Capítulo 5
Nos dias que se seguiram, Joana permaneceu internada, dedicando-se apenas à própria recuperação em um silêncio quase absoluto.

Luiz apareceu no hospital algumas vezes, sempre carregado de arranjos de flores extravagantes e suplementos caríssimos, mas suas visitas eram curtas e quase sempre interrompidas pelo toque insistente do celular. Joana não reclamava, não exigia atenção e concordava com qualquer coisa que ele dissesse. Aquela apatia constante deixava Luiz com uma sensação frustrante de impotência, como se estivesse dando socos no vazio.

No dia da alta médica, Luiz fez questão de acompanhá-la. Ele havia providenciado flores e velas, e os dois seguiram de carro rumo ao cemitério afastado do centro da cidade. Enquanto observava a paisagem familiar passar pela janela, uma onda de ironia amarga invadiu o peito de Joana.

Em cinco anos de casamento, aquela era a primeira vez que Luiz se dignava a visitar o túmulo da sogra como genro.

O cemitério estava imerso em uma calmaria fúnebre, quebrada apenas pelo farfalhar das folhas dos ciprestes balançando ao vento. Parado diante da lápide de mármore, Luiz encarou a fotografia da mulher cujos traços lembravam tanto os de Joana e permaneceu em um silêncio contemplativo por longos minutos.

— Mãe... — Ele quebrou a quietude, a voz soando áspera e carregada de uma culpa tardia. — Me perdoe por ter demorado tantos anos para vir vê-la.

Ele respirou fundo, parecendo buscar as palavras certas antes de continuar:

— Prometo que vou cuidar muito bem da Joana daqui para frente. A senhora pode descansar em paz. Não vou deixar que ela sofra mais nenhuma decepção.

Joana mantinha os olhos fixos no sorriso gentil da mãe gravado na porcelana, a expressão tomada por um vazio absoluto.

"A senhora ouviu isso, mãe? O homem que amei com todas as minhas forças durante dez anos acabou de dizer que vai cuidar de mim. Mas essas palavras chegaram tarde demais. Tão tarde que eu já não preciso mais delas.", murmurou Joana para si mesma.

Após deixarem o cemitério, Luiz a conduziu até um bistrô francês muito exclusivo no coração da cidade. Era um lugar com lista de espera de meses, um restaurante que Joana havia sugerido dezenas de vezes no passado, recebendo sempre a mesma desculpa de que ele estava ocupado demais.

Naquela noite, no entanto, Luiz havia reservado o salão inteiro apenas para os dois, preparando um jantar à luz de velas digno de cinema.

— Me lembrei de que você sempre quis conhecer este lugar. — Ele puxou a cadeira para que ela se sentasse, exibindo um sorriso contido. — Vamos ver se a comida é tão boa quanto dizem.

Joana se acomodou e correu os olhos pela mesa repleta de pratos sofisticados e taças de cristal, mas seu coração permaneceu tão inerte quanto uma pedra. O jantar mal havia chegado à metade quando o celular de Luiz tocou, quebrando o clima que ele tanto tentava construir.

Era Alícia, de novo.

O tom de voz dela estava tão alto e carregado de indignação que Joana conseguiu ouvir cada palavra do outro lado da mesa:

— Luiz! Você passou os últimos dias organizando uma festa de aniversário gigantesca para mim e agora decide não aparecer? Como você tem coragem de fazer isso comigo?

Um vinco de preocupação se formou na testa de Luiz. Ele lançou um olhar cauteloso na direção da esposa, mas Joana continuava cortando seu filé com uma elegância metódica, a expressão tão plácida como se estivesse surda para o mundo ao redor.

— Eu tive um imprevisto importante. — Ele murmurou ao telefone, tentando abafar a voz.

— Que imprevisto poderia ser mais importante do que o meu aniversário? — Alícia rebateu, beirando a histeria. — Você precisa vir para cá agora mesmo, ou eu juro que cancelo essa festa inteira!

Pressionado pela chantagem emocional, Luiz encerrou a chamada com um suspiro derrotado. Ele abriu a boca para formular uma desculpa, mas Joana foi mais rápida. Pousou os talheres sobre o prato de porcelana e limpou os lábios com o guardanapo.

— Pode ir. — Ela sentenciou, sem um pingo de hesitação. — Eu já terminei de comer mesmo.

— Joana, escuta... A Alícia voltou para o país há pouco tempo e queria reunir o nosso antigo grupo de amigos. Como ela não entende nada de organização de eventos, eu só dei uma força com os preparativos. — Ele tentou justificar a própria ausência, soando quase desesperado por aprovação. — Não existe nenhuma segunda intenção nisso, eu juro.

— Eu sei. — Ela concordou com um aceno leve de cabeça. — Entendo.

Aí estava. Aquela mesma frase vazia de novo. A compreensão apática de Joana fez o sangue de Luiz ferver de uma irritação inexplicável.

— Eu vou levar você comigo. — Ele disparou de supetão, tomando uma decisão impulsiva. — O salão de festas fica aqui perto. Damos uma passada rápida, cumprimentamos o pessoal e vamos embora. Vai ser bom para você se distrair um pouco.

Joana abriu a boca para recusar a oferta absurda, mas Luiz já estava de pé, ajeitando o paletó com uma postura que não admitia recusas.

— Vamos.

A comemoração acontecia no salão principal de um dos hotéis mais luxuosos da cidade. Quando o casal cruzou as portas duplas, o ambiente já fervilhava de convidados. No centro das atenções, vestindo um longo vestido vermelho que a fazia parecer uma estrela em busca de atenção, estava Alícia. Assim que seus olhos encontraram a figura de Luiz, o rosto dela se iluminou. Sem pensar duas vezes, ela ergueu a barra da saia e correu na direção dele.

— Luiz! Até que enfim você chegou! — Ela exclamou, entrelaçando o braço no dele com intimidade e ignorando a presença de Joana como se a esposa fosse invisível.

— Alícia, por favor... — Luiz franziu a testa, tentando se desvencilhar do aperto sem causar uma cena.

— Ah, Luiz, vem dançar a primeira música comigo! — Ela fez um bico manhoso, apertando-se ainda mais contra o corpo dele. — Faz tanto tempo que a gente não dança junto.

Incomodado, Luiz desviou o olhar para Joana, buscando alguma reação. No entanto, a esposa parecia muito mais interessada em analisar os quadros pendurados nas paredes do salão do que no drama à sua frente.

— Joana... — Ele chamou, a voz carregada de incerteza.

— Pode ir dançar. — Ela respondeu de pronto, sem sequer encará-lo. — Vou ali no buffet pegar uma bebida.

Dito isso, ela virou as costas e caminhou a passos tranquilos em direção às mesas de aperitivos.

Luiz ficou paralisado no lugar, processando a cena. Houve um tempo em que a simples menção do nome de Alícia era o suficiente para deixar os olhos de Joana marejados de ciúmes e dor. Mas agora? Agora ela o estava entregando de bandeja para a outra mulher, sem derramar uma única lágrima.

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