Mundo de ficçãoIniciar sessãoÍsis Soares
O jantar terminou e as conversas migraram automaticamente para o escritório como se um roteiro invisível estivesse sendo seguido. — Vamos ao escritório. — Teodoro anunciou, ajustando o paletó. Melânia acompanhou com um sorriso satisfeito e sem me dizer nada, Guilherme se levantou em seguida. Olhei para ele esperando por um gesto ou uma palavra, ou qualquer sinal, já que aquilo também dizia respeito a mim. Ele apenas assentiu num gesto educado. — Não demoro. — disse e foi embora. Minha mãe já tinha seguido ao lado do meu pai e eu fiquei completamente sozinha na sala. Eu sabia que não teria voz ativa, que tudo seria decidido sem mim, mas saber e sentir são coisas completamente diferentes. Cruzei os braços tentando conter a frustração e a insegurança. Caminhei sem pressa pelos corredores silenciosos, até encontrar um terraço. A porta estava entreaberta e empurrei devagar recebendo o ar da noite fresco e leve. Apoiei as mãos no parapeito enquanto olhava o jardim abaixo, enquanto a brisa soprava movendo meus cabelos. Fechei os olhos tentando me acalmar. Pensei em Guilherme, na forma como ele me olhou, como me tocou, não seria tão ruim assim. — Bonito, não é? A voz ecoou atrás de mim, grave próxima demais. Meu corpo reagiu ao reconhecê-la e me virei rápido demais, dando de cara com Henrique, encostado na porta do terraço, como se estivesse ali há mais tempo do que eu gostaria de imaginar. Ele estava sem a gravata, com os primeiros botões da camisa aberto, deixando-o menos rígido. Seus olhos estavam fixos em mim. — Eu não ouvi você chegar. — falei, tentando não demonstrar abalo. — Eu sei. Endireitei a postura já dando um passo para o lado, criando distância. — Eu já estava saindo. — Não precisa fugir, Ísis. Falou antes que eu desse o segundo passo. Parei e virei o rosto de volta para ele, sentindo uma pontada de irritação surgir forte o suficiente para se sobrepor ao desconforto. — Eu não estou fugindo. — Não? — ele ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços. — Não. Só não vejo motivo para ficar. Ele afastou da porta, dando alguns passos em minha direção. — Lá dentro você estava bem confortável ao lado do meu irmão. E agora vejo que te deixaram de fora dos negócios. — o tom era de pura provocação. — Isso te incomoda? — rebati, cruzando os braços. — Você não sabe o que está acontecendo ali dentro. — disse por fim. — E você sabe? — Muito mais do que você. A segurança na resposta me irritou profundamente. — Então me explica. Porque até agora, tudo o que você fez foi me criticar. Então se você sabe de algo que eu deva saber, deveria me falar. — O que eu mais queria é que você tivesse plena consciência no que está se metendo. — Eu sei o suficiente, Henrique. Essa conversa não vai nos levar a lugar nenhum. Você mais do que eu deveria saber como as coisas funcionam em famílias como a nossa. Está sendo grosseiro e arrogante comigo. — Arrogante? — Você me olha como se eu não fosse boa o suficiente para o seu irmão. — Não é nada disso. — Por que você me odeia, Henrique? — Eu não te odeio. — a resposta dele foi fria. — Então o que é isso? — insisti, sentindo meu coração acelerar. — Porque você claramente tem algum problema comigo. Henrique me encarou como se decidisse o que diria. — Você é ingênua. — Não, sou. — É, sim. Não vou te chamar de burra, porque sua cara apaixonada entrega tudo. Suas palavras foram como um golpe cruel. — Eu não sei do que você está falando. — respondi rápido demais, tentando disfarçar. — Sabe, sim. — deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. — Você olha pro meu irmão como se ele fosse a melhor coisa que já te aconteceu. Cada palavra parecia escolhida para me atingir e estava funcionando. — Para! — E sabe o que é pior — ele continuou — é que você está entrando nisso de bom grado. Estão te usando como uma peça num tabuleiro e você aceita. — Isso não é verdade. — retruquei envergonhada, sabendo que era exatamente aquilo. — Não? Já se declarou pro meu irmão, ou vai esperar casar primeiro? Foi o suficiente. A raiva veio forte e rápida. — Você é um babaca! Não pensei em nada, movi minha mão com força em direção ao rosto dele. O som da bofetada cortou o silêncio do terraço. — Não fale de mim como se me conhecesse. — falei, sentindo todo o meu corpo tremer. Henrique não se moveu, apenas levou a mão ao próprio rosto, passando os dedos pelo local da bofetada, como se estivesse avaliando não só a dor, mas a situação. O silêncio entre nós ficou pesado e perigoso. Meu corpo ficou em alerta esperando sem saber exatamente o quê, até que ele avançou em minha direção rápido demais. Tentei me afastar dando alguns passos para trás quase perdendo o equilíbrio. Senti suas mãos firmes segurando meus braços, puxando meu corpo contra o dele com uma força que tirou completamente o meu equilíbrio. Minhas costas encontraram a parede fria, com um impacto que não foi forte mas o suficiente para me prender contra a parede e seu corpo forte. O rosto dele ficou a centímetros do meu, provocando em mim raiva e inquietação. — Continue apaixonada e sonhadora… depois não diga que eu não te avisei, garota — ele disse com a voz baixa entre dentes. — Não preciso dos seus avisos, Henrique Lucchese! — rebati, tentando me soltar, mas o corpo dele continuava como uma muralha à minha frente. Mesmo percebendo o meu desconforto, ele não cedeu nenhum centímetro e isso só aumentou a minha indignação. — Me deixe passar! — O que está acontecendo aqui? A voz do Guilherme cortou o momento. Senti o corpo do Henrique tensionar, e então ele se afastou, como se nada tivesse acontecido dando alguns passos para trás, voltando os olhos para o irmão. — Não é nada. — Ele respondeu sem olhar para mim. Guilherme alternou o olhar entre nós dois, demonstrando que sabia que algo havia acontecido. Os dois se encararam por um breve momento e então Henrique simplesmente virou as costas e saiu, sem mais palavras ou explicações. — Você está bem, Ísis? Ele se aproximou com cuidado, o oposto do irmão. Assenti rapidamente, tentando recuperar o fôlego. — Estou. — Se ele fez alguma coisa… você pode me dizer. — afirmou com o olhar atento e preocupado. — Não foi nada… só discutimos. Ele pareceu considerar a minha resposta, mas não insistiu. Olhei para ele e aproveitei a oportunidade. — O que você acha disso tudo? — Disso? — Do casamento. Ele ficou em silêncio pensativo. — Eu acho que… já que isso vai acontecer… — fez uma pausa e os olhos voltaram para mim. — Fico satisfeito que seja com alguém como você. As palavras dele não foram exageradas nem intensas, mas foram suficientes porque eram gentis, sinceras e dele. Me senti um pouco mais tranquila. Talvez Henrique estivesse errado, porque a forma como Guilherme me tratava me transmitia calma. Eu podia fazer aquilo dar certo, ele poderia sim se apaixonar por mim.






