Capítulo 8
— Sua desgraçada! — Gritou Alícia, o rosto se contorcendo de ódio.

O desprezo e a pena escancarados nos olhos de Joana foram o estopim para que ela perdesse o resto de razão que lhe sobrava. Com o olhar fixo no guarda-corpo baixo da varanda, uma faísca de pura maldade cruzou a mente de Alícia.

— Vai para o inferno! — Ela gritou, avançando com as duas mãos e empurrando Joana com toda a força que conseguiu reunir.

Pega de surpresa, Joana perdeu o equilíbrio no mesmo instante, o corpo tombando para trás em direção ao vazio. Em uma fração de segundo, o instinto de sobrevivência falou mais alto. Ela esticou o braço num movimento desesperado e, por um milagre, seus dedos se fecharam como garras ao redor do pulso de Alícia.

— Ah! — O grito de pavor escapou da garganta das duas ao mesmo tempo.

Metade do corpo de Joana já pendia para fora da sacada, sustentado apenas pelo aperto de ferro no braço da rival. O solavanco puxou Alícia para a beirada, fazendo-a despencar sobre o parapeito. Aterrorizada com a possibilidade de cair junto, ela cravou a mão livre na grade de metal, chorando em desespero.

— Socorro! Luiz! Pelo amor de Deus, me ajuda! — Alícia berrava a plenos pulmões.

O escândalo atraiu a atenção dos convidados, e uma multidão correu em direção à varanda. Luiz foi o primeiro a chegar. Ao se deparar com a cena aterrorizante, o sangue sumiu de seu rosto.

— Luiz! Me tira daqui! Eu vou cair! — Alícia soluçava, estendendo a mão trêmula na direção do homem.

Os olhos de Luiz dispararam de Alícia, que chorava em pânico, para Joana, que se mantinha pendurada em um silêncio obstinado, os dentes trincados pelo esforço. Em uma fração de segundo que pareceu durar uma eternidade, ele tomou sua decisão. Sem hesitar, Luiz avançou e agarrou a mão estendida de Alícia.

— Joana, aguenta firme! — Ele gritou, a voz tremendo de pavor enquanto puxava a outra mulher para a segurança. — Eu vou tirar a Alícia daqui e já volto para puxar você!

Joana olhou para o rosto do marido e, de repente, sorriu.

Foi um sorriso leve, desprovido de raiva ou de dor. Então, ela abriu a mão.

O vento zumbiu em seus ouvidos enquanto o corpo despencava na escuridão. O impacto contra a água gelada da piscina no andar inferior foi violento. A água a engoliu por completo, e Joana fechou os olhos, deixando a escuridão tomar conta de seus sentidos.

Quando despertou, estava deitada na cama de seu próprio quarto. Alguém a havia vestido com um pijama seco e feito curativos em seus arranhões. O ambiente estava imerso em silêncio. Ela tateou a mesa de cabeceira, pegou o celular e encontrou uma mensagem de Luiz na tela:

[Joana, a Alícia ficou em estado de choque e eu precisei trazê-la ao hospital. Descanse. Quando eu voltar, explico tudo e prometo que vou compensar você por isso.]

Compensar. Sempre a mesma palavra vazia.

Joana encarou a tela, achando graça daquela promessa ridícula.

— Quando a gente ama alguém de verdade, não existe a necessidade de 'compensar' nada. Luiz, eu não sinto mais nada por você. Suas reparações não me servem de mais nada. A única coisa que eu quero agora é cortar o último laço que nos une e sumir daqui. — Disse ela, para si mesma.

O aparelho vibrou em sua mão com uma nova notificação. Era um SMS do Cartório de Registro Civil: [Prezada Sra. Joana Xavier, informamos que a averbação do seu divórcio com o Sr. Luiz Costa foi concluída com sucesso. A certidão estará disponível para retirada em até três dias úteis.]

O divórcio havia saído.

Joana segurou o telefone com firmeza, os olhos fixos naquelas palavras por um longo tempo. Em seguida, soltou a respiração de uma só vez, um suspiro longo e trêmulo. Aquele ar expulso de seus pulmões carregava toda a humilhação, a dor e a angústia sufocadas ao longo de cinco anos de casamento.

Ela afastou as cobertas, levantou-se e foi terminar de arrumar a bagagem. Na verdade, quase tudo já estava pronto. Bastou guardar as últimas peças de roupa na mala e fechar o zíper. Com o celular em mãos, comprou uma passagem só de ida para a Europa. O voo decolaria às três da tarde.

Ao descer as escadas arrastando a mala de rodinhas, ela encontrou o mordomo no saguão. O homem arregalou os olhos, chocado.

— Sra. Costa, o que significa isso? A senhora vai viajar?

— Eu estou indo embora. — Ela respondeu com um sorriso sereno. — Obrigada por ter cuidado de mim durante todos esses anos.

— Como assim? Mas e o Sr. Luiz...

— Nós estamos divorciados. — Ela o interrompeu com suavidade. — A partir de hoje, eu não sou mais a esposa dele.

Joana cruzou a porta da frente, entrou no táxi que já a aguardava e seguiu direto para o cartório. Quando o tabelião lhe entregou a certidão de divórcio, ela correu os olhos pelo papel timbrado. Era o fim oficial de uma era. Um alívio imenso lavou sua alma.

No aeroporto, após despachar a bagagem, ela se sentou na sala de embarque. O celular começou a tocar. Era Luiz.

Ela ignorou a chamada. Ele insistiu, ligando uma, duas, três vezes seguidas. Sem pressa, Joana desligou o aparelho e o guardou na bolsa.

A voz da comissária ecoou pelos alto-falantes, anunciando o início do embarque. Joana se levantou, ajeitou a bolsa no ombro e caminhou em direção ao portão. Minutos depois, com o avião ganhando altitude, ela encostou a cabeça na janela e observou a cidade encolher até virar um borrão distante. Seu coração batia em um ritmo tranquilo, livre de qualquer peso.

Adeus, Luiz. Adeus, passado.

A partir daquele momento, Joana pertencia apenas a si mesma.

O avião rasgou as nuvens, voando alto em direção a um céu infinito. Em direção à sua nova vida.

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