Capítulo 6
Ainda atordoado pela atitude da esposa, Luiz se deixou arrastar por Alícia até o centro da pista de dança.

Quando a melodia suave começou a tocar, ele pousou a mão na cintura da mulher, mas sua atenção estava a quilômetros dali. Seus olhos vagavam sem parar em direção ao canto do salão, onde Joana saboreava um pedaço de bolo com uma tranquilidade perturbadora. O olhar dela era tão distante e desinteressado que ela mais parecia uma penetra entediada na festa de um desconhecido.

A distração evidente de Luiz não passou despercebida por Alícia, que fechou a cara na mesma hora.

— Já que você está tão preocupado com a sua mulher, por que não vai fazer companhia para ela? Eu arrumo outro parceiro. — Ela disparou, soltando-se dos braços dele num rompante.

Sem olhar para trás, Alícia marchou em direção a um rapaz de terno branco encostado no bar. Era um antigo colega da época da faculdade que sempre havia arrastado asa para ela.

Ao ver a mulher se aproximar, o sujeito abriu um sorriso largo e estendeu a mão com galanteio. Alícia aceitou o convite de bom grado, e os dois deslizaram juntos para o meio da pista.

Plantado no meio do salão, Luiz assistia à cena com o maxilar travado. A cada risada solta e a cada sussurro trocado entre os dois, a expressão dele escurecia um pouco mais. Alícia parecia disposta a provocá-lo até o limite, colando seu corpo ao do colega a cada passo de dança. O ápice ocorreu quando ela se inclinou para cochichar algo no ouvido do rapaz, que soltou uma gargalhada e depositou um beijo demorado na bochecha dela.

O som de vidro estilhaçando cortou a tensão. Luiz havia apertado a própria taça de champanhe com tanta força que o cristal cedeu em sua mão. O sangue quente se misturou à bebida cara, escorrendo por entre seus dedos e pingando no chão de mármore, mas a fúria cega que o consumia não o deixava sentir dor alguma. Ignorando os olhares assustados dos convidados, ele avançou a passos duros, agarrou o pulso de Alícia com brutalidade e a arrancou do meio da pista.

— Luiz! O que deu em você? Me solta agora! — Ela se debatia, tentando se livrar do aperto de ferro.

Ele não disse uma única palavra. Com o rosto contorcido de raiva, arrastou a mulher para fora do salão principal, empurrando as portas de vidro até chegarem à sacada deserta e mal iluminada do hotel. Prensando-a contra o guarda-corpo gelado da varanda, Luiz por fim explodiu, a voz rouca transbordando indignação:

— Alícia, você perdeu o juízo? Não tem o menor senso de decência?

A acusação a pegou de surpresa por um segundo, mas logo o choque deu lugar à fúria. Ela puxou o braço com violência, esfregando o pulso marcado.

— Eu não tenho decência? Escuta aqui, sou solteira e ele também. Nós somos dois adultos desimpedidos, qual é o problema? E outra coisa, quem você pensa que é para me dar lição de moral? Com que direito você quer controlar a minha vida? Como meu ex-namorado do passado ou como o marido de outra mulher?

— Você... — A provocação certeira atingiu Luiz em cheio, fazendo seus olhos arderem de raiva.

Naquele exato momento, o último fio de sanidade que o prendia arrebentou. Encarando o rosto da mulher que havia amado com tanta intensidade por tantos anos, uma tempestade de possessividade, frustração e desejos confusos engoliu todas as suas barreiras.

Num impulso irracional, ele agarrou o rosto de Alícia e esmagou seus lábios contra os dela. Não havia nenhum traço de carinho ou romance naquele beijo. Era um ataque carregado de punição e dominação, feroz e desesperado.

Alícia enrijeceu o corpo no primeiro instante, mas um brilho de triunfo logo cruzou seu olhar. Em vez de empurrá-lo, ela deslizou as mãos pelos ombros dele, enlaçou seu pescoço e correspondeu à agressividade do beijo com a mesma paixão.

As portas de vidro da sacada eram foscas, impedindo que os convidados lá dentro vissem a cena comprometedora. No entanto, através de uma pequena fresta entre as folhas de vidro, Joana assistia a tudo de seu canto isolado.

Ela observou o marido devorar a boca da outra, viu as mãos de Alícia embrenhadas no cabelo dele e testemunhou a entrega daquele beijo interminável. Para sua própria surpresa, seu coração não doeu. A única coisa que pulsava em suas veias era uma sensação entorpecente de que toda aquela situação era uma piada de mau gosto.

O beijo se arrastou até que o fôlego de ambos chegasse ao fim. Quando Luiz recuou, foi como se tivesse acordado de um transe profundo. Ao ver os lábios inchados e o olhar nebuloso de Alícia, um sobressalto violento sacudiu seu peito, seguido por uma avalanche de pânico e nojo de si mesmo.

— Me desculpa. — Ele virou o rosto para o lado, a voz falhando em uma tentativa patética de fuga. — Eu... Eu bebi demais. Acabei confundindo você com a Joana.

Era uma desculpa esfarrapada que Alícia jamais engoliria. Ela deu um passo à frente e abraçou a cintura dele com força, erguendo o rosto banhado em lágrimas teatrais e adotando um tom de súplica:

— Você nunca teve espaço para a Joana no seu coração, como poderia ter me confundido com ela? Para de mentir para si mesmo! Você ainda me ama, Luiz, você nunca conseguiu me esquecer! Por favor, vamos parar de nos torturar desse jeito. Pede o divórcio para a Joana e volta para mim. Eu juro por tudo que é mais sagrado que mudei, não vou mais ser aquela garota mimada de antes. Eu vou te amar de verdade e ser a esposa perfeita que você merece. O que me diz?

Divórcio? Voltar?

Aquelas palavras estouraram na mente de Luiz como bombas. Ele recuou num solavanco, como se a pele dela estivesse em chamas, e a empurrou para longe.

— Que loucura é essa que você está falando? — Ele esbravejou, os olhos arregalados. — Eu jamais vou me divorciar da Joana!

— E por que não? Só porque aquela mulher passou os últimos cinco anos correndo atrás de você como um cachorrinho sem dono?! — Alícia gritou, a voz esganiçada ecoando na noite. — Até quando você vai fugir do que sente, Luiz? Se você não me ama mais, se não se importa nem um pouco comigo, então é melhor eu acabar com a minha vida de uma vez por todas!

Em um movimento dramático, ela deu as costas para ele e correu em direção à beirada da sacada, ameaçando se jogar no vazio.

— Alícia! Você perdeu a cabeça? — Gritou Luiz, o sangue sumindo do rosto.

Ele disparou na direção dela para impedi-la de cometer uma loucura.

Foi naquele exato instante que um rangido metálico e sinistro soou acima deles. O imenso lustre de cristal que decorava o teto da varanda cedeu sob o próprio peso e despencou em queda livre, mirando bem o ponto onde Alícia estava parada.

— Cuidado! — Luiz berrou a plenos pulmões.

Sem pensar duas vezes, ele se atirou sobre a mulher, usando o próprio corpo como escudo para envolvê-la, e rolou com ela pelo chão de cimento.

O estrondo foi ensurdecedor. A pesada estrutura de ferro e cristal se espatifou no chão, lançando estilhaços cortantes para todos os lados. Pedaços afiados de vidro rasgaram as costas de Luiz, e o sangue começou a jorrar, manchando o tecido claro de seu paletó de grife.

— Luiz! Meu Deus, você está sangrando! — Alícia berrava, o rosto pálido de pavor enquanto se agarrava a ele em meio aos destroços.

O barulho assustador atraiu a atenção de todos no salão. Os convidados correram para a sacada, e o pânico tomou conta do ambiente. Pessoas gritavam por socorro, funcionários do hotel tentavam afastar os curiosos e alguém ao fundo berrava para que chamassem uma ambulância.

Afastada da confusão, Joana observava a cena da periferia da multidão. Seu coração não acelerou, e nenhuma lágrima ameaçou cair. A única coisa que sentia era o cansaço de assistir àquela peça de teatro patética e repetitiva. Ela não correu para socorrê-lo, não perguntou se ele estava bem, nem sequer perdeu mais um segundo admirando o estrago.

Enquanto o som estridente das sirenes da ambulância começava a cortar a noite ao longe, Joana deu as costas para o caos e caminhou em direção à saída, desaparecendo na escuridão sem olhar para trás.

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