Seja homem…

Henrique Lucchese

Dirigir sempre foi uma das únicas coisas que conseguia me ajudar um pouco a organizar o caos na minha cabeça. Pisei ainda mais fundo no acelerador, sentindo a irritação pulsar.

A cidade passava rápido pelas janelas do carro, enquanto eu dirigia em direção ao clube. O clube não tinha nome exposto, nem fachada chamativa. Não precisava. Quem frequentava o lugar, sabia chegar, e quem não sabia, simplesmente não entrava.

Os portões se abriram assim que me aproximei, os seguranças fizeram apenas um aceno discreto de cabeça. Segui direto para o estacionamento subterrâneo e desliguei o carro. O silêncio durou pouco, apesar de que ali embaixo era possível ouvir a vibração distante da música. Subi os lances de escada sem olhar para trás e quando a porta pesada se abriu o som me atingiu de uma vez.

O local estava tomado por luzes baixas, corpos em movimento e o cheiro de álcool e perfume caro misturados no ar. Um lugar em que todos buscavam diversão, sem fazer perguntas. Caminhei direto para o bar.

— Uísque.

O bartender assentiu e em poucos segundos o copo já estava na minha frente. Virei a metade de uma vez, a bebida desceu queimando. Deixei o copo sobre o balcão e segui em direção à escada lateral que levava à área Vip. O segurança abriu caminho imediatamente, o local estava mais controlado, menos caótico. E foi ali que vi meu irmão encostado no sofá com uma postura relaxada demais para quem a poucas horas atrás tinha acabado de fechar um acordo de casamento. Ao lado dele, como sempre, estava Tiziano.

Quando me aproximei, Tiziano foi o primeiro a perceber. Guilherme se virou para mim logo em seguida.

— Achei que você não viria. — ele disse, com um meio sorriso.

— E eu tenho opção?

— Em casa estava complicado demais. — passou a mão pelo queixo pensativo.

Tiziano se levantou devagar, como se já soubesse exatamente o que vinha a seguir.

— Vou pegar uma bebida. — ele disse, sem olhar diretamente para mim, lançando um olhar rápido para o Guilherme.

Esperei que ele se afastasse e voltei minha atenção para o meu irmão.

— Então… vai mesmo continuar com isso?

Guilherme não me respondeu. Pegou o copo na mesa e girou o líquido lentamente, como se procurasse dentro do copo a resposta.

— Não começa, Henrique. Você sabe que eu não sei o que fazer.

— Eu nem comecei. Só quero entender até onde você pretende levar essa encenação.

— Você não entende.

— Não? Engraçado… porque pra mim está bem claro. — Me sentei ao lado dele no sofá. — Você vai casar com uma mulher que está apaixonada por você, ou melhor, que está apaixonada por uma versão sua que não existe.

— Cuidado com o que você fala.

— Ou o quê? Você acha que isso é certo?

— É o único jeito…

Balancei a cabeça devagar e passei a mão pelo rosto.

— Não é o único jeito. É o jeito que você acha mais fácil.

— Fácil? Você não faz ideia do que está dizendo.

— Você vai destruir a vida daquela garota, Guilherme.

— Eu não quero esse casamento, Henrique. Estou sendo tão obrigado quanto ela.

— Ela está apaixonada por você, não tem como isso dar certo. Isso vai dar errado, e quando der não é só você quem vai pagar.

— É por isso que eu preciso que você me ajude.

— Não! — minha resposta saiu seca.

— Henrique…

— Não, já te disse várias vezes que não vou fazer parte disso.

— Eu quero que você me ajude a sair disso.

— Então seja sincero. Não seja covarde. Olha pra eles e diz que você não quer esse casamento.

— Você sabe que não é simples.

— Claro que não é, mas continua sendo a única coisa certa a fazer.

— Você sabe como são os nossos pais… a nossa família. Isso não é só sobre mim.

— E também não é só sobre eles. — rebati na mesma hora. — Você se esqueceu que tem uma mulher inocente no meio disso?

Ele desviou o olhar e levantou observando a pista de dança lá embaixo.

— Eu não quero decepcionar ninguém.

— É melhor decepcionar o mundo inteiro do que viver uma vida de mentira.

— Isso não é justo! Você é o filho mais velho! Você quem deveria se casar.

— Você sabe muito bem como é a nossa mãe e os possíveis motivos dela.

Ele apertou os olhos como se as minhas palavras o tivesse atingido exatamente onde doía.

— Minha vontade é sumir, desaparecer!

— Seja homem, Guilherme. — falei, direto. — Enfrenta seus problemas.

Por um momento achei que ele fosse finalmente reagir e decidir fazer o certo, mas meu irmão permaneceu em silêncio.

— Em breve nossos pais vão noticiar publicamente seu casamento. Você não tem muito tempo.

— Eu sei disso…

Seu olhar se voltou perdido para a multidão pulsante que dançava alheia. Vê-lo daquela forma me incomodava profundamente. E eu pressentia com uma certeza incômoda que as coisas não terminariam bem para nenhum de nós.

Duas semanas depois…

Minha agenda do dia estava lotada de reuniões de trabalho, mas nada silenciava um incômodo constante que não desaparecia. Após o jantar, fui direto para o meu quarto com o celular na mão encarando a tela, antes de finalmente começar a fazer algumas ligações. Joguei o celular sobre a cama e passei as mãos pelos cabelos, tentando afastar pensamentos incômodos.

O silêncio no meu quarto e da casa era quase absoluto, pesado e sufocante. Apaguei a luz e me deitei mas minha mente não desacelerou. Quando finalmente consegui dormir, os sonhos vieram rápidos, confusos e pesados. Fui despertado por batidas fortes na porta do quarto com o coração descompassado.

— Henrique! — A voz da minha mãe estava desesperada.

A porta se abriu e ela entrou primeiro com o rosto molhado de lágrimas. Seu corpo tremia. Meu pai veio logo atrás segurando-a pelos ombros, mas a expressão dele era ainda pior.

— O que aconteceu? — perguntei, levantando rápido.

Minha mãe tentou falar, mas não conseguiu. Meu pai me encarou e foi direto com as palavras.

— O Guilherme sofreu um acidente de carro. Ele… não resistiu.

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