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Meu Marido Só Me Amou Depois Que Me Perdeu

Meu Marido Só Me Amou Depois Que Me PerdeuPT

Cuento corto · Cuentos Cortos
Jojo  Completo
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Resumen
Índice

Após sofrer um aborto espontâneo, Joana Xavier finalmente se transformou no tipo de esposa que Luiz Costa sempre desejou. Ela parou de compartilhar as pequenas alegrias do dia a dia e deixou de ligar de madrugada quando ele não voltava para casa. O distanciamento chegou a tal ponto que, ao ser vítima de uma falsa acusação de atropelamento e acabar na delegacia, ela preferiu o silêncio. Quando os policiais exigiram a presença de um familiar para pagar a fiança e assinar a liberação, Joana se limitou a dizer que não tinha ninguém, aceitando passar uma semana inteira detida com uma calma assustadora. No fim da tarde do sétimo dia, o som metálico e pesado do portão da delegacia ecoou pelo pátio. Assim que ela desceu os degraus de concreto, um carro de luxo preto freou bruscamente a poucos metros de distância. A porta se abriu e Luiz desceu, vestindo um terno de alta costura que caía com perfeição em seu corpo alto e atlético. Com os ombros largos e a postura impecável de sempre, ele exalava aquela mesma aura fria, distante e inatingível.

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Capítulo 1

Capítulo 1

Luiz Costa cobriu a distância entre os dois em passos largos, parando com o cenho franzido.

— Joana, por que não me ligou quando tentaram aplicar um golpe em você?— Indagou, o tom carregado de uma reprovação contida.

Um sorriso fraco, quase imperceptível, despontou nos lábios dela.

— E se eu tivesse ligado, você teria atendido?

No dia anterior, enquanto voltava do trabalho, um idoso havia se jogado de propósito na frente do seu carro. Assustada, ela desceu para prestar socorro, mas o homem agarrou seu braço e começou a gritar para quem quisesse ouvir que ela o havia atropelado e tentava fugir.

As câmeras de segurança da rua provaram sua inocência, mas a burocracia exigia a assinatura de um familiar para a liberação. Como ela insistiu que não tinha parentes, a polícia buscou seus registros civis, encontrou o contato do marido e tentou ligar. O aparelho estava desligado. Foram dezenas de tentativas ao longo da noite, todas caindo direto na caixa postal.

A expressão de Luiz vacilou por uma fração de segundo.

— A Alícia passou mal do estômago ontem à noite e levei ela ao hospital. — Ele desviou o olhar, justificando-se. — Como ela não suporta barulho quando está doente, achei melhor desligar o aparelho. — Ele fez uma pausa, e a voz perdeu um pouco da rigidez habitual. — Sinto muito.

— Não tem problema. — Joana respondeu com uma naturalidade que beirava a indiferença. — Eu não esperava que você viesse, de qualquer forma. Pode continuar cuidando dos seus compromissos.

O tom dela era tão pacato, e o olhar tão vazio, que pareciam águas paradas de um lago morto, incapazes de formar a menor onda. Incomodado com aquela apatia, Luiz esticou o braço de repente e agarrou o pulso da esposa. A pele dele estava quente, e o aperto foi forte o bastante para fazê-la franzir a testa em desconforto.

— Por que você não está com raiva? — Ele a encarava com intensidade, os olhos revelando uma confusão misturada a uma inquietação que o próprio orgulho o impedia de admitir.

Joana achou a pergunta quase cômica e retrucou:

— E por que eu estaria? Você me deu um motivo, entendi a situação. Não há razão nenhuma para brigarmos por isso.

— Joana...

— Estou cansada, Luiz. Só quero ir para casa. — Ela puxou o braço com firmeza, desvencilhando-se do toque dele, e contornou o corpo do marido para entrar no carro.

Luiz permaneceu imóvel, observando a figura frágil se afastar.

Durante aqueles sete dias de ausência, ela havia emagrecido de forma assustadora, a ponto de a camisa social parecer sobrar nos ombros estreitos. No passado, qualquer sinal de desatenção da parte dele, por menor que fosse, era motivo para que ela fizesse um escândalo com os olhos marejados, perguntando com a voz embargada se ele nunca havia se importado de verdade. Naquela época, ele achava que a esposa fazia tempestade em copo d’água, que era imatura e cansativa. No entanto, agora que ela não chorava, não reclamava e concordava com tudo o que ele dizia, um pânico silencioso começava a se instalar em seu peito.

O trajeto no carro transcorria em um silêncio absoluto. Enquanto o motorista conduzia o veículo com suavidade, Joana mantinha o rosto voltado para a janela, acompanhando o borrão das ruas iluminadas que ficavam para trás.

Antigamente, bastava entrarem no carro para que ela não conseguisse tirar os olhos dele, buscando qualquer brecha para puxar assunto. Mesmo quando recebia respostas monossilábicas, ela era capaz de tagarelar sozinha por horas. Agora, ela apenas existia ali, quieta no próprio canto, como se o homem ao seu lado fosse invisível.

A tensão no ar se tornou insuportável para Luiz.

— Você ainda está me punindo por causa daquele incidente, não é? — Perguntou ele, quebrando o silêncio.

Joana virou o rosto devagar. O olhar continuava a ser sereno e impenetrável.

— Não. Aquilo já passou.

— Então por que essa atitude...

— O que você quer de mim, Luiz? — Ela o interrompeu, a voz soando mansa, sem qualquer traço de ironia. — Quer que eu volte a sufocar você todos os dias? Ou prefere como estamos agora, sem brigas, sem cobranças, deixando você livre para fazer o que quiser?

A pergunta o pegou de surpresa. Estava claro que ele preferia a paz. Queria que ela parasse de criar caso toda vez que o assunto envolvia Alícia. Porém, ver a esposa agir exatamente como ele havia exigido parecia errado. Tudo nela parecia fora do lugar.

— Eu só sinto que você mudou. — Murmurou ele, desviando o rosto.

Joana voltou a encarar a janela.

"Mudei?", pensou ela, consigo mesma. "Talvez. Afinal, a gente nunca é a mesma pessoa quando ama e quando deixa de amar."

O silêncio reinou novamente na cabine, até que o toque estridente do celular de Luiz cortou o clima pesado. O nome de Alícia Queirós brilhou na tela. Ele atendeu de imediato, e a voz manhosa da mulher ecoou pelo alto-falante.

— Luiz, onde você está? Vim ao shopping e acabei comprando coisas demais, não consigo carregar tudo. Vem me buscar, por favor?

Por instinto, ele espiou a esposa pelo canto do olho. Joana continuava focada na paisagem noturna, como se estivesse surda para o mundo ao redor. Uma irritação súbita tomou conta dele.

— Alícia, você é uma mulher adulta. Pare de depender de mim para tudo. Nós não temos mais esse tipo de intimidade.

— Mas você me mimou a vida inteira, eu já me acostumei com isso! — Ela retrucou com a naturalidade de quem exige um direito adquirido. — Antigamente, você nunca me dizia não.

— Antigamente era diferente. — O tom dele endureceu. — Naquela época você era minha namorada. Hoje sou um homem casado.

Uma risada desdenhosa soou do outro lado da linha.

— Casado? E você acha mesmo que ela é a dona do seu coração? Pare de mentir para si mesmo, Luiz. Se você não vier agora, peço para outro homem me ajudar a carregar as sacolas. O que não falta é gente querendo me fazer favores.

Os dedos dele apertaram o aparelho com força. Alícia o conhecia bem demais e sabia exatamente qual botão apertar para ferir seu orgulho e despertar seu ciúme.

— Me espere aí. — Ele pronunciou as palavras entredentes, encerrando a chamada num rompante.

Respirando fundo para recuperar a postura, virou-se para a esposa.

— Joana, eu...

— Pego um táxi daqui. — Antes mesmo que ele terminasse a frase, ela já havia destravado a porta. — Pode ir buscar a sua amiga.

O movimento foi tão rápido e decidido que Luiz não teve tempo de raciocinar.

— Joana, espera! — Ele desceu atrás dela, segurando-a pelo braço no meio da calçada. — Não existe mais nada entre a Alícia e eu, eu juro. Mas nós crescemos juntos, nossas famílias são amigas de longa data. Não posso simplesmente cortar relações com ela do dia para a noite.

— Eu sei. — Ela assentiu com a cabeça. — Entendo perfeitamente.

Aquelas respostas curtas e programadas, desprovidas de qualquer emoção humana, o tiravam do sério. Ver a mulher que um dia o amou com tanta intensidade agir como se estivesse morta por dentro só alimentava a raiva incompreensível que queimava em seu peito. O celular voltou a tocar com insistência. Era Alícia, cobrando pressa.

— Vá para casa. Mais tarde eu... — Ele ia prometer que voltaria logo, mas Joana já havia acenado para um táxi que passava.

Ela entrou no veículo, bateu a porta e sequer olhou pelo vidro para se despedir. O carro amarelo arrancou, misturando-se ao trânsito noturno. Parado na calçada, acompanhando as luzes traseiras desaparecerem na distância, Luiz sentiu, pela primeira vez, que algo havia se quebrado de forma irremediável.

Enquanto isso, no banco de trás do táxi, o celular de Joana vibrou. Era uma ligação do departamento de Recursos Humanos da empresa onde trabalhava.

— Sra. Joana, a sua transferência internacional foi aprovada. — A voz do outro lado soava animada. — Meus parabéns! A vaga é para a sede na Europa, uma oportunidade de ouro. Mas e o seu marido, não vai se opor? Como a transferência não tem data de retorno, vocês vão acabar vivendo em países diferentes.

Observando o brilho dos letreiros luminosos refletidos no vidro, Joana respondeu com a voz suave, carregada de uma leveza inédita:

— Não tenho marido. No mesmo dia em que solicitei essa vaga, dei entrada no pedido de divórcio. Assim que a papelada sair, vou embora.

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