.
— Bianca interpretaria isso como uma desistência.
— O que pretende fazer?
Olívia olhou para as câmeras e, em seguida, para ele. Seus olhos desceram até a boca de Dante com uma lentidão involuntária.
A reação foi pequena, mas atingiu-o com força. Por um instante, ele se imaginou segurando aquela cintura, inclinando o rosto dela e cumprindo a promessa feita do lado de fora. A vontade surgiu rápida e física, apertando-lhe o corpo sob as roupas ainda úmidas.
Olívia se aproximou meio passo.
— Não precisa — disse ele.
— Você acabou de dizer que eles precisam acreditar.
— Precisam acreditar que sou seu marido. Não que perdeu o direito de escolher quem a toca.
Ela sustentou o olhar. Sob a maquiagem cuidadosa havia cansaço, raiva e uma vulnerabilidade que Olívia parecia disposta a esconder de todos, inclusive dele.
Dante ergueu lentamente a mão que continuava unida à sua. Seu polegar se acomodou sobre o interior do pulso dela, onde encontrou a pulsação acelerada sob a pele macia. Sem desviar os olhos, levou os dedos de Olívia à boca.
O beijo pareceu casto para quem assistia. Entre os dois, não foi. Os lábios dele tocaram a base de seus dedos, e a respiração quente se espalhou pela pele. Olívia prendeu o ar. Seus dedos se fecharam sobre os dele, enquanto o olhar permanecia preso à boca que acabara de beijá-la. Os flashes se multiplicaram. Dante não soltou sua mão.
— Sorria.
— Não estou com vontade.
— Nem eu. Mas sua irmã está olhando.
O canto da boca de Olívia se ergueu. Não era um sorriso verdadeiro, porém alterou completamente a imagem diante das câmeras. Ela deixou de parecer uma noiva abandonada que se agarrara ao primeiro homem disponível. Parecia uma mulher que tomara uma decisão inesperada e não devia explicações a ninguém.
Dante aproximou a boca de seu ouvido outra vez.
— Agora podemos entrar.
Olívia o acompanhou pelo salão. Bianca continuava próxima ao corredor central, mas já não exibia a mesma segurança.
— Isso foi longe demais — disse ela. — Você não sabe nada sobre esse homem.
— Eu também não sabia tudo o que precisava saber sobre Henrique.
— Pelo menos Henrique pertence ao nosso meio.
Dante sentiu os dedos de Olívia apertarem os seus antes de responder:
— Curioso. Até alguns minutos atrás, eu não sabia que infidelidade era requisito de entrada.
Bianca abriu a boca, mas Vera se antecipou.
— Todos estão nervosos. O melhor seria cancelar a cerimônia e conversar amanhã, com calma.
— Amanhã será tarde — respondeu Olívia.
Doutor Álvaro indicou uma sala reservada ao lado do salão. Dante reconheceu no gesto a tentativa de retirar a discussão dos olhos da imprensa.
— Precisamos analisar o que ainda pode ser feito legalmente.
Olívia entrou primeiro. Dante acompanhou o movimento de seu vestido e desviou o olhar antes que ela pudesse perceber. Quando a porta se fechou, ela enfim soltou sua mão e apoiou as palmas sobre a mesa.
A parte de trás do vestido deixava boa parte de suas costas à mostra. A pele clara desaparecia sob o tecido branco na altura da cintura, e Dante percebeu com irritação que o desenho formal da roupa não conseguia torná-la intocável. Pelo contrário. Havia algo perigosamente sensual na mistura entre o vestido de noiva, a postura controlada e a raiva que ainda tornava sua respiração mais intensa.
Ele voltou a atenção para o advogado.
— Há um cartório de plantão? — perguntou Olívia.
— Estou verificando. Antes disso, precisamos confirmar se o senhor Dante compreendeu a proposta.
Álvaro o observava com cautela. Não apenas por causa das roupas. Pessoas acostumadas ao poder sempre tentavam reconhecer quem também o possuía.
— Seis meses de casamento — disse Dante. — Moradia, alimentação e uma quantia ao final. Em troca, acompanho Olívia em compromissos públicos e sustento a aparência de uma relação verdadeira.
— Em termos gerais, sim.
O advogado retirou algumas folhas de uma pasta. Era um modelo preparado às pressas, provavelmente adaptado de um acordo de confidencialidade.
Dante se sentou e começou a ler. Olívia caminhava de um lado para o outro, limitada pela saia volumosa. A cada volta, o tecido acompanhava a curva de seus quadris antes de se abrir novamente. Ele precisou reler o mesmo parágrafo duas vezes.
Na terceira página, colocou as folhas sobre a mesa.
— Isto não serve.
Álvaro franziu a testa.
— Ainda é apenas uma minuta.
— A minuta permite que ela encerre o acordo a qualquer momento, sem pagamento, e me proíbe de sair da residência sem autorização. Também determina que qualquer bem adquirido durante o casamento pertença exclusivamente a ela.
Olívia parou.
— Eu não pedi essas cláusulas.
— São medidas de proteção — explicou Álvaro.
— Para quem? — perguntou Dante. — Estão me pedindo para casar com uma desconhecida, mudar de endereço e permitir que uma família controle minha rotina. Se o acordo deve durar seis meses, ambos precisam ter o direito de encerrá-lo em caso de desrespeito.
Álvaro apoiou os braços sobre a mesa.
— O senhor tem experiência com contratos?
Dante voltou os olhos para as folhas.
— Sei ler.
A quantia prometida por Olívia não faria diferença em sua vida. Ela imaginava estar oferecendo a oportunidade de comprar uma casa a um homem sem teto, sem saber que ele possuía mais imóveis do que conseguia visitar. As roupas sujas e as noites mal dormidas não apagavam os anos em que se sentara do outro lado de mesas como aquela, cercado por advogados pagos para descobrir falhas em cada linha.
O sobrenome Vasconcelos também não lhe era indiferente. Permanecer próximo daquela família poderia oferecer respostas que procurava havia meses, embora isso não explicasse inteiramente por que aceitara a proposta.
Olívia havia sido traída diante de todos e, mesmo assim, interrompera a própria fuga para impedir que dois seguranças humilhassem um desconhecido. Depois lhe oferecera um acordo, não piedade.
— Retire as cláusulas — decidiu ela.
Álvaro se virou.
— Recomendo que pense melhor.
— Ele está certo. Não posso exigir que minha família o trate como meu marido e assinar um contrato que o transforma em propriedade.
Dante ergueu os olhos. A resposta o atingiu num lugar mais perigoso do que a beleza dela.
— Também quero uma cláusula de privacidade — continuou Olívia. — Nenhum dos dois poderá expor informações pessoais do outro. Quartos separados e nenhuma obrigação de intimidade.
As últimas palavras saíram depressa. Dante percebeu a cor surgindo no colo exposto antes de alcançar o rosto dela.
— Concordo.
— Sem envolvimento físico.
— Isso já está incluído em “nenhuma obrigação”.
— Quero que fique claro.
Dante se recostou. A distância entre eles era suficiente para impedir qualquer toque, mas não para apagar a lembrança da pulsação dela sob seu polegar, nem a forma como Olívia olhara para sua boca diante das câmeras.
— Para mim também.
— Então não será um problema.
Ela sustentou o olhar como se o desafiasse a discordar. Dante deixou os olhos percorrerem seu rosto, demorando-se um instante nos lábios antes de responder:
— Se não fosse um problema, não precisaríamos falar disso tantas vezes.
Olívia se aproximou da mesa.
— Você aceitou se casar comigo minutos depois de me conhecer. Não finja que sou a única preocupada com decisões impulsivas.
Dante abriu a boca, mas nenhuma resposta surgiu imediatamente.
— Parece que ambos estamos cometendo um erro — disse por fim.
— A diferença é que eu sei por que estou cometendo o meu.
Ela havia acertado mais perto do que imaginava. Dante voltou ao contrato antes que seu silêncio revelasse isso.
Desejá-la não era o problema. Ele conhecia o desejo, sabia suportá-lo e sabia partir antes que adquirisse outro nome. O perigo estava no que Olívia acabara de fazer: ouvi-lo, alterar o acordo e impedir que o tratassem como algo comprado.
Um corpo bonito podia ser mantido à distância. Respeito era mais difícil.
Álvaro recebeu uma ligação e se afastou para atender. Quando voltou, informou que conseguira um juiz de paz e duas testemunhas para as onze e quinze. Restavam menos de quatro horas, e Dante precisava apresentar documentos e passar por uma verificação mínima.
— Consigo providenciar tudo em uma hora — disse ele.
Olívia avaliou a lama seca em suas roupas.
— Você também precisa tomar banho.
— Imaginei que o vestido branco a fizesse notar.
— Posso pedir ao hotel que libere uma suíte. Álvaro providencia um terno.
— Eu escolho minhas próprias roupas.
— Não temos tempo para vaidade.
— Não é vaidade. Seu antigo noivo já parece suficientemente ofendido. Seria cruel deixá-lo descobrir que um homem recolhido na calçada também se veste melhor do que ele.
Olívia não sorriu. Seus olhos percorreram a largura dos ombros dele sob a jaqueta e voltaram ao rosto.
— Primeiro prove que consegue.
A resposta o surpreendeu e, pela primeira vez naquela noite, Dante teve vontade de impressioná-la. Uma hora depois, Olívia aguardava diante da suíte com o contrato revisado entre as mãos. Álvaro fora buscar as testemunhas, enquanto Henrique e Bianca permaneciam no hotel, provavelmente convencidos de que Dante não voltaria.
Quando a porta se abriu, Olívia esqueceu a frase que pretendia dizer. A barba continuava em seu rosto, mas fora aparada rente à mandíbula, revelando linhas fortes que a sujeira apenas sugerira. O cabelo escuro, ainda úmido, estava penteado para trás. Sem os fios caindo sobre a testa, o corte junto à sobrancelha tornava seus olhos claros mais intensos.
O terno cinza-escuro acompanhava os ombros largos, descia sobre o peito firme e estreitava-se na cintura. A calça desenhava as pernas longas, enquanto a camisa branca, aberta no primeiro botão, revelava uma pequena parte da pele na base do pescoço.
Olívia percorreu o corpo dele antes de conseguir se impedir. Dante percebeu. Afastou-se da porta e caminhou até ela, sentindo o olhar que o acompanhava. O perfume amadeirado substituíra o cheiro de chuva, mas, quando parou diante de Olívia, ainda reconheceu na pele dela o mesmo aroma delicado do salão.
— Onde conseguiu isso? — perguntou.
— Pedi emprestado.
— A quem?
— A alguém do meu tamanho.
Ele retirou o contrato das mãos dela. Olívia continuou observando-o enquanto Dante folheava as primeiras páginas.
— Algum problema?
— Você está diferente.
— Continuo sendo o mesmo homem com quem concordou em se casar.
Os olhos dela desceram pelo terno mais uma vez e voltaram ao rosto.
— Esse é justamente o problema.
Dante fechou o contrato. Pela primeira vez, não soube se Olívia se referia às perguntas que ele evitava ou ao efeito que sua aparência causava nela. Estendeu a mão. Quando Olívia colocou a sua sobre a dele, Dante entrelaçou os dedos devagar. Seu polegar roçou o mesmo ponto do pulso que beijara diante das câmeras, e ele sentiu a pulsação dela acelerar novamente.
— Ainda quer se casar comigo?
Olívia ergueu o rosto. De tão perto, os olhos dela pareciam mais escuros, e a respiração tocava a pele exposta na base do pescoço dele.
— Agora é tarde para você desistir.
Dante a conduziu em direção ao elevador sem soltar sua mão.
— Eu não estava perguntando por mim.







