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O contrato continua de pé…

Ísis Soares

Eu não lembro exatamente em que momento comecei a chorar. Talvez tenha sido quando eu ouvi a palavra acidente. Ou quando alguém disse que o Guilherme não resistiu. Eu olhei para todos esperando que me dissessem que havia ocorrido um engano, mas isso não aconteceu.

O mundo ao meu redor continuou seguindo, as vozes dos meus pais, seus passos apressados, portas abrindo e fechando, enquanto tudo dentro de mim desmoronava em câmera lenta. Chorei praticamente o dia todo e à noite não consegui dormir. Quando o dia amanheceu, fiz minha higiene matinal de forma automática.

Sentei na cama sem nem perceber quando tinha chegado ali. Minhas mãos estavam frias, trêmulas, e eu as encarei por alguns segundos.

— Não… — sussurrei em lágrimas.

Chorei novamente me lembrando do Guilherme. Do sorriso contido, do olhar caloroso. A forma como segurou minha mão pela última vez, quando me acompanhou até o carro na noite do jantar.

Levei a mão à boca, tentando conter o soluço, mas foi inútil. O choro veio com força, rasgando o silêncio do quarto. Chorei descontroladamente, porque não era só a morte dele. Era a morte de tudo o que eu tinha construído, de tudo o que eu imaginei e acreditei.

Era a morte da esperança silenciosa de que, mesmo sendo um casamento arranjado… eu poderia ser feliz ao lado dele. Que, de alguma forma, aquilo poderia se transformar em algo verdadeiro, em algo nosso. E agora nem isso existia mais.

Meu peito apertou como se me faltasse o ar. Eu nem cheguei a tê-lo, e ainda assim, parecia que tinha perdido tudo. Ouvi batida suave na porta. Não respondi. Não tinha força. A porta se abriu devagar.

— Ísis… — A voz de Sofia era acolhedora e familiar.

Levantei o rosto, os olhos já ardendo, e a vi se aproximando com cuidado. Ela não disse nada no começo, só se sentou ao meu lado na cama e me abraçou.

Me agarrei a ela, escondendo o rosto em seu ombro enquanto o choro voltava, mais intenso, mais doloroso. Meus dedos apertaram o tecido da roupa dela com força.

— Eu sei… — Sofia sussurrou, passando a mão nos meus cabelos com carinho. — Eu sei que dói muito, amiga…

— Eu achei que… — tentei falar, mas a voz falhou. — Eu achei que poderia dar certo…

— Eu sei… — repetiu, mais baixo.

Ficamos abraçadas por alguns minutos. Sofia se afastou o suficiente para olhar para mim, segurando meu rosto com cuidado.

— Eu vim te buscar. O carro já está lá embaixo… — a voz mais firme, mas ainda cheia de cuidado. — Eles estão esperando. Eu sei que é difícil — Sofia disse, segurando minha mão — mas você precisa ir.

Meu estômago revirou.

****

O céu estava nublado e pesado, como se até o tempo tivesse decidido acompanhar aquele dia. Tudo era silencioso e definitivo demais. O carro adentrou o cemitério, e quando desci, senti minhas pernas fracas. Cada passo pesava mais do que o outro.

O som baixo de vozes, misturado a choros contidos, preenchia o ambiente de um jeito quase sufocante.

Todos estavam de preto e impecáveis como sempre. Mas, dessa vez, não havia aparência que sustentasse o que estava sendo sentido.

Meus olhos foram direto para eles, os pais de Guilherme. Melânia estava completamente desfeita, amparada por Teodoro, que tentava manter a postura, mas falhava. O rosto dele estava rígido, tenso, como se estivesse lutando contra a dor que insistia em escapar.

Engoli em seco, sentindo o peito apertar de novo.

As pessoas se aproximavam aos poucos, oferecendo palavras de conforto, toques leves, abraços rápidos. Como se existisse uma forma certa de lidar com aquilo.

Meus pais caminharam à minha frente, cumprimentando-os com formalidade. Observei de longe por um instante, sem saber exatamente como me mover, o que dizer, ou se deveria dizer alguma coisa. Foi então que vi Henrique. Ele estava um pouco mais afastado, parado, imóvel, como se não fizesse realmente parte daquilo tudo.

Estava de preto, alinhado e impecável como sempre. Os óculos escuros escondiam os olhos, mas não o resto. O maxilar estava travado, os ombros rígidos e a postura controlada demais. Ele não chorava.

Meu coração apertou de um jeito estranho, talvez porque agora, eu não o via como o homem arrogante e provocador daquela noite. Mas como alguém que tinha perdido o irmão.

As pessoas continuavam se aproximando dele, oferecendo pêsames. Ele respondia com um aceno discreto, um cumprimento breve, poucas palavras. Distante e fechado como sempre. Por um momento pensei em não me aproximar, lembrei da discussão,

das palavras duras e da forma como ele me olhou.

Mas reconsiderei, porque aquilo já não importava. Respirei fundo e caminhei em direção à ele até parar na sua frente. Por um segundo, achei que ele não tinha percebido minha presença, até que então seu rosto se virou levemente na minha direção. Os óculos escuros não me permitiam ver seus olhos.

E, ainda assim… senti o peso do olhar dele.

— Henrique… — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.

Ele ficou em silêncio e eu engoli em seco, reunindo o pouco de firmeza que ainda me restava.

— Meus sentimentos.

As palavras pareceram pequenas e insuficientes demais. Mas era tudo o que eu tinha. Esperei por uma resposta. Ele apenas me encarou, ou pelo menos parecia, já que as lentes escuras não me permitia ver seus olhos.

E então, finalmente ele assentiu com um movimento mínimo e quase automático.

— Obrigado.

A voz dele saiu baixa, contida, monossilábica e sem espaço para mais nada. Sem abertura ou continuidade. O silêncio se instalou entre nós pesado e desconfortável. Segurei o olhar por mais um segundo sem saber o que fazer e sem saber o que dizer. Então apenas assenti de volta e me afastei, levando comigo a estranha sensação de que, apesar de tudo, algo naquele adeus não estava completo.

Um mês depois…

Trinta dias desde o enterro, e ainda assim, parecia que o tempo não tinha passado. Eu ainda pensava no Guilherme, até mais do que deveria. Me recordava dos vários momentos em que nos encontramos. E, junto com as lembranças, vinha aquela sensação estranha de algo interrompido antes mesmo de começar.

Caminhei pelo jardim sem pressa, sentindo o vento leve tocar meu rosto e parei observando o jardineiro podando as roseiras com cuidado. As pétalas vermelhas contrastavam com o verde.

— Senhorita Ísis.

Virei o rosto e vi uma das empregadas se aproximando.

— Sua mãe está aguardando na sala com visitas.

Franzi levemente a testa. Visitas?

— Obrigada. — Assenti, ainda confusa.

Segui em direção à casa, aquele tipo de aviso raramente significava algo simples. Meu coração começou a bater mais rápido com uma inquietação se instalando. Passei pela escadaria e então cheguei à sala. Meus pés travaram ao ver Melânia e

Teodoro ali sentados como se nada tivesse mudado.

Como se um mês atrás não tivéssemos enterrado o filho deles.

Meu olhar percorreu os dois, tentando entender. Aquilo não fazia sentido. Com a morte do Guilherme não havia mais acordo e nem motivos. Fiquei parada na entrada, sem saber exatamente como agir ou o que dizer. Minha mãe estava ao lado deles, rígida, controlada como sempre, e meu pai tranquilo demais.

Ele me olhou e com a mesma calma prática de sempre, como se estivesse anunciando algo simples, rotineiro, disse:

— O contrato continua de pé.

Senti o chão desaparecer sob meus pés.

— O quê…?

— Você vai se casar com o Henrique.

Respirei fundo, tentando manter o controle, mas tudo dentro de mim estava em choque. Guilherme estava morto e eu teria que me casar com seu irmão que me odiava.

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