Mundo de ficçãoIniciar sessão
Olívia soube que Henrique não chegaria quando o quarteto começou a repetir a mesma música. Quase quarenta minutos haviam se passado desde que os convidados ocuparam o salão principal do Hotel Imperial. As flores continuavam impecáveis, as taças aguardavam sobre bandejas de prata e os fotógrafos, antes discretos, já apontavam as câmeras para qualquer movimento próximo ao altar. A cada olhar lançado para as portas fechadas, o atraso ganhava um significado mais difícil de ignorar.
Henrique não era impulsivo. Não se atrasava, não desligava o celular e jamais permitia que uma situação fugisse de seu controle. Olívia aceitara se casar com ele justamente por isso. Não existia paixão capaz de tirar-lhe o sono, mas havia respeito, previsibilidade e a promessa de uma vida sem os jogos que sempre haviam marcado sua família. As seis mensagens enviadas naquela tarde permaneciam sem resposta.
— Deve ter acontecido alguma coisa no trânsito — disse Vera, aproximando-se para ajeitar uma mecha do penteado da enteada.
Olívia afastou o rosto antes que a mão a alcançasse.
— Henrique saiu de casa há mais de duas horas.
— Então o carro apresentou algum problema.
Vera parecia calma demais. O vestido azul-claro estava impecável, e sua voz tinha o mesmo tom de quem comentava uma alteração no cardápio. Não demonstrava preocupação com o noivo desaparecido nem constrangimento pela espera dos convidados.
— Onde está Bianca?
— Sua irmã deve estar no toalete.
— Há quarenta minutos?
Vera apertou os lábios, mas não respondeu. Antes que Olívia insistisse, doutor Álvaro surgiu no corredor com o telefone nas mãos. O advogado trabalhava para a família havia quase trinta anos e era conhecido pela frieza, porém estava tão pálido que ela sentiu o estômago se contrair.
— Precisamos conversar em particular.
— Encontrou Henrique?
Álvaro hesitou e lançou um olhar para Vera. A troca foi rápida, mas suficiente para confirmar que os dois escondiam alguma coisa.
— O que vocês sabem?
As portas do salão se abriram antes que qualquer um respondesse. O burburinho diminuiu aos poucos. Vieram o som de cadeiras arrastadas, um murmúrio de surpresa e o primeiro disparo de uma câmera.
Henrique entrou de mãos dadas com Bianca. Ele usava o terno escolhido para o casamento, embora a gravata estivesse frouxa e os cabelos caíssem sobre a testa. Bianca vestia branco. Não era um vestido de noiva, mas o tecido ajustado marcava uma pequena curva em sua barriga.
Olívia permaneceu imóvel. A irmã avançou até o início do corredor central e pousou a mão sobre o ventre, garantindo que ninguém deixasse de perceber.
— Sinto muito por fazer isso diante de todos — anunciou, sem parecer arrependida. — Mas seria muito pior permitir que esse casamento acontecesse.
Olívia olhou para a barriga e depois para Henrique.
— Isso é o que estou pensando?
Ele soltou a mão de Bianca, mas não teve coragem de se aproximar.
— Eu pretendia contar.
— Quando? Depois da cerimônia?
— As coisas saíram do controle.
Bianca soltou uma risada curta.
— A gravidez saiu do controle. Nós dois, não.
Os flashes aumentaram. Os jornalistas convidados para registrar o casamento da futura presidente da Vasconcelos Cosméticos disputavam agora o melhor ângulo de sua humilhação.
— Há quanto tempo? — perguntou Olívia.
Henrique baixou os olhos.
— Oito meses.
Durante oito meses, ele dormira com Bianca, escolhera alianças, discutira a decoração da cerimônia e prometera a Olívia uma vida sem surpresas. Naquela mesma semana, perguntara se ela preferia passar a lua de mel na Itália ou nas Maldivas.
— Você se casaria comigo mesmo assim?
Henrique passou a mão pelo rosto.
— Eu estava tentando resolver tudo da melhor maneira.
— Para quem?
— Não transforme isso numa guerra, Olívia.
Ela quase riu. Henrique surgira no próprio casamento com a irmã grávida dela e ainda falava como se o problema fosse a reação que pudesse provocar. Bianca se aproximou alguns passos.
— Podemos dizer à imprensa que a cerimônia foi cancelada por motivos pessoais. Depois, você assina a renúncia temporária e todos seguem em frente.
Foi então que Olívia compreendeu.
— Renúncia?
Doutor Álvaro respondeu em voz baixa:
— A cláusula do testamento.
O avô de Olívia deixara para ela o controle das ações que haviam pertencido à mãe, mas impusera uma condição absurda: ao completar trinta anos, deveria estar casada. Caso contrário, a administração passaria durante cinco anos para a segunda herdeira. Bianca. Olívia completaria trinta anos à meia-noite.
— Quanto tempo resta?
Álvaro conferiu o relógio, embora soubesse a resposta.
— Pouco mais de sete horas.
Bianca inclinou a cabeça, fingindo compaixão.
— Você continuará recebendo os dividendos e manterá seu lugar no conselho. Eu apenas assumirei a presidência até sua vida se organizar.
A empresa fundada por Helena Vasconcelos, mãe de Olívia, passaria para Bianca porque Henrique escolhera aquele momento exato para revelar a traição. Olívia encarou Vera.
— Você sabia?
A madrasta desviou os olhos. Algo se rompeu dentro dela, mas não foi o coração. Foi a última ilusão de que ainda existia alguma família naquele salão.
Olívia entregou o buquê a doutor Álvaro e desceu os degraus do altar. Henrique tentou segurá-la quando passou, mas ela puxou o braço antes que os dedos dele se fechassem.
— Podemos conversar sem essa plateia.
— Você deveria ter pensado nisso antes de trazer sua amante grávida ao meu casamento.
Atravessou o salão sob uma chuva de flashes. Do lado de fora, uma garoa fina cobria a entrada do hotel, e o ar frio ajudou-a a respirar. Restavam sete horas. Não havia tempo para chorar, embora nenhuma mulher sensata conseguisse um marido antes da meia-noite.
Perto das portas giratórias, dois seguranças discutiam com um homem. Ele usava uma jaqueta escura manchada de lama, calça gasta e botas velhas. Era alto o bastante para obrigar um dos seguranças a erguer o queixo ao enfrentá-lo. A jaqueta larga escondia parte de seu corpo, mas não conseguia disfarçar os ombros amplos nem a firmeza dos braços sob o tecido úmido.
— Eu só pedi para usar o telefone — disse ele.
— Já mandamos você sair daqui — respondeu um dos seguranças, agarrando-o pelo braço.
O desconhecido baixou os olhos para a mão que o prendia. A tensão percorreu seus ombros e tornou visível o contorno dos músculos sob a roupa. Por um instante, Olívia teve certeza de que ele poderia derrubar o homem sem grande esforço. Em vez disso, girou o pulso, livrou-se com um único movimento e permaneceu exatamente onde estava.
Não era a calma de alguém indefeso. Era a contenção de um homem que conhecia a própria força e escolhera não usá-la.
Olívia o reconheceu. Naquela manhã, quando chegara ao hotel, vira o mesmo homem próximo ao estacionamento. Oferecera dinheiro, que ele recusou, e depois uma garrafa de água. Ele aceitara a água sem tentar prolongar a conversa ou inventar uma história triste.
— Deixem-no em paz.
Os seguranças se viraram.
— Senhora Vasconcelos, ele está incomodando os hóspedes.
— Pedir um telefone não é crime.
O homem também a reconheceu. Seu olhar percorreu o véu, os ombros expostos e a cintura marcada pelo corpete. Não havia vulgaridade, mas ele demorou uma fração de segundo a mais do que deveria antes de alcançar o rosto dela.
— Parece que o seu dia piorou.
A observação deveria tê-la irritado. Em vez disso, foi a primeira coisa sincera que alguém lhe disse desde o início da cerimônia.
As portas se abriram atrás dela. Henrique, Bianca, Vera e vários convidados haviam seguido o escândalo até a entrada. As câmeras reapareceram logo depois.
— Olívia, volte para dentro — pediu Henrique. — Você está abalada.
Ela olhou para Bianca. Em poucas horas, a irmã ocuparia a presidência da empresa que pertencera à sua mãe. Então tornou a encarar o desconhecido.
A ideia surgiu inteira, absurda e perigosa. Talvez se arrependesse antes mesmo de chegar ao cartório. Ainda assim, qualquer risco parecia menor do que entregar tudo àquelas pessoas.
— Você disse que precisava de um telefone. Ainda precisa?
Ele observou a família reunida atrás dela.
— Agora estou mais interessado em saber do que você precisa.
A voz era baixa, firme e inesperadamente profunda. Quando ele se aproximou, Olívia precisou erguer o rosto para encará-lo. De perto, percebeu que a camiseta escura sob a jaqueta se ajustava a um peito largo e estreitava na altura da cintura. O corpo não combinava com as roupas abandonadas nem com a imagem de fragilidade que os seguranças haviam presumido.
A barba crescida também não escondia completamente o rosto. Apenas o tornava mais áspero. O corte próximo à sobrancelha acentuava os olhos claros, a mandíbula era firme e o nariz ligeiramente irregular, como se já tivesse sido quebrado. A boca tinha um desenho forte, largo, impossível de não notar quando ele falava.
Aquele homem não era apenas mais jovem do que parecera no estacionamento. Era perturbadoramente bonito.
Olívia desviou o olhar, irritada consigo mesma. Seu casamento acabara diante de centenas de pessoas. Não fazia sentido reparar na boca de um estranho naquele momento.
— Preciso de um marido.
Henrique soltou uma exclamação. Bianca perdeu o sorriso. O desconhecido, porém, não riu.
— Você costuma pedir estranhos em casamento?
— Só quando o meu noivo engravida minha irmã.
Os olhos dele voltaram para Henrique, demorando-se o suficiente para deixá-lo desconfortável.
— Meu nome é Olívia Vasconcelos. Preciso estar casada antes da meia-noite. Podemos fazer um contrato de seis meses. Ao final, você receberá dinheiro suficiente para ter uma casa, começar um negócio ou fazer o que quiser.
— E o que você recebe?
— O que é meu.
Henrique se aproximou.
— Isso é ridículo. Você vai se casar com um mendigo para me punir?
O desconhecido o encarou sem alterar a expressão.
— Ela não parece muito interessada em você neste momento.
— Não fale comigo como se estivéssemos no mesmo nível.
— Hoje você está discutindo com um homem da rua porque ele pode ocupar o seu lugar. Talvez os níveis não estejam tão distantes quanto imagina.
Henrique avançou, mas Olívia se colocou entre os dois.
— Ainda não ouvi sua resposta.
— Você nem sabe meu nome.
— Então diga.
Houve uma breve pausa.
— Dante.
— Dante o quê?
— Por enquanto, apenas Dante.
Um homem sem sobrenome, endereço ou passado não era uma solução segura. No entanto, Olívia confiara em Henrique durante anos, e segurança não a protegera de nada.
— Aceita ou não?
Dante deu mais um passo. Os ombros largos bloquearam parte da luz da entrada, e Olívia sentiu o calor do corpo dele apesar do ar frio. Havia alguma coisa desconcertante em seu olhar, como se a proposta não o tivesse colocado em vantagem. Ele também a avaliava, tentando decidir se o risco valia a pena.
— Tenho uma condição.
— Qual?
— Não vou entrar naquele hotel como um homem que você comprou. Diante da sua família, serei seu marido.
— É apenas aparência.
— Para eles. Entre nós, é um acordo. Mas não vou aceitar que me trate como algo que recolheu na calçada.
Olívia sustentou o olhar. Pela primeira vez desde a entrada de Bianca, alguém não tentava diminuir sua dor, controlar sua reação ou convencê-la a ceder.
— Certo. Diante deles, você será meu marido.
Dante estendeu a mão. Olívia esperava um cumprimento, mas ele virou a palma quando seus dedos se tocaram e os entrelaçou aos dela. A mão era grande, quente e áspera, fechando-se ao redor da sua com uma firmeza que não machucava.
O interior do pulso dele roçou o dela. O contato foi mínimo, porém uma onda de calor percorreu o braço de Olívia e alcançou um ponto desconfortavelmente baixo em seu ventre. Ela apertou os dedos por reflexo e sentiu a resposta imediata da mão dele.
Dante percebeu. Seus olhos desceram para as mãos unidas e voltaram ao rosto dela, mais atentos do que antes.
Olívia lembrou a si mesma de que não estava escolhendo um homem. Estava resolvendo um problema. Seu corpo, inconvenientemente, parecia ter compreendido outra coisa.
— Então eu aceito — disse ele.
Henrique bloqueou a entrada.
— Você não vai se casar com esse homem.
— Perdeu o direito de decidir com quem eu me caso quando escolheu minha irmã.
Olívia tentou avançar, mas Dante não se moveu. Continuou segurando sua mão enquanto observava os fotógrafos reunidos diante das portas.
— O que foi?
— Se entrarmos juntos, eles vão querer uma fotografia.
— E daí?
Ele usou as mãos unidas para trazê-la um pouco mais perto. A manga úmida da jaqueta roçou o braço nu de Olívia, e ela sentiu o cheiro de chuva, couro e alguma coisa mais quente que vinha da pele dele.
Precisou inclinar a cabeça para trás para encará-lo. A posição deixou a boca de Dante próxima da sua, transformando a conversa sobre um beijo em algo muito menos abstrato.
— Está falando de um beijo?
O olhar dele desceu lentamente até os lábios dela.
— Estou dizendo que talvez seja necessário.
— Para convencer minha família?
— Para convencer todos que estiverem olhando.
— E você vai conseguir fingir?
Dante permaneceu em silêncio por um instante. O polegar dele deslizou uma única vez sobre o interior do pulso de Olívia, e a resposta veio perto demais de sua boca.
— Essa parte talvez não precise de fingimento.
Ele começou a caminhar, levando-a em direção às câmeras. Olívia o acompanhou, tentando não pensar que beijar aquele desconhecido já não parecia a parte mais absurda de sua proposta.







