Luiz continuava internado, mas Joana não fez a menor questão de visitá-lo. Ela preferiu o refúgio da própria casa, ocupando os dias com a leitura de seus livros, sessões solitárias de cinema na sala e a organização metódica de suas malas.
A quietude só foi rompida em uma noite de tempestade, quando o telefone tocou de supetão. Era o mordomo da casa, com a voz carregada de aflição.
— Sra. Costa, a senhora poderia vir até o hospital dar uma olhada no Sr. Luiz? — O funcionário implorava do outro lado da linha. — A crise de estômago dele atacou de novo e a dor está insuportável. Os remédios que o médico receitou não estão fazendo efeito nenhum. Ele está suando frio e não deixa nenhuma enfermeira chegar perto. A senhora sabe que, nessas horas, só as suas massagens conseguem acalmá-lo... Nós não sabemos mais o que fazer.
Joana caminhou até a janela e observou a cidade engolida pela cortina de chuva. As gotas grossas açoitavam o vidro com violência, como se o céu quisesse afogar o mundo lá fora. Ela ouviu o apelo desesperado do mordomo até o fim, sem alterar a expressão.
— A tempestade está muito forte. Eu não vou sair de casa. — Ela respondeu, o tom de voz beirando a indiferença.
Um silêncio pesado tomou conta da ligação. O funcionário pareceu perder a fala por alguns segundos, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir.
— Sra. Costa... A senhora disse o quê? — Ele gaguejou, confuso.
— Eu disse que a chuva está forte demais e não pretendo sair. Não vou ir ao hospital esta noite.
— Mas o Sr. Luiz está...
— Eu já vou dormir. — Joana cortou a frase dele sem cerimônia. — Boa noite.
Ela encerrou a chamada, desligou o aparelho e se deitou na cama, blindando a própria mente contra qualquer perturbação externa.
No dia seguinte, Luiz recebeu alta antes do previsto e retornou à mansão. O rosto dele ainda exibia uma palidez doentia. Ao avistar Joana sentada no sofá da sala, concentrada em um livro, ele hesitou por um instante antes de caminhar até ela e parar bem à sua frente.
— Ontem à noite... — Ele começou, a voz soando rouca e o olhar fixo nela. — O mordomo ligou para você?
— Ligou. — Joana virou a página do livro, sem sequer erguer os olhos.
— E por que você não foi? — Luiz questionou, lutando para conter a frustração que borbulhava em seu peito. — No passado, não importava se estivesse caindo o mundo lá fora. Bastava eu reclamar de um incômodo qualquer para você largar tudo e correr para o meu lado.
O movimento das mãos de Joana cessou. Ela finalmente ergueu o rosto e o encarou com uma serenidade implacável.
— Você mesmo disse que isso era no passado. — A voz dela soou baixa, mas atingiu o peito de Luiz com o peso de uma bigorna. — As pessoas mudam, Luiz.
Ele abriu a boca para rebater, mas as palavras morreram na garganta.
Era verdade. As pessoas mudavam, e Joana havia mudado. O problema é que ele não fazia ideia do motivo, nem de quando aquela transformação havia começado. Aquela constatação o encheu de um pavor inédito, um vazio que o desestabilizou por inteiro. Na cabeça dele, a esposa estava apenas fazendo birra, punindo-o com um castigo de silêncio por ele ter se machucado para salvar Alícia.
— Nosso aniversário de casamento é daqui a alguns dias. — Ele tentou suavizar o clima, buscando uma forma de provar que ainda tinha o controle da situação. — Você sempre comentou que queria uma comemoração especial, não é? Este ano, decidi organizar uma festa de gala. Vamos convidar todos os nossos conhecidos e celebrar de verdade. O que acha?
Ele a observou com expectativa, aguardando um sorriso ou um brilho no olhar.
Joana, no entanto, apenas deu de ombros.
— Tanto faz.
Aquela resposta evasiva fez a irritação de Luiz acender de novo. Ainda assim, ele seguiu em frente com os preparativos. Fez questão de reservar o salão do hotel mais luxuoso da cidade, contratou a melhor equipe de eventos, encomendou um vestido de alta-costura exclusivo para a esposa e arrematou um conjunto de joias caríssimo.
Na noite da festa, Joana vestia a peça escolhida por ele e ostentava os diamantes milionários no pescoço, caminhando de braços dados com o marido pelo salão. Os olhares de inveja e admiração a seguiam por toda parte.
— A esposa do Luiz tem muita sorte.
— Ele a trata como uma verdadeira rainha.
— Fiquei sabendo que aquele colar foi comprado em um leilão por uma fortuna.
Joana ouvia os sussurros e mantinha um sorriso polido no rosto, mas seu coração continuava um deserto árido. No meio da noite, sentindo-se sufocada por tanta falsidade, ela escapou para a varanda em busca de ar fresco. Mal havia se encostado no parapeito quando o som de passos finos ecoou atrás dela.
Era Alícia.
— O que você está fazendo aqui? — Joana se virou para encará-la.
— O Luiz me convidou. — Alícia parou ao lado dela, apoiando-se na grade com um ar de superioridade. — Ele disse que hoje era o aniversário de casamento de vocês e fez questão de que eu viesse testemunhar essa "felicidade".
Ela soltou uma risada carregada de deboche e provocou:
— E então, Joana? Você está feliz?
Joana permaneceu em silêncio. Alícia inclinou o corpo na direção dela, o tom de voz destilando veneno.
— Eu sei que você é infeliz. O coração do Luiz sempre pertenceu a mim, e você não passa de uma substituta patética! Ontem mesmo, ele brigou com você por minha causa...
— Alícia! — Joana a interrompeu, a voz soando assustadoramente fria. — Você tem noção do quanto é exaustiva? Você age como uma criança mimada fazendo birra porque não ganhou o doce que queria. O que acontece entre o Luiz e eu diz respeito apenas ao nosso casamento. Quanto a você... Você é só uma mulher frustrada, presa ao passado, que precisa provocar os outros para sentir que existe. Alguém tão digna de pena não merece um pingo da minha energia.