Capítulo 6 - Atração

  James

  O mar estava tão azul que parecia ter sido pintado à mão, mas nada ali puxava meus olhos tanto quanto ela. Lilly sentada na minha frente, com o vestido leve batendo no vento, parecia deslocada naquele cenário — não porque não combinasse. Pelo contrário. Ela tinha aquele jeito de quem nasceu pra ser admirada sem se esforçar. O problema é que ela parecia completamente imune ao efeito que causava. E imune a mim.

  O restaurante era um dos mais badalados, com garçons que tratam turistas como peças de museu e gente rica que finge que não está olhando o prato do outro. E mesmo assim, quando eu cheguei com Lilly, os olhares femininos começaram a pipocar. Sempre acontece. Faz parte do show. Eu sorria, acenava, cumprimentava; educação, charme… chamem como quiser. Mas quando eu olhava de volta pra Lilly, ela estava ali: reta, tranquila, impassível. Era como fazer truque de mágica pra alguém que já sabe de onde sai o coelho.

  Havia algo nela que dava coceira na minha cabeça. Ela não reagia mais. Não corava, não vacilava, não me dava a mínima pista de que eu afetava ela. Isso me deixava num estado estranho: metade provocado, metade curioso. E, olha, não sou um cara que costuma sentir curiosidade sobre mulheres. Normalmente já sei como tudo vai acabar — e rápido. Mas Lilly não era “normalmente”.

  A gente pediu almoço, mas eu mal lembrava o que tinha no prato. Fiquei encarando ela até a paciência dela dar sinal de vida.

  — Você vai passar a viagem inteira olhando assim? — ela perguntou, mexendo na taça.

  — Estou só avaliando a situação. — dei de ombros. — Você pretende ficar o tempo todo aqui… de lua de mel?

  Ela franziu a testa, confusa.

  — Como assim?

  Já mandei a real, porque enrolar não faz meu estilo:

  — Digo que pode ser meio perigoso. Dormir no mesmo quarto, dividir a mesma cama, essas coisas.

  Ela riu. Não de nervoso. Não surpresa. Riu tipo quem acha graça de um cachorrinho tentando parecer lobo.

  — Não acho tão perigoso assim, James. Eu não tenho a menor intenção de cruzar essa linha.

  Isso ali… machucou o meu ego de um jeito que não deveria. Eu levantei a sobrancelha, dei aquele sorriso automático, mas por dentro… fiquei irritado. Ou inseguro. Sei lá. O fato é que eu pensei, por dois segundos, se ela não me achava atraente. O que seria inédito.

  Eu até respirei mais fundo do que pretendia.

  — E qual é o plano, então? — perguntei, meio impaciente. — Pra essa nossa lua de mel fake.

  Ela pensou um instante, encarando a praia.

  — Fotos. — disse como se fosse óbvio. — Românticas. Postadas nas redes sociais… ou enviamos para nossas famílias. Para evitar cobrança, pressão… esse tipo de coisa.

  Eu gemi por dentro. Fotos românticas. Não... 

  — Isso não vai rolar.

  Ela me encarou como se não tivesse ouvido direito.

  — Claro que vai. Se não fizer, vão começar a perguntar sobre filhos. Vão pressionar você. Vão pensar que não estamos tentando.

  Tentar. Filhos. Minha alma saiu do corpo rapidinho e voltou com dor de cabeça

  — Eu… vou pensar. — falei, tentando não parecer um fugitivo emocional.

  Ela deu de ombros. Um simples levantar de ombros, como se minha aversão à ideia de mini-James correndo por aí fosse irrelevante.

  — Seus pais são piores que os meus, pelo que ouvi.

  Ela estava certa, e eu sabia disso. Só assenti, sem vontade de entrar nesse assunto. Antes que eu pudesse mudar de tema, ela o fez.

  — Você teve notícias do Christopher?

  Não entendi de primeira porque aquilo me irritou, mas irritou.

  — Você está tão preocupada com ele assim?

  Ela ajeitou o guardanapo no colo, com aquela calma irritante de quem mede palavras.

  — Eu não tenho sentimentos por ele, mas tenho respeito. É diferente.

  Eu cutuquei, claro. Não consigo evitar.

  — Vocês chegaram a fazer algo? Tipo andar de mãos dadas, beijar, sei lá.

  Ela olhou pra mim como se eu estivesse perguntando a tabuada.

  — Não. A gente só conversou algumas vezes. Chegamos a sair, mas nunca aconteceu nada. Eu… achei que aconteceria depois do casamento.

  Eu fiquei olhando pra ela, realmente surpreso. Ela parecia tão convicta, tão tranquila com isso, que precisei confirmar.

  — Então você nunca namorou ninguém? Nunca ficou com ninguém?

  Ela assentiu devagar.

  — Eu já disse antes, que me preservei pro meu futuro marido. Isso inclui tudo.

  “Pura.”

  A palavra me veio como um choque frio correndo pelo corpo. Hoje em dia isso é raríssimo. Difícil. E eu… não sei dizer por quê, mas achei interessante. Uma parte de mim quis tocar nisso. Entender. A outra, mais velha, mais cínica, resolveu sabotar o momento.

  — Talvez tenha sido um desperdício.

  Assim que falei, já quis puxar de volta.

  Ela ficou imóvel, só me encarando. Nada no rosto dela mudou, mas dava pra sentir de longe que eu tinha acertado um ponto sensível para caramba. O tipo de ponto que não se deveria cutucar nem de leve. E o arrependimento veio rápido.

  Desperdício. Puta escolha de palavra, James.

  Eu desviei o olhar, respirei fundo, tentei desmontar na cabeça a burrada. Mas já estava feita. E pela primeira vez desde que tudo começou — desde esse casamento absurdo, essa lua de mel improvisada, essa convivência que ninguém pediu —, eu senti um peso no peito. Ela era diferente. E eu tinha acabado de provar isso da pior forma.

  Fiquei ali, olhando o mar, tentando achar uma forma de consertar o que eu mesmo quebrei. E, em silêncio, admiti algo que não queria: Lilly mexia comigo de um jeito perigoso, exatamente porque não tentava mexer.

  Depois do almoço, resolvemos dar uma volta pela praia. 

  A praia estava cheia, mas parecia que alguém tinha abaixado o volume do mundo desde o almoço. Talvez fosse eu tentando fingir que não tinha falado besteira. Porque falei. E ela ficou quieta, o que é muito pior do que quando uma mulher briga. Silêncio é a versão feminina de “você pisou feio”.

  A areia quente entrava por entre meus dedos enquanto caminhávamos lado a lado. Eu até tentei manter meu modo padrão: olhar, sorrir, flertar de longe com as mulheres bonitas que passavam embaladas pelo sol italiano. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não senti o mínimo tesão no ritual. Até sorri pra duas ou três por hábito, mas foi automático. Sem alma. Sem graça. Porque, no fundo, a única expressão que eu estava tentando decifrar era a dela.

  Lilly vinha caminhando com os braços soltos, o vestido leve balançando com a brisa, os olhos fixos em algum ponto distante. O rosto estava neutro demais. E isso me deixava inquieto de um jeito estúpido. Não fazia sentido eu me importar. Mas eu me importava. E, como um idiota, fiquei imaginando se ela estava ferida, magoada, irritada, ou só pensando no próprio azar de ter me encontrado.

  Tirei o celular do bolso da calça jeans, destravei a tela e virei a câmera para ela sem avisar. Era o primeiro passo pra consertar a burrada. Ou piorar de vez.

  Ela virou o rosto na minha direção devagar, sobrancelha arqueada, aquele olhar que dizia “o que você está aprontando agora?”.

  — O que está fazendo? — perguntou, com aquela voz calma que não ajuda em nada quando você está tentando saber se alguém quer te enforcar.

  Levantei o celular um pouco mais, mirando o rosto dela, fingindo que estava super tranquilo.

  — Estou fazendo o que você sugeriu. Fotos românticas. Conteúdo de casal feliz pra enganar o mundo.

  Por um segundo — um segundo minúsculo — eu vi o canto da boca dela subir. Um sorriso tímido, contido, pequeno... mas suficiente pra tirar uma tonelada das minhas costas. Meu peito até afrouxou.

  Ajeitei o ângulo, tirei algumas fotos dela com o mar batendo atrás, o sol deixando o cabelo dela meio dourado. Ela não fazia pose. Só existia. E existia de um jeito muito… doce. Quase irritante pra alguém como eu.

  Depois aproximei a câmera pra uma selfie de nós dois. E aí ela veio chegando perto com certa hesitação, como se aproximar de mim fosse pisar em uma corda bamba. Quase ri disso. Eu não mordia. Quer dizer… não sem permissão.

  Nossos rostos ficaram perto o suficiente pra eu sentir o perfume dela. Algo suave, floral, doce, mas não empalagado. Doce no jeito certo. Doce no jeito que te pega sem você perceber. Quase como… inocência. Eu sempre fui movido por cheiros, sempre fui escravo das mulheres que sabiam exalar alguma coisa que me deixava tonto. Mas o dela era diferente. Tinha algo limpo, quase fresco, que me deu uma sensação estranha no peito, como se eu tivesse inalado memórias que não me pertenciam.

  E minha mente, essa desgraça, perguntou: é por ela ser pura? Será que isso muda o cheiro, a energia, seja lá o que for?

  Ridículo. Eu sabia que era ridículo. Mesmo assim, mexeu comigo.

  — Se aproxima um pouco mais — falei, tentando disfarçar o impacto, movendo a câmera.

  Ela obedeceu num movimento pequeno, a respiração dela roçou no meu queixo. E eu sorri sem querer. Porque, desde que assinei aquele casamento absurdo, senti que estava em apuros. De verdade.

  Continuei tirando fotos como se nada estivesse acontecendo, mas cada clique parecia dar um passo pra dentro de um problema que eu mesmo estava cavando. E, de algum jeito, eu não estava com vontade de sair dele tão cedo.

  A praia seguia barulhenta, viva, cheia de gente. Mas entre nós dois, havia um silêncio novo, cheio de alguma coisa. Algo que não existia ontem. Algo que podia virar fogo se a gente chegasse perto demais.

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