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Melissa : Decisões

Ainda não acredito.

Pela primeira vez na vida eu encarei o Marino de frente. Sem tremer. Sem me preocupar com o que ia acontecer depois.

E o melhor: já assinei o contrato.

Minha mãe me ensinou uma coisa e eu nunca esqueço: "Filha, nunca assina nada sem ler. É regra de ouro."

Sendo filha única, ela tinha pavor de eu me ferrar no futuro.

Li cada linha. Cada vírgula.

E não consigo descrever a felicidade que está no meu peito agora.

Ninguém vai me impedir de realizar meu sonho de novo. Ninguém.

Se eu fosse do tipo que desiste no primeiro obstáculo, esse contrato não estaria na minha bolsa.

Foi a cláusula de rescisão que me deu esperança. Os valores são absurdos. Altíssimos.

Se alguém quiser sair de última hora, vai pagar caro.

Por mim, tudo bem.

Meu único medo era o Marino. Mas ele não pode fazer nada. Nada.

Pela primeira vez em muito tempo... eu me sinto livre.

— O que foi? — Antony me cutuca no banco do carro. — Você não falou nada desde que saímos do estúdio. Temos que comemorar isso!

Ele tem razão. Não é todo dia que a gente vira contratado da Globo.

É um sonho que foi muito além do que eu ousei imaginar pra mim.

— Devemos comemorar, sim — digo. — É questão de honra. Mas não hoje.

Olho pela janela.

— Você sabe que já arrumei problema suficiente com o Marino. Se eu sair pra comemorar agora...

Não é que eu ligue pra opinião dele.

É que algo dentro de mim mudou. Pela primeira vez eu sinto que tenho o controle da minha vida de volta. E não vou deixar escapar.

Eu quero viver. Quero batalhar pelo meu trabalho. Me entregar de corpo e alma.

Não é fama que eu quero. Se fosse só isso, eu tinha virado blogueirinha.

Hoje chamam qualquer um de "influencer". Basta prender as pessoas 15 segundos num vídeo.

Acho um absurdo. Mas cada cabeça, um mundo. Eu não vou decidir o que os outros gostam de assistir.

— Vamos comemorar hoje sim — Antony fala pro motorista. — Mudança de rota, por favor. Shopping mais próximo. A gente vai almoçar pra comemorar que o Brasil inteiro vai ver a gente na novela das nove!

Eu rio. Impossível não rir.

Ele tratando o motorista de aplicativo como se fosse nosso chofer particular. Só o Antony pra fazer isso.

Chegamos no shopping.

Antes do almoço a gente só andou pelas lojas. Fazia anos que eu não fazia isso.

Anos que eu não andava sem me preocupar com hora, com ligação, com "onde você está".

No meio da Renner trombamos com a Camila. Uma amiga do curso de teatro.

Ela estava com um bebê no colo. Um menininho lindo, dormindo.

Eu amo criança. É um dos sonhos que eu quero realizar no futuro.

Se as coisas fossem diferentes, talvez já tivesse realizado. Mas esse assunto fica pra depois.

— Amiga! — Antony me cutuca de novo. — Seus olhos brilharam quando viu o bebê. Não dá pra negar: sua outra paixão é criança. Você vai ser uma mãe incrível.

Fico sem graça.

Ser mãe parece tão distante da minha realidade agora.

Prefiro ser pé no chão. Pra não me frustrar depois.

— Quem sabe um dia, Antony — digo, sorrindo. — Talvez você seja padrinho. Mas agora esse assunto está fora de cogitação.

Ele começa a falar da minha vida. Da minha falta de atitude.

Que eu preciso me libertar pra ser feliz. Que enquanto eu estiver com alguém que corta minhas asas, eu nunca vou saber o que é felicidade de verdade.

Talvez hoje eu já tenha dado o primeiro passo. E ele nem percebeu.

Depois do shopping, sentamos pra almoçar.

Só aí eu peguei o celular na bolsa.

Como eu já esperava: 8 chamadas perdidas. 12 áudios do Marino.

Deve estar querendo saber onde eu estou. A essa hora ele já teria ido almoçar em casa.

Não vou responder. Ele paga uma empregada pra isso. Não precisa me perguntar.

Deixo pra conversar com ele mais tarde.

E se a conversa seguir o rumo que eu imagino... eu já sei qual decisão vou tomar.

Cheguei em casa às duas da tarde.

A empregada veio me receber na porta, apavorada.

— Dona Melissa, o patrão não parou de perguntar pela senhora. Até me xingou porque eu não soube dizer onde a senhora estava.

O amor cega a gente.

Como eu aguentei meses sendo controlada desse jeito? Como eu não vi isso antes?

Meus pensamentos são interrompidos pelo barulho da porta batendo. Forte.

Nem preciso olhar pra trás. Já sei quem é.

Ele saiu da empresa mais cedo só pra ver se eu já tinha chegado.

— Finalmente lembrou que tem casa — a voz dele vem gelada. — Achei que ia passar a noite com seu amiguinho Antony.

Se eu pudesse, teria passado. Ele é uma companhia mil vezes melhor do que a sua.

— Realmente — respondo, sem virar. — Ele me chamou pra uma balada. Mas eu não posso. Tenho cenas pra decorar. Não posso ficar até tarde bebendo, Marino.

Faço uma pausa.

— Aliás, o que você está fazendo em casa essa hora?

A conversa chegou onde eu queria.

Respiro fundo. É agora.

— Chega — digo. A voz sai firme. Mais firme do que eu imaginei. — Eu estou indo embora dessa casa. E da sua vida.

Viro pra ele. Olho no olho.

— Não tem mais motivo pro seu ciúme doentio.

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