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Capítulo 5 - Consciência

  Lilly

  A manhã parecia ter ganhado uma textura diferente depois do café. Não exatamente mais leve, mas definitivamente mais clara — como se os contornos da situação finalmente se mostrassem, ainda que eu quisesse continuar fingindo que não via metade deles.

  James pediu um carro no hotel e, em poucos minutos, já estávamos seguindo pela costa italiana, com o mar de um azul indecente à esquerda e as casas coloridas comprimidas entre penhascos à direita. Ele dirigia com uma confiança irritante, como se aquele lugar fosse a sua segunda pele, e não apenas um destino de lua de mel forçada.

  — Já estive aqui algumas vezes — comentou, com a janela aberta, os cabelos bagunçando ao vento. — É um dos poucos lugares que me fazem querer ficar… por algumas horas, pelo menos.

  A forma como ele disse aquilo, natural, quase casual, fez meu estômago se contrair. Havia algo profundamente livre em James, algo que eu não sabia se queria admirar ou temer.

  Paramos em uma pequena vila de ruas estreitas e lojas com toldos listrados. Tudo tinha cheiro de limão, massa fresca e maresia. Eu tentava parecer tranquila, mas andava sentindo meu coração bater mais rápido do que deveria.  Enquanto ele parecia estar no habitat perfeito.

  Em menos de quinze minutos, James já tinha arrancado sorrisos de duas vendedoras, sido encarado por três mulheres (duas turistas e uma local que, aparentemente, conhecia muito bem aquele sorriso) e acenado casualmente para um grupo de jovens como se fosse algum tipo de celebridade despretensiosa.

  A cada gesto dele, meu corpo se retesava mais um pouco.

  Na quarta vez que uma mulher claramente se virou para observá-lo melhor — literalmente torcendo o pescoço — eu decidi que cheguei ao meu limite silencioso.

  — Você pretende fazer isso o dia todo? — perguntei, tentando soar neutra. — Parece que está cumprimentando fãs.

  Ele deu uma risada baixa, rouca, e olhou para mim com aquela expressão que sempre me dava a sensação de estar sendo examinada por dentro.

  — O quê? — ele perguntou, fingindo inocência. — Ser educado? Gentil? 

  — Não é educação nem gentileza, James. É… — busquei a palavra certa. — Exibição pura. 

  Ele sorriu como se eu tivesse contado uma piada excelente.

  — Eu só existo, Moss. As pessoas olham. A culpa não é minha.

  A sinceridade dele doía como um estalo.

  — E precisa corresponder a todos os olhares? — perguntei, cruzando os braços, mesmo que isso não ajudasse a minha pose de superioridade.

  — Se eu dissesse que não… estaria mentindo — respondeu, sem o menor pudor, apenas a verdade pura e crua saindo de sua boca, como sempre. — Eu gosto de ser visto. Sou assim desde que me entendo por gente. E você sabe disso. Todo mundo sabe disso.

  A naturalidade com que ele admitia aquilo me tirava do sério. Eu não precisava de sinceridade jogada como pedras. Precisava de mínima compostura. De respeito. De calma.

  Respirei fundo e continuei andando, sem olhar para ele.

  James me acompanhou, mãos nos bolsos, passos tranquilos, como se não tivesse acabado de jogar gasolina no meu nervosismo.

  — Ficou chateada? — perguntou após alguns minutos, a voz leve, mas diferente. Quase… atenta.

  — Não estou chateada — menti.

  — Então ficou desconfortável — ele concluiu, como se estivesse completando um quebra-cabeça óbvio.

  Parei de andar, virei para ele e ergui o queixo.

  — Eu só acho que já é difícil o bastante estar nessa situação sem você agir como se estivesse em um desfile.

  Ele sorriu de novo. 

  — Você queria que eu fingisse ser outra pessoa?

  — Talvez apenas alguém menos… exibido — respondi, sem conseguir evitar.

  James chegou mais perto, o suficiente para eu sentir o calor do corpo dele invadir o meu espaço pessoal. A sombra dele me envolveu antes que eu percebesse.

  — Eu não sei fingir, Lilly — ele disse, com uma sinceridade que parecia um golpe. — Nem por você, nem por ninguém. Sou isso aqui. O pacote inteiro. Inadequado, exagerado, livre demais… e completamente incapaz de fazer parecer outra coisa.

  Ele não disse como provocação. Não era deboche, não era charme. Era verdade. E a verdade, dita daquele jeito, mexeu comigo de um jeito estranho — como se eu estivesse encarando algo que sempre fugiu do meu controle: alguém impossível de moldar.

  Engoli a tensão e voltei a caminhar, tentando parecer menos afetada do que realmente estava. Mas, por dentro, tudo parecia uma corda esticada demais entre nós dois. E a cada passo, eu tinha mais certeza de que um ano com James Zabott poderia ser demais pra mim, na pior e na melhor das formas.

  James ri da minha tentativa de repreendê-lo e segue caminhando pela rua estreita, iluminada por um sol que parece querer derreter tudo ao redor.

  A Itália pulsa ao nosso redor, cheia de turistas, perfume de comida, vozes animadas, e eu tento não demonstrar como a presença dele bagunça meus pensamentos. Ele anda com as mãos nos bolsos, camisa levemente aberta demais no peito, como se estivesse posando para um catálogo que só existe na cabeça dele. E talvez exista mesmo.

  Quando percebo, duas mulheres passam por nós, cochicham, encaram James sem qualquer vergonha. Ele devolve o olhar com um sorriso preguiçoso que ele parece distribuir como cartão de visitas. 

  — Você precisa mesmo sorrir para toda mulher que respira na sua direção. — comento, tentando manter um tom casual, como se aquilo não me incomodasse. O que, obviamente, incomoda.

  James levanta uma sobrancelha, divertido, como se estivesse esperando exatamente essa reação.

  — Relaxa, Lilly. Não sou eu que vou atrás delas. Elas que vêm atrás de mim. — Ele fala como se estivesse comentando sobre o clima, tão natural que chega a irritar.

  — É um pouco… inconveniente — digo, virando o rosto para a vitrine de uma loja que eu nem estou vendo.

  — Inconveniente? — Ele repete, rindo. — Não deixa de ser a verdade. E você parece não gostar de verdades, talvez porque machucam.

  Paro de andar. Não por escolha, mas porque a frase dele me acerta em cheio, como se tivesse sido calculada. Ele dá mais dois passos antes de notar que eu parei e se vira, ainda sorrindo, mas o sorriso agora tem uma pontinha de algo mais agudo, mais atento.

  — O que foi? — ele pergunta.

  — Nada — respondo, mas minha voz sai baixa demais, traindo um pouco do que sinto.

  James se aproxima devagar, como se estivesse decidido a reduzir a distância até que eu tivesse que admitir alguma coisa. O movimento é simples, mas me afeta como se o chão tivesse inclinado.

  — Você fica diferente quando está brava — ele diz, em tom brincalhão, mas os olhos dizem outra coisa.

  — Não estou brava. — Tento dizer firme, mas acho que pareço uma criança negando que comeu chocolate antes do almoço.

  — Claro que não — ele responde, claramente se divertindo com a minha negação desajeitada. — Mas fica fofa tentando disfarçar.

  O calor toma o meu rosto de um jeito que nem o sol italiano conseguiria. Viro o rosto e sigo andando, porque ficar ali parada significa virar cinzas.

  Ele me acompanha, passos tranquilos, como se soubesse exatamente o que está fazendo comigo. E talvez saiba. 

  — Você sabe o que mais é inconveniente? — ele diz, a voz um pouco mais baixa, quase perto demais. — Fingir que você não se importa, quando sua cara grita cada vez que alguém olha para mim.

  Engulo seco. Sinto o coração bater no estômago.

  — Eu não me importo — respondo, firme demais, como se a firmeza pudesse construir uma barreira entre nós. — Só acho que... é muito óbvio. Isso te torna convencido, pretencioso... 

  James finge concordar, dá de ombros, mas então solta:

  — Então relaxa, Lilly. Ficaremos casados por um ano. Um casamento de mentira… mas, infelizmente pra você, eu sou de verdade. 

  — O que está tentando dizer? 

  — Que as mulheres nunca resistem a mim, 

  Arqueio a sombrancelha, abismada. Não quero acreditar que ele seja realmente convencido desse jeito. 

  — Meu Deus... — murmuro para mim mesma. 

  — Eu vou aceitar seu trato, Lilly. — diz, andando ao meu lado. — Nada de toques, nada de proximidade. Fingiremos ser o casal perfeito por um ano. Depois disso, você será livre. 

  Ele dispara isso e segue andando, deixando para trás a frase que me atinge como um choque. E eu fico ali por um segundo, tentando recuperar o fôlego, tentando decidir se sinto raiva, vergonha ou uma atração que está ficando difícil demais de ignorar.

  A Itália continua vibrante ao redor, mas de repente tudo parece secundário comparado a ele. E essa consciência acende alguma coisa dentro de mim que eu não queria que estivesse acesa. Mas está, e arde.

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