A fumaça densa e escura tomava conta do quarto, invadindo os pulmões de Joana a cada respiração desesperada e fazendo com que sua consciência começasse a falhar. Reunindo o resto de suas forças, ela cerrou os dentes, apoiou-se na parede escaldante e cambaleou em direção à saída.
No entanto, o caminho estava bloqueado. Uma das vigas de sustentação do teto havia cedido, desabando em chamas bem na frente da porta e cortando qualquer chance de fuga por ali.
O desespero tomou conta dela ao encarar a madeira em brasa. Sem outra alternativa, Joana deu meia-volta e correu em direção à janela. Ao escancará-la, uma lufada de vento frio e cortante atingiu seu rosto, trazendo um breve momento de lucidez em meio ao caos sufocante. Ela olhou para baixo, buscando uma saída, mas a cena que se desenrolou no jardim a paralisou. Luiz havia acabado de cruzar o gramado com o cachorro nos braços, e Alícia não perdeu tempo em se jogar no peito dele.
— Luiz! Que susto você me deu! — Alícia soluçava, o rosto banhado em lágrimas teatrais enquanto se agarrava à camisa do homem. — Achei que o Totó fosse morrer lá dentro... Nós criamos esse cachorro há tantos anos, ele é a maior testemunha do nosso amor!
O corpo de Luiz enrijeceu por um instante. Ele fez um movimento sutil, como se fosse afastá-la, mas, ao ver o pranto desesperado da mulher, acabou cedendo. Levantou a mão devagar e acariciou as costas dela, murmurando palavras de conforto:
— Calma, não chora mais. Já passou. O cachorro está a salvo e você também.
Assistir àquela cena de cima foi como sentir uma mão de gelo esmagar seu coração com violência, apenas para soltá-lo logo em seguida, deixando para trás um vazio imenso, dormente e sem fim. Naquele exato momento, ela compreendeu que não podia mais contar com ninguém além de si mesma.
Com uma calma assustadora, Joana subiu no parapeito da janela. Puxou o ar frio para os pulmões uma última vez, fechou os olhos e se jogou na escuridão.
O tempo de queda pareceu durar apenas uma fração de segundo, rápido demais para que o medo a alcançasse, até que o impacto brutal contra o chão esmagou seu corpo. Uma dor lancinante e indescritível irradiou por cada osso, enquanto ela jazia imóvel na grama. Aos poucos, sentiu o calor do próprio sangue se espalhar sob suas costas.
— Meu Deus! A Sra. Costa! Ela pulou da janela! — O grito agudo e aterrorizado de uma das funcionárias rasgou o silêncio da noite.
Luiz virou a cabeça num solavanco e seus olhos encontraram o corpo de Joana estirado em uma poça de sangue.
— Joana!!! — O grito que escapou da garganta dele carregava uma mistura de choque, descrença e um pânico absoluto que ela nunca tinha visto antes.
Ela o encarou de volta, a visão turva. Tentou mover os lábios para dizer algo, mas a única coisa que conseguiu foi tossir uma lufada de sangue escuro antes que a escuridão a engolisse por completo.
Quando Joana recuperou os sentidos, o cheiro forte e característico de antisséptico hospitalar invadiu suas narinas. Ela abriu os olhos com dificuldade, deparando-se com o teto branco e impessoal do quarto. Ao tentar se mover, um gemido escapou de seus lábios. O corpo inteiro doía como se tivesse sido atropelado, mas a dor nas pernas era a pior de todas, uma agonia aguda e perfurante.
— Joana! — A voz de Luiz soou próxima, carregada de urgência.
Ela virou o rosto devagar e o viu sentado ao lado da cama. Ele parecia ter envelhecido anos em poucas horas. Os olhos estavam injetados de sangue, o rosto abatido e a barba por fazer lhe davam um ar de profundo esgotamento. Ele segurou a mão dela com força, a voz trêmula traindo o nervosismo:
— Você acordou... Como está se sentindo? Tem alguma dor muito forte?
Em vez de responder, Joana fez um movimento lento, porém carregado de uma firmeza inabalável, e puxou a própria mão, livrando-se do toque dele.
A mão de Luiz ficou suspensa no ar, e a expressão dele vacilou. Ele deduziu, de imediato, que a frieza dela era ressentimento pelo incêndio, uma mágoa por ele não tê-la salvado primeiro.
— Joana... — Ele tentou se justificar, baixando o tom de voz para soar mais suave. — Quando eu entrei no andar, não vi você em lugar nenhum. Achei que já tivesse conseguido sair da casa, por isso peguei o Totó. Ele não é só um cachorro qualquer, ele é...
"Ele é o quê? O símbolo do amor de vocês? A testemunha das memórias lindas que construíram juntos?", Joana pensou, com o olhar vazio.
— Se você estava no quarto, por que não gritou por mim? — Luiz questionou, parecendo confuso.
Por que ela não gritou?
Joana finalmente ergueu os olhos e sustentou o olhar do marido. As íris escuras e profundas não carregavam um pingo de raiva, ressentimento ou expectativa. Havia apenas uma calmaria assustadora, um poço sem fundo de indiferença.
— Porque eu já não espero mais nada de você. — Respondeu ela, a voz soando como um sussurro fantasmagórico.
As palavras o atingiram como um soco no estômago. O corpo de Luiz estremeceu, e suas pupilas dilataram em choque, encarando a esposa como se não a reconhecesse.
— Como assim não espera mais nada? — A própria voz soou seca e arranhada aos seus ouvidos.
Um vazio repentino se abriu em seu peito, como se o comentário dela tivesse escancarado uma porta para um vento gelado e desconhecido entrar.
Joana o observava com a mesma apatia de quem olha para um estranho na rua.
— Exatamente o que eu disse. Não espero que você me salve, não espero que você me escolha, e muito menos espero que você me ame.
Luiz abriu a boca para retrucar, o coração batendo descompassado, mas o toque estridente do celular o interrompeu. Era Alícia.
Ele caminhou até a janela, dando as costas para a cama, e atendeu. Joana não conseguia distinguir as palavras do outro lado da linha, mas observava a tensão nos ombros dele. A princípio, o tom de Luiz era de impaciência, mas logo a resistência deu lugar a um suspiro contido, e ele murmurou: — Tudo bem, já entendi.
Ao desligar, ele voltou para perto da cama com uma expressão contrariada. Encarou Joana por alguns segundos, parecendo lutar com as próprias palavras.
— Pode ir. — Joana se adiantou, mantendo a mesma tranquilidade sufocante de antes. — Eu não preciso de companhia aqui.
Luiz sentiu um nó se formar na garganta, como se um pedaço de algodão molhado bloqueasse sua respiração.
— A Alícia está com um problema e precisa de ajuda. Eu vou lá resolver e volto o mais rápido que puder. — Ele fez uma pausa, engolindo em seco antes de acrescentar. — Sei que você está magoada com o que aconteceu e por isso está falando essas coisas. Fique tranquila, uma situação dessas nunca mais vai se repetir. Daqui a alguns dias é o aniversário de morte da sua mãe. Eu faço questão de ir ao cemitério com você.
Os cílios de Joana, que até então repousavam baixos, tremeram de leve. Uma risada curta e sem humor escapou de seus lábios.
— O aniversário de morte da minha mãe cai no mesmo dia do aniversário da Alícia. — Ela inclinou a cabeça, com o olhar cortante. — Você não vai preferir passar o dia comemorando com ela?
Luiz foi pego de surpresa. A menção repentina àquela coincidência fez com que sua postura ficasse rígida. Ele ficou em silêncio por longos segundos, desviando o olhar para o chão antes de responder, a voz soando mais dura do que pretendia:
— O que o aniversário dela tem a ver comigo?
Joana sorriu de novo, um sorriso carregado de ironia e cansaço.
Como não teria a ver?
Nos cinco anos em que estiveram casados, Luiz sempre teve um "imprevisto" naquela data. No primeiro ano, foi uma viagem de negócios de última hora. No segundo, uma conferência inadiável. No terceiro, um cliente importante. Foi só mais tarde que ela descobriu a verdade quando percebeu que a data de falecimento de sua mãe coincidia com o aniversário da outra.
Todos os anos, Luiz enfrentava mais de dez horas de voo internacional apenas para ficar parado na porta da casa de Alícia durante a madrugada, deixar um presente na soleira e ir embora. Agora que a mulher estava de volta ao país, em carne e osso, ele finalmente teria a chance de demonstrar todo esse amor cara a cara.
— Ah, é mesmo? — Joana murmurou, sem vontade de prolongar o assunto.
Ela fechou os olhos e virou o rosto para o lado, assumindo uma postura de quem estava exausta demais para continuar aquela farsa.
A atitude impenetrável da esposa fez o sangue de Luiz ferver de frustração, mas ele não tinha como extravasar a raiva. Olhando para o rosto pálido e os olhos fechados de Joana, a frase "Não existe mais nada entre mim e a Alícia, não entenda errado" dançou na ponta de sua língua. No fim, ele engoliu o orgulho e soltou apenas um suspiro pesado.
— Descanse. Venho te ver mais tarde.
Sem esperar resposta, ele deu as costas e saiu do quarto a passos largos, deixando para trás apenas o silêncio do hospital.