Um silêncio pesado tomou conta da linha por longos segundos antes que a voz da funcionária do RH voltou a soar, carregada de incredulidade.
— Você está falando sério, Sra. Joana? Você sempre foi tão apaixonada por ele, abriu mão de tantas oportunidades brilhantes por causa desse casamento. Como pode desistir de tudo assim, de uma hora para outra?
Um sorriso melancólico despontou nos lábios de Joana enquanto ela balançava a cabeça, mesmo sabendo que a interlocutora não podia vê-la.
— A verdade é que eu não o amo mais.
Ao encerrar a chamada, ela encostou a cabeça no vidro frio do táxi e fechou os olhos, deixando-se levar pelo balanço do veículo.
Durante todos aqueles anos, não era segredo para ninguém o quanto ela venerava Luiz. Era um amor que a havia consumido por inteiro, fazendo com que ela perdesse a própria essência e se anulasse por completo. Mas a exaustão finalmente a havia vencido. Amar alguém cujo coração pertencia a outra pessoa era um fardo pesado demais para carregar.
As memórias a transportaram para os seus dezoito anos, no início da faculdade. Foi durante a cerimônia de boas-vindas aos calouros que ela o viu pela primeira vez. A luz do sol daquela manhã parecia emoldurar a figura de Luiz, que vestia uma camisa branca impecável e calças de alfaiataria escuras. No palco, ele irradiava a aura de um verdadeiro garoto de ouro, brilhante e inatingível. Quase todas as garotas na plateia suspiraram encantadas, e Joana não foi exceção. No entanto, ninguém ousava se aproximar. Todos sabiam que o coração dele tinha dona, que era Alícia Queirós, sua amiga de infância.
Alícia era o oposto dele. Caprichosa, dramática e dona de um temperamento explosivo, ela testava os limites de todos ao seu redor. Mesmo assim, Luiz a mimava e cedia aos seus caprichos com uma devoção cega. As pessoas costumavam dizer que ele era perdidamente apaixonado por ela. E, durante todo o tempo em que ele amou Alícia, Joana o amou em silêncio, escondida nas sombras.
Aquela dinâmica só mudou quando Alícia começou a fugir do altar. Não foi uma, nem duas vezes. Na primeira tentativa de casamento, ela alegou ser jovem demais. Na segunda, culpou o pânico pré-nupcial. Na terceira, disse que não sentia que Luiz a amava o suficiente. A humilhação se repetiu até a nona vez, quando, na véspera da cerimônia, ela fez uma ligação internacional.
— Luiz, andei pensando e cheguei à conclusão de que a minha liberdade vale mais. Vamos suspender o casamento por enquanto, está bem? Quero aproveitar a vida no exterior por uns anos!
Daquela vez, Luiz não foi atrás dela. Ele mergulhou em uma depressão profunda por um tempo, até que, cedendo à pressão da família, começou a ir a encontros arranjados. Conheceu várias mulheres, mas nenhuma passava do primeiro encontro.
Quando a notícia chegou aos ouvidos de Joana, seu coração disparou. Movendo céus e terra, ela conseguiu que amigos em comum arranjassem um encontro entre os dois. Movida por um impulso irracional, ela escolheu usar um vestido que era a cara de Alícia. Como esperado, assim que Luiz bateu os olhos nela, ficou paralisado. Ele a encarou por um longo tempo, imerso em pensamentos, até soltar a frase que mudaria a vida dela:
— Vamos nos casar.
Naquele instante, a euforia de Joana desmoronou. Ela sabia, com absoluta clareza, que ele não estava olhando para ela, mas sim para o fantasma da mulher que o havia abandonado. Ainda assim, ela aceitou. O amor que sentia era tão avassalador que a fazia aceitar qualquer migalha, contanto que pudesse permanecer ao lado dele.
Os cinco anos de casamento foram marcados por uma frieza educada. Luiz a tratava bem e nunca a deixou passar vontade de nada material, garantindo-lhe o status e o respeito que a posição de sua esposa exigia.
Mas Joana sabia que aquilo não era amor. Ele nunca a procurava por vontade própria. As raras vezes em que a tocava eram quando ela vestia roupas parecidas com as de Alícia. Naqueles momentos, ele a abraçava com o olhar perdido e sussurrava o nome da outra. Engolindo a própria dor, Joana fingia não ouvir.
Ela acreditou que passaria o resto da vida daquela forma, conformada com a sua realidade, até o dia em que Alícia decidiu voltar.
Joana estava no terceiro mês de uma gravidez delicada. Naquela tarde, uma dor aguda e repentina atingiu seu ventre. Enquanto se contorcia, tentando alcançar o telefone para chamar uma ambulância, a campainha tocou. Era Alícia.
— Então você é a famosa Joana? — Alícia a mediu dos pés à cabeça, o olhar transbordando desdém. — Fiquei sabendo que você aproveitou a minha ausência para roubar o meu lugar.
Pálida e suando frio pela dor lancinante, Joana não tinha forças para discutir. Seu único pensamento era chegar ao hospital. Ela tentou desviar da intrusa, mas Alícia bloqueou a passagem. No meio do empurra-empurra, tomada pelo desespero, Joana deu um empurrão na outra mulher. Alícia tropeçou para trás, bateu a cabeça na quina da porta e um filete de sangue escorreu pelo seu rosto.
A retaliação veio na mesma noite. Cego de raiva, Luiz a trancou no quarto de hóspedes, ignorando seus apelos.
A dor na barriga de Joana era insuportável, como se uma lâmina revirasse suas entranhas. Ela esmurrou a porta de madeira maciça até os nós dos dedos sangrarem, gritando em desespero:
— Luiz... me ajuda, por favor... o nosso bebê... salva o nosso filho!
Ninguém veio. Encolhida no chão frio, ela sentiu um líquido quente escorrer por suas pernas. Ao levar a mão trêmula ao local, viu os dedos manchados de um vermelho vivo. A dor e o terror foram tantos que ela perdeu a consciência. Quando abriu os olhos de novo, estava em um quarto de hospital. O bebê havia morrido.
Luiz estava parado ao lado da cama, os olhos carregados de uma culpa tardia.
— A culpa foi minha. — Ele murmurou, a voz rouca. — Quando você tiver alta, nós tentamos de novo, eu te dou outro filho. Mas entenda, se você não tivesse empurrado a Alícia, eu não teria te trancado. Ela tem um problema grave de coagulação, aquele empurrão quase custou a vida dela. Agi no calor do momento, estava desesperado. Posso compensar você...
Naquele momento, Joana começou a rir. Riu até as lágrimas transbordarem e escorrerem por seu rosto pálido.
— Luiz, que tipo de compensação você acha que pode pagar por uma vida?
Aquela foi a primeira e a última vez que ela chorou na frente dele. A partir daquele dia, algo dentro dela se apagou para sempre.
Em silêncio, ela preparou os papéis do divórcio e solicitou a transferência na empresa. O que ele e Alícia fariam dali para frente já não lhe dizia respeito. Afinal, o amor que sentia por ele havia morrido junto com o seu filho.