Mundo de ficçãoIniciar sessão
Angra dos Reis parecia um cartão-postal de tão perfeita. O céu estava dourado por causa do pôr do sol e o mar parecia um espelho, mas eu só conseguia sorrir dentro daquele táxi.
Dessa vez, o Carlos não teria escapatória. Chega de desculpas, de "vamos esperar" e de beijos rápidos. Eu estava cansada de ser a única virgem do meu grupo de amigas, exausta de inventar desculpas sobre a minha vida sexual e, acima de tudo, frustrada por ser rejeitada pelo cara que eu namorava desde os dezoito anos. Nossos pais eram sócios, então crescemos juntos. O Carlos sempre foi o genro perfeito que todo mundo aprovava, mas, na intimidade, ele mal me tocava. Dizia que estava me "respeitando" até o casamento, e eu tentava acreditar. Ajustei o sobretudo bege, sentindo a renda da calcinha vermelha raspar na pele. Era um modelo sexy demais, daqueles de enlouquecer. Pela primeira vez na vida, aos vinte e dois anos, eu queria me sentir desejada. Desci no resort e caminhei até a recepção, fingindo uma segurança que eu não tinha. — Kayla Garcia. Sou noiva do Carlos Araújo — falei para a recepcionista. A mulher sorriu ao olhar a tela do computador. — Ele está na suíte executiva. Vou avisar que a senhorita deseja vê -lo... — Não precisa! — interrompi, rápida, mostrando uma foto nossa no celular para não ter erro. — É nosso aniversário de quatro anos. Quero fazer surpresa. Ela se derreteu pelo romantismo e me entregou o cartão do quarto. O elevador subiu até o último andar e meu coração parecia que ia sair pela boca. Diante da porta, passei mais um pouco de gloss, arrumei o cabelo e passei o cartão. A suíte era imensa e estava no maior silêncio, iluminada só pelas luzes da varanda. Joguei minha bolsa no sofá e ouvi o barulho do chuveiro ligado. Tomei coragem, tirei o sobretudo e fui até o banheiro. Mas, quando cheguei perto da porta entreaberta, meu mundo caiu. Eu ouvi um gemido. Um gemido de homem, bem ofegante. — Lucas… — a voz do Carlos ecoou lá de dentro. Meu estômago embrulhou. Empurrei a porta de vagar e a cena acabou comigo. O Carlos estava prensando o Lucas contra a parede do box, os dois se beijando desesperadamente embaixo da água. Ele segurava a cintura dele com uma força e um desejo que nunca, em quatro anos, tinha demonstrado por mim. Fiquei congelada, sem conseguir respirar, até que o Carlos virou o rosto e me viu. Ele ficou pálido na hora. — Kayla... — ouvir meu nome na voz dele me quebrou por dentro. O Lucas se afastou correndo, assustado. Naquele segundo, tudo fez sentido na minha cabeça: as viagens longas, os beijos frios, a falta de toque. O problema nunca tinha sido eu. Nunca. Meus olhos arderam e o Carlos saiu do box do jeito que estava, pelado e desesperado. — Kayla, espera... — Não encosta em mim! — gritei, dando um passo para trás. Eu odiava chorar na frente dele. — Eu posso explicar — ele disse com a voz sumindo, passando a mão pelo cabelo molhado. Soltei uma risada que veio rasgando a minha garganta. — Explicar o quê? Que meu noivo sente atração por homens ? Você devia ter sido honesto e me falado a verdade há quatro anos, e não me deixar viver uma mentira. Mas o pior não foi ver a cara de culpa dele. Foi ver o alívio nos olhos dele. Parecia que ele estava se libertando de uma prisão, enquanto eu continuava ali, parecendo uma idiota, tentando me cobrir com as mãos. — Kayla, por favor... Eu não queria te machucar. — Então por que me enganou durante todo esse tempo ?! — berrei, e minha voz ecoou no banheiro. Ele hesitou, engolindo em seco. — Porque foi a condição que meu pai exigiu para eu continuar na presidência da empresa. Ele descobriu sobre minha orientação sexual e disse que eu precisava me casar com você para manter as aparências. Se eu não casasse com você, ele me tiraria tudo. Achei que se eu fosse discreto, você nunca iria descobrir... Me desculpa. Olhando para ele, vi que o Carlos também estava sofrendo com aquilo tudo , preso nas mãos de um pai homofóbico. Mas isso não dava o direito de me usar como escudo. O dinheiro e o status importavam mais para ele do que os meus sentimentos. Antes que eu dissesse mais nada, o Lucas soltou uma risada debochada lá de trás. Ele ajeitou o cabelo molhado e me mediu de cima a baixo com o maior desprezo do mundo. — Na boa, Carlos, por que você está dando tantas explicações para ela ? — Lucas provocou, com um sorriso maldoso. — Mesmo que você sentisse atração por mulheres , nunca ia querer nada com ela. Olha para ela.. Essa beleza toda não serve para nada. Ela é" sem sal," inexperiente demais. Uma patricinha mimada e grudenta que você era obrigada a aguentar para agradar seu pai ...Devia estar aliviado por ter a chance de se livrar dela . — E você, queridinha devia … — continuou Lucas de forma cruel. continuou Lucas de forma cruel, ajeitando o cabelo molhado com um sorrisinho de lado, mas antes que terminasse o que ia dizer Carlos o interrompeu. — Lucas, chega, porra! Não complica mais as coisas! — Carlos esbravejou, a voz saindo cortada pelo desespero enquanto ele tentava segurar o braço do amante. Carlos virou os olhos cheios de culpa para mim, os ombros caídos, parecendo carregar o peso do mundo ao me ver desabar. — Kayla, por favor... As coisas não são bem assim, eu... Aquilo acabou comigo. Ver o Carlos me olhando com pena enquanto o outro me humilhava foi o golpe de misericórdia. O banheiro parecia estar rodando e o ar sumiu dos meus pulmões, mas a dor excruciante virou ódio na mesma hora. Limpei a lágrima que escorria pelo meu rosto, respirei fundo e, com as mãos tremendo de puro asco, arranquei a aliança de noivado do meu dedo. Olhei bem nos olhos dos dois e joguei o anel com toda a força no chão. O metal fez um barulho alto, ecoando de forma cortante ao bater contra o piso de mármore. — Vão para o inferno, os dois! — gritei, com todo o nojo que consegui juntar na garganta. — Espero nunca mais ver a cara de nenhum de vocês na minha vida! Virei as costas, puxando o sobretudo bege com força para tapar o meu corpo, e saí correndo daquela suíte. Bati a porta do quarto com um estrondo, deixando para trás os dois e a mentira inteira que quase me destruiu.






