Capítulo 4 - Um acordo

  Lilly

  Passei a maior parte da noite acordada, revirando na cama improvisada, como quem tenta fugir de pensamentos que insistem em grudar na cabeça. O quarto estava mergulhado em silêncio, exceto pelo som compassado da respiração de James na cama ao lado. Ele dormia profundamente, com o rosto relaxado, os lábios entreabertos e um ar tranquilo que me irritava um pouco — como se nada tivesse acontecido, como se não estivéssemos presos numa situação completamente absurda.

  Quando o sol começou a se infiltrar pelas frestas da cortina, tingindo o quarto de um dourado suave, eu já estava desperta há horas. Rolei para o lado e fiquei observando-o por alguns segundos, sem querer, tentando entender que tipo de homem dormia ali, tão próximo, e também tão distante. Ele parecia alheio a tudo — à confusão, ao casamento forçado, a mim. Tive vontade de rir, e de chorar também. Como alguém podia parecer tão indiferente diante de algo tão surreal?

  Suspirei e me sentei na cama, abraçando os joelhos. Era estranho pensar que eu estava oficialmente casada com aquele homem. Por um ano, segundo o que planejava, mas ainda assim… casada. A ideia soava quase irônica. Um casamento arranjado, com um homem que mal conhecia, e que, sinceramente, parecia incapaz de se importar com qualquer coisa além da própria liberdade.

  Levantei devagar e caminhei até o banheiro. A água fria no rosto me ajudou a acordar, mas não o suficiente para dissipar a confusão que girava dentro da minha cabeça. Olhei para o espelho por um tempo. O reflexo que me encarava era o de uma mulher que tentava parecer no controle, mas que por dentro estava completamente perdida.

  — Você vai conseguir, Lilly — murmurei para mim mesma. — Um passo de cada vez.

  Quando saí do banheiro, James estava de pé, perto da cama, com o cabelo bagunçado e os olhos ainda semicerrados de sono. Ele parecia mais humano assim, menos arrogante, menos… intocável. Por um instante, achei até que havia algo de atraente naquele ar sonolento e despretensioso.

  — Bom dia — ele disse, a voz rouca, arrastada.

  Assenti, tentando parecer natural.

  — Bom dia. O banheiro está livre.

  Ele agradeceu com um aceno e entrou, desaparecendo entre o vapor e o barulho da água.

  Mal tive tempo de respirar quando o celular vibrou sobre a mesinha. Olhei o nome piscando na tela e senti o coração apertar. Jodi, minha irmã, que não conseguiu chegar ao casamento a tempo, porque perdeu o voo. 

  — Alô… — murmurei, atendendo. — Oi, Jo.

  — Lilly! — a voz dela veio alta, elétrica como sempre. — Me explica essa história, pelo amor de Deus! Como assim você casou com o James e não com o Christopher?

  Olhei na direção do banheiro, temendo que James pudesse ouvir. Peguei o celular e saí para a sacada, fechando a porta atrás de mim. O ar fresco da manhã me atingiu, trazendo um alívio momentâneo.

  — Foi tudo um desastre — confessei, em voz baixa. — O Christopher não apareceu, e… acabaram me casando com o James.

  Do outro lado da linha, o grito de Jodi quase me fez afastar o celular da orelha.

  — Justo com o gostosão?

  Revirei os olhos.

  — Jodi, fala baixo, pelo amor de Deus.

  — Não acredito! — ela riu, como se fosse a melhor notícia do mundo. — Você se casou com o irmão do seu noivo! Isso é digno de novela mexicana!

  — Não é engraçado. — Cruzei os braços, frustrada. — Eu não sei o que fazer, Jo. Mal conheço o James, e agora estamos presos nessa situação horrível.

  — Horrível? — ela zombou. — Eu chamaria de “oportunidade”. Vocês estão sozinhos, numa lua de mel, num lugar lindo… Querida, o universo te deu um presente.

  — Jodi, por favor. — Suspirei. — Eu não tenho intenção nenhuma de estreitar laços com ele. Quero apenas manter as aparências até as coisas se resolverem.

  — Uma relação de fachada? — ela gargalhou. — Isso nunca dá certo, mana. Cedo ou tarde, vocês vão acabar se envolvendo.

 — Não, não vamos. — Tentei soar convicta, mas nem eu mesma acreditei no tom. — James não é como o Christopher. Ele é mulherengo, irresponsável… e pelo que sempre ouvi, detesta compromissos.

  — E justamente por isso vai ser irresistível. — Jodi disse, rindo. — Homens assim são o problema e a solução, depende de como você lida com eles.

  Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ela não podia me ver.

  — Eu só quero paz, Jodi. Um pouco de normalidade.

  — Normalidade é pra gente sem história, Lilly. — A voz dela amaciou. — Talvez esse seja o seu momento de parar de planejar tudo e deixar a vida te surpreender um pouco. Faça algo por você agora, não pelos nossos pais. 

  Antes que eu respondesse, ouvi o som do chuveiro desligando. Olhei para dentro do quarto através do vidro da sacada e vi James saindo do banheiro, com a toalha no ombro, distraído.

  Meu coração acelerou — não de paixão, mas de pura confusão. Eu não sabia o que sentir.

  — Eu preciso desligar, Jo. Depois te ligo.

  — Tá bom, mas promete que vai me contar tudo depois. E quando digo tudo, é tudo, ouviu?

  — Tchau, Jodi. — Encerrei a chamada antes que ela complicasse mais minha cabeça.

  Encostei as mãos no parapeito da sacada e respirei fundo. O sol já estava mais alto, dourando a cidade. E enquanto eu olhava o horizonte, me dei conta de que eu podia ter todos os planos do mundo, mas com James Zabott no meio deles… nada sairia como o previsto.

  Ouvi o som da porta da sacada deslizando atrás de mim e, quando me virei, lá estava James. O cabelo ainda úmido, as gotas escorrendo pelas têmporas e descendo pelo pescoço até desaparecerem na gola da camiseta branca, que grudava levemente em seu peito. Ele parecia recém-saído de um comercial de perfume caro, o que me irritou um pouco — ninguém devia ter o direito de parecer tão despreocupado depois de bagunçar tanto a vida dos outros.

   — Está quente aqui fora — ele comentou, passando a mão pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais. — Achei que o clima da ilha fosse mais ameno.

  — Eu me esqueci de ligar o ar-condicionado — respondi, recostando-me na grade da sacada. — Mas, pra ser sincera, nem senti calor. Só uma brisa.

  Ele ergueu uma sobrancelha, como se achasse graça da minha resposta.

  — Então é você que é fria demais, Moss. O ambiente tenta acompanhar.

  Revirei os olhos e tentei disfarçar o sorriso que ameaçava escapar.

  — Talvez eu só saiba manter a compostura melhor que você.

  — Duvido — ele respondeu, a voz carregada de ironia. — Mas tudo bem, mantenha sua pose.

  James apoiou os braços na grade ao meu lado, o suficiente pra eu sentir o cheiro do sabonete misturado com algo amadeirado e forte. O tipo de perfume que parece feito pra chamar atenção sem precisar de esforço. Fiquei tensa, porque ele estava perto o bastante pra que eu percebesse o calor do corpo dele, mas longe o suficiente pra que parecesse que não fazia de propósito.

  — Vamos pedir um café no quarto? — perguntou casualmente, como se estivéssemos em uma manhã comum de casal em lua de mel.

  — Tanto faz — respondi. — Eu não costumo comer muito pela manhã.

  Ele virou o rosto na minha direção, os olhos meio apertados pelo sol.

  — É bom mudar isso.

  — Mudar o quê? — perguntei, confusa.

  Um meio sorriso surgiu nos lábios dele.

  — É bom que você se alimente bem aqui. Talvez precise de energia depois.

  Por um segundo, não consegui dizer nada. Apenas o encarei, tentando entender se ele estava brincando, provocando, ou insinuando algo mais. A voz dele soou leve, quase divertida, mas o olhar tinha um peso diferente, como se ele estivesse avaliando minha reação com uma curiosidade que não me agradava nem um pouco.

  Engoli seco, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

  — Não se preocupe comigo. Sei muito bem como cuidar de mim mesma.

  — Eu não duvido — ele respondeu, com um tom que parecia mais elogio do que provocação. — Mas ainda assim... energia nunca é demais, não acha?

  Tentei ignorar o calor que subiu pelo meu rosto e desviar o assunto, fingindo que a paisagem ao longe me interessava mais do que ele. O mar, lá embaixo, cintilava com um brilho quase prateado sob o sol da manhã, e por um instante, desejei estar dentro dele — qualquer coisa para fugir daquela tensão que começava a crescer entre nós, como se o próprio ar tivesse ficado mais denso.

  James, por outro lado, parecia perfeitamente confortável. Reclinou-se na grade, olhando o horizonte com um meio sorriso preguiçoso, como se aquele fosse apenas mais um dia qualquer. E talvez, pra ele, fosse mesmo. Mas pra mim, era o início de algo que eu ainda conseguia lidar.

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