Joana chegou em casa sozinha.
A mansão era imensa, vazia e opressivamente fria. Ela trocou os sapatos na entrada, subiu as escadas em passos lentos e começou a organizar as malas. Na verdade, já vinha empacotando suas coisas aos poucos nas últimas semanas. Agora, restavam apenas os detalhes finais.
Abriu o closet e tirou, uma a uma, todas as roupas que imitavam o estilo de Alícia. Dobrou-as com cuidado e as guardou no fundo de uma caixa. Eram peças que ela jamais voltaria a vestir.
O som da porta da frente se abrindo ecoou pelo andar de baixo. Luiz havia chegado, mas não estava sozinho. Parada no pé da escada, Alícia abriu um sorriso doce e fingido ao ver Joana no topo dos degraus.
— Joana, quanto tempo!
Joana manteve o silêncio, com o rosto impassível.
— A Alícia disse que queria ver o Totó. — Luiz se apressou em explicar, o tom de voz traindo um leve desconforto. — Ela sentiu saudade do cachorro.
Totó era um Samoieda que Luiz e Alícia haviam adotado quando ainda estavam juntos. Quando a mulher foi para o exterior, o animal ficou para trás. Desde que Joana havia se casado e mudado para a mansão, era ela quem cuidava dele com todo o carinho.
— Fiquem à vontade. — Joana respondeu com indiferença, virando-se para voltar ao quarto.
— Totó! Vem cá, garoto! — Alícia já estava agachada, batendo palmas para chamar o animal.
O cachorro branco e peludo saiu correndo de um canto da sala e, ao reconhecer a antiga dona, pulou em cima dela, abanando o rabo como um helicóptero.
— Ai, meu Deus, ele ainda lembra de mim! — Alícia abraçou o cachorro, os olhos brilhando de malícia enquanto lançava um olhar na direção da escada. — Pelo visto, mesmo sendo alimentado por outra mulher todos esses anos, ele sabe muito bem quem é a verdadeira mãe dele.
A provocação era clara como água. Joana parou no meio do caminho, mas não se virou.
Luiz franziu a testa, incomodado com a alfinetada.
— Alícia, quando você foi embora sem olhar para trás, não quis saber dele. Você perdeu o direito de se chamar de mãe desse cachorro há muito tempo. Já matou a saudade, agora pode ir embora.
Alícia fez um bico infantil e disse:
— Mas já está escuro e começou a chover. É perigoso eu voltar sozinha a essa hora. Não posso dormir aqui só por hoje?
A primeira reação de Luiz foi negar. No entanto, um trovão retumbou do lado de fora, confirmando que a tempestade estava piorando. Por instinto, ele olhou para Joana, preparando-se para convencê-la.
No passado, qualquer visita de Alícia era motivo para brigas homéricas, e ele sempre precisava gastar muita saliva para acalmar a esposa. Mas, para sua surpresa, Joana se adiantou antes mesmo que ele abrisse a boca.
— O quarto de hóspedes fica no final do corredor, no térreo. Os lençóis e as toalhas estão limpos. — A voz dela soou monótona, desprovida de qualquer emoção. — Se quiser passar a noite, fique à vontade.
Dito isso, ela retomou o caminho e sumiu no corredor do andar de cima.
Luiz ficou estático. Alícia também piscou, confusa por um instante, mas logo abriu um sorriso vitorioso e agarrou o braço do homem.
— Viu só, Luiz? Até a sua esposa concordou.
Encarando a porta fechada no andar de cima, Luiz sentiu aquele mesmo incômodo esquisito revirar seu estômago. Ele puxou o braço com brusquidão, desvencilhando-se do toque da amiga.
— Comporte-se. — Advertiu ele.
O celular dele tocou na mesma hora. Era uma ligação do trabalho.
— Fique aí e não arrume confusão. — Ordenou, antes de se trancar no escritório.
Assim que ficou sozinha na sala, o sorriso doce de Alícia derreteu, dando lugar a uma expressão sombria. Ela subiu as escadas sem fazer barulho, parou diante da porta de Joana e bateu. Quando a porta se abriu, Alícia se encostou no batente, medindo a rival com desprezo.
— Para que esse teatrinho de esposa compreensiva? Você acha que bancar a boazinha vai fazer o Luiz te valorizar? Não seja patética, Joana. Eu vim aqui hoje só para te mostrar o tamanho do seu fracasso. Em todos esses anos, você não conseguiu conquistar nem o coração do marido, nem o amor de um cachorro.
Ela deu um assobio curto. Totó subiu as escadas correndo e parou ao lado dela.
— Totó. — Alícia apontou o dedo na direção de Joana, o tom de voz cruel. — Pega ela. Morde!
O animal hesitou por uma fração de segundo, mas, instigado pelo comando firme da antiga dona, avançou e cravou os dentes na panturrilha de Joana. Pega de surpresa, ela soltou um gemido abafado de dor, o rosto perdendo a cor no mesmo instante.
Alícia soltou uma gargalhada carregada de satisfação.
— Viu só? Você não serve nem para criar um animal! E ainda tem a ilusão de que pode roubar o Luiz de mim? É melhor você desistir de uma vez por todas!
A dor aguda e a humilhação fizeram o corpo de Joana tremer de frio, mas ela mordeu o lábio inferior com tanta força que sentiu o gosto de sangue, recusando-se a soltar mais um som sequer. Ela ergueu a cabeça e fixou os olhos na agressora. O olhar era tão gélido que fez o sorriso de Alícia vacilar.
— Acho que esqueceram de te avisar, Alícia. — Joana começou, a voz assustadoramente calma. — As áreas comuns desta casa, incluindo os corredores e as escadas, têm câmeras de segurança funcionando vinte e quatro horas por dia, com gravação de áudio e vídeo. Se você pretende continuar sob este teto hoje e tentar reconquistar o Luiz, sugiro que pare de me provocar. Caso contrário, mostro as imagens para ele agora mesmo. Você acha que ele deixaria você ficar depois de ver isso?
O rosto de Alícia empalideceu.
Sem esperar por uma resposta, Joana deu as costas, entrou no quarto e trancou a porta. Caminhou mancando até a cômoda, pegou a caixa de primeiros socorros e se sentou na beira da cama para limpar o ferimento.
O antisséptico ardia como fogo na pele rasgada, mas a expressão dela continuava vazia, como se a dor não lhe pertencesse.
Depois de fazer o curativo, ela se deitou e fechou os olhos. Em outros tempos, ela estaria na cozinha preparando um copo de leite quente, esperando Luiz terminar de trabalhar para lhe desejar boa noite. Naquela noite, ela simplesmente dormiu.
No meio da madrugada, Joana despertou engasgada. Abriu os olhos e viu o quarto tomado por uma fumaça espessa e escura, que invadia seus pulmões e a fazia tossir sem parar. Desesperada, ela rolou da cama, rastejou até a porta e a escancarou. O corredor estava em chamas. A casa estava pegando fogo.
Apoiando-se na parede quente, ela tentou avançar passo a passo. Porém, a fumaça tóxica já havia cobrido sua visão. As pernas falharam e ela desabou no chão, sem forças. O piso de madeira ardia sob seu corpo. Ela tentou se arrastar, lutando pela vida, mas a exaustão a dominou.
Quando a escuridão começou a tomar conta de sua mente e ela aceitou que morreria ali, um vulto atravessou as chamas. Era Luiz!
Ele vestia apenas o pijama, o rosto manchado de fuligem, os olhos arregalados em pânico enquanto vasculhava o andar.
Uma faísca de esperança acendeu no peito de Joana. Ela tentou gritar o nome dele, mas a garganta queimada só emitiu um chiado inaudível. Com o resto de suas forças, esticou o braço, implorando em silêncio para ser vista.
Mas o olhar de Luiz passou direto por ela. Sem hesitar, ele correu em direção ao fundo do corredor, onde Totó estava encolhido em um canto, ganindo de pavor. O homem agarrou o cachorro nos braços, virou as costas e correu de volta para as escadas, desaparecendo no meio da fumaça sem sequer olhar para trás.
Caída no chão, assistindo à silhueta do marido sumir no meio do incêndio, Joana começou a rir. O riso fraco logo se misturou às lágrimas que escorriam por seu rosto sujo de fuligem. Ele havia entrado no fogo para salvar o cachorro.
"Para o Luiz, a minha vida vale menos do que a de um animal.", pensou ela, a mente finalmente mergulhando na escuridão.