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Meu Ex é o Pai
Meu Ex é o Pai
Por: Geysielle Nunes
Melissa : A chance da minha vida

— É a oportunidade da nossa vida, Melissa.

Antony segura meus ombros e me sacode. Os olhos dele brilham.

— Já imaginou? A gente passa e entra direto numa novela da Globo. Ou numa série. Qualquer coisa.

Eu forço um sorriso.

Queria estar pulando igual ele. Mas tem o Marino.

— Eu sei — digo, ajeitando a alça do vestido. — Só... não fica tão animado, tá?

— Por quê?

Porque ele pode acabar com tudo antes de começar.

Não falo isso. Engulo, afinal, não quero acabar com sonho do meu amigo.

O Marino não precisa estar na sala pra pesar. O nome dele já ocupa espaço.

— Esquece — respondo. — Vamos passar o texto mais uma vez.

Antony bufa e me entrega o roteiro.

— Você é teimosa. Esse projeto de Robocop que você chama de namorado não tem poder aqui dentro não, amiga. Pra barrar você na Globo ele ia precisar ser dono do Projac.

Eu rio. Uma risada amarga.

Se ele soubesse o tamanho dos contatos do Marino...

Antony é fé pura. Ele acredita que tudo vai dar certo. A confiança dele me deixa boquiaberta. E com um pouco de vergonha. Porque eu já não acredito tanto assim.

A porta do estúdio abre.

Uma assistente de produção entra com um tablet na mão e cara de quem não tem tempo.

— Prontos? — ela olha pra nós dois. — Hoje quem vai assistir o teste de vocês é o diretor da Malhação.

Meu estômago embrulha.

— Eu sei que faz um tempo que não passa — ela continua. — Mas quem sabe com um casal jovem ele não se anime pra uma nova temporada. Só não se iludam. Ele também está escalando protagonistas pra outras três novelas. Então aproveitem. O palco é de vocês.

Ela sai.

Antony me puxa pela mão.

— Oração rápida?

A gente fecha os olhos.

Eu oro. Agradeço. E repreendo. Repreendo o Marino, o ciúme dele, o controle, a chance dele descobrir e me proibir de pisar aqui de novo.

Não quero mais viver dependente de ninguém. Muito menos dele.

Até hoje me pergunto o que eu vi nele. No começo era proteção. Agora é coleira.

Ele decide o que eu assisto. O que eu visto. Ontem brigou porque eu estava vendo uma reportagem sobre desaparecimento de mulheres.

— Isso é perigoso, Melissa. Não quero você envolvida.

Envolvida em quê? Eu nem tenho acesso a nada.

— Ação! — a voz da assistente corta meus pensamentos.

Subimos no palco.

Luz na cara. Calor. O cheiro de madeira e poeira.

E tudo some.

O Marino some. O medo some.

Só fica eu. E a Érica.

— Não acredito que você escondeu esse teste de gravidez de mim! — Antony, como Everton, avança pra cima de mim. — Eu sou o pai, Érica! Merecia no mínimo consideração!

Eu recuo. Queixo erguido.

A Érica não chora. A Érica morde.

— Por quê? — cuspo a palavra. — Se você deixou bem claro que não queria mais nada comigo. Qual era minha obrigação?

Dou um passo na direção dele.

— A gente não tem nada, Everton. Absolutamente nada. Então não me cobre.

Minha voz falha por um segundo. É de propósito. É raiva.

— E quer saber? Esse filho é meu. Então não adianta vir cheio de marra. Porque eu não tenho medo de você.

Abaixo o tom. Puro veneno.

— Começa abaixando a voz comigo.

Silêncio.

— Corta! — o diretor grita lá do fundo.

A gente para. Ofegante. Meu coração está na garganta.

O diretor levanta. Homem de uns 50 anos, boné, barba. Ele caminha até a beira do palco. Me encara. Encara o Antony.

E sorri.

— Se vocês não tivessem se apresentado como amigos — ele diz, devagar — eu ia jurar que são um casal.

Antony aperta minha mão por trás.

— Que química, meus caros. — o diretor b**e palma uma vez. — Nunca vi alguém se entregar tanto numa cena. E você, Melissa... parece até que convive com gente dessa personalidade.

O sangue gela.

Conviver?

— Parabéns. Vocês foram incríveis.

Eu engulo seco e sorrio ainda pensando na sua observação.

— Obrigada — digo. A voz sai mais fina do que eu queria. — Desde pequena eu sonho com isso. Quando o Antony me chamou pra fazer o teste, eu fiquei... muito feliz. Ter alguém que te apoia faz toda diferença nesse meio.

O diretor assente. Olha pro roteiro. Olha pra nós.

— Eu nunca vi nada igual — ele repete. — E eu tenho uma proposta pra fazer pra vocês.

O mundo para.

— Basta saber se vocês querem — ele completa.

Antony está segurando minha mão com tanta força que dói.

No desespero que estou, topo qualquer coisa. Qualquer migalha.

— Vão se trocar — o diretor ordena. — Na volta a gente conversa sobre os papéis que eu pensei pra cada um.

Ele faz uma pausa. Dramática. De propósito.

— Já adianto que é uma novela nova. Pra estreia de vocês... Vai ser maravilhoso.

Uma novela.

Será que é protagonista? Ou dublê? Ou 3 falas no capítulo 4? Não posso me animar. Não posso.

No camarim Antony fica andando de um lado pro outro.

— Você tá nervosa, né? — ele pergunta sem parar. — Para. Ele gostou da gente, mona. Nossa atuação foi perfeita. A gente ensaiou isso 40 vezes.

Ele para na minha frente.

— E sabe o que é melhor? — ele abaixa a voz. — É sua chance. De sair. Daquela casa. Daquele traste que você chama de namorado.

Antony me conhece desde os 15. Ele viu os sinais do Marino antes de mim.

— Você tem noção que estamos a um passo de trabalhar na Globo? — ele me sacode de novo. — Sorri, mulher. Vem. Vamos ver qual proposta é essa.

Voltamos pro estúdio. Pernas bambas. Coração na mão.

O diretor está sentado. Na mesa dele tem duas pastas azuis.

Ele levanta quando nos vê.

— Então... — ele abre os braços. — Meus futuros protagonistas.

O chão some.

Protagonistas?

— Espera — Antony fala primeiro, porque eu não consigo. — Você... tá brincando com a gente? Protagonistas?

O diretor ri.

— Sim. Vocês têm uma química absurda. Nada melhor do que manter o casal que vocês acabaram de fazer. Aquele olho no olho... é difícil de achar, até em ator com 20 anos de carreira.

Ele pega as pastas.

— Então me digam: aceitam? Porque eu vou mandar buscar uma cópia do roteiro agora.

Anestesiada. É assim que eu me sinto.

Antony responde por nós dois.

— A gente aceita!

Eu concordo com a cabeça. Em choque. Sem ar. Sem palavra.

É a nossa chance. A minha chance de...

Somos interrompidos por palmas.

Altas. Fortes. Vindo da porta dos fundos do estúdio.

Três homens. Ternos. Óculos escuros.

E no meio deles.

Marino.

— Posso saber qual o motivo de tanta comemoração?

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