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Melissa : Tentativa de assassinato

A primeira pessoa que vem à minha mente é o Antony.

Mesmo sabendo que posso estar metendo ele numa confusão tremenda.

Graças a Deus ele atende no segundo toque.

— Melissa? O que houve? — a voz dele está sonolenta, mas preocupada.

Não dou todos os detalhes. Muito menos que estou na garagem do meu prédio de calcinha e sutiã.

Só com a roupa do corpo e com o celular na mão. O celular que comprei com o meu dinheiro, porque se dependesse dele eu não teria nem isso.

— Preciso que você venha me buscar. Agora. — Minha voz sai trêmula. — Por favor.

Quando ele chega na garagem, fica abismado ao me ver escondida atrás de uma marquise.

Tremendo. Com os braços cruzados no peito.

Não podia ficar em lugar nenhum onde alguém pudesse me ver assim.

Humilhada. Essa é a palavra que me define hoje.

Se havia algum sentimento pelo Marino dentro de mim, a partir deste momento ele vira ódio.

Como o homem que dizia me amar me j**a no meio da rua com a roupa do corpo?

Porque ele só faltou me arrastar até a porta pra todo o prédio ver.

E se ele acha que prender todas as minhas coisas no apartamento dele vai me fazer mudar de opinião... coitado. Está muito enganado.

---

Na casa do Antony eu desabo.

Ele me dá uma toalha, uma camisa dele que serve como vestido em mim e me manda pro banho.

— Vai tomar um banho de água quente. Vou procurar uma camisa que te sirva — ele diz, sem fazer perguntas.

Agradeço. Por ter me acolhido. Por ter onde dormir. Qualquer coisa é melhor que a rua.

O Marino se aproveitou porque a minha mãe não está na cidade. Ele sabia que eu ia ficar desamparada.

Mas quem tem um amigo de verdade nunca fica sem teto e sem comida.

— Não se preocupa com roupa. Eu visto qualquer coisa, Antony. Amanhã a gente vê o que faz — digo, enquanto a água quente escorre por mim.

Droga. No momento eu tenho pouco dinheiro. Posso passar um tempo aqui com ele, mas não quero invadir a privacidade dele.

Vou ter que me virar. Pelo menos até a minha mãe voltar de viagem.

Lógico que não quero voltar a morar com a minha mãe. Sou uma mulher independente. Mas se for preciso... vai ser horrível.

A minha mãe é uma companhia perfeita, mas não quero preocupá-la. Não quero tomar a privacidade dela de novo.

Eu só quero um canto meu.

Como vou fazer isso, ainda não sei. Com as gravações da novela vai ser quase impossível arranjar um trabalho por fora.

E também não vamos receber agora. Só depois de um mês de trabalho. O prazo normal de qualquer empresa.

Deixo a água cair sobre o meu corpo. Tento acalmar a mente e o coração.

Mesmo tentando ser forte, aos poucos a ficha está caindo.

Toda a vida de princesa que eu sonhei nunca existiu.

Quer dizer... existiu. Mas só na minha cabeça.

Quando conheci o Marino, ele era o homem perfeito. Eu o conheci antes mesmo dele virar CEO.

Talvez eu tenha idealizado. Os defeitos dele sempre estiveram ali. Eu que me fiz de cega.

É normal a gente não querer enxergar quando ama alguém de todo o coração.

Minha mãe sempre dizia uma frase que antes não fazia sentido:

"O amor dói, filha."

Hoje eu entendo.

Dói saber que nunca conheci de fato o homem que eu amei.

Não sei por que tantos mistérios. Por que ele nunca quis que eu me aprofundasse nos casos das mulheres desaparecidas.

Estou começando a desconfiar que não sei de fato quem é o verdadeiro CEO Marino Magalhães.

Saio do banho. A camisa do Antony não ficou curta demais porque sou baixa.

Amanhã posso usá-la pra pelo menos comprar um par de roupas. É o que cabe no meu orçamento.

Tem água e sabão. Até poder comprar outras, vou me virar com o que tenho.

— Fiz chocolate quente pra gente — Antony aparece na porta com duas canecas. — Agora me conta. Por que aquele cretino te deixou só de calcinha e sutiã? Cadê suas coisas?

Faço um resumo da discussão. Evito dizer que o ciúme do Marino é exclusivamente por causa dele.

Apenas digo que não suportava mais viver daquele jeito. Que eu precisava tomar uma atitude.

— Decidi tomar as rédeas da minha vida de volta, Antony. Escutei seus conselhos. Finalmente.

Ele assente. "Antes tarde do que nunca. Amanhã de manhã vamos numa loja comprar algo pra você."

— Amigo, não se empolga. O pouco dinheiro que eu tenho mal dá pra comprar uma peça simples e me virar. Você sabe que com as gravações vai ser complicado arranjar um emprego por fora. Então tenho que economizar. Ainda mais sem poder contar com a ajuda da minha mãe agora.

No dia seguinte saímos cedo.

Pra minha surpresa, o Antony faz questão de me presentear com algumas roupas.

Em outro momento eu não teria aceitado, por orgulho.

Mas hoje eu só sinto gratidão. Pelo amigo que tenho.

Afinal, trabalhar todos os dias com apenas uma roupa seria impossível.

Quem tem um amigo mais chegado que um irmão tem tudo. Nem sei se amor de irmão é assim. Sempre fui filha única.

— Vou buscar o carro no estacionamento, Melissa. Me espera aqui com as sacolas — ele diz, saindo da loja.

Prefiro acompanhá-lo. Não sei por quê. Tenho a sensação de que estamos sendo seguidos.

Pode ser só paranoia da minha cabeça. Mas...

— Por que não ficou lá fora? As sacolas devem estar pesadas. Podia ter me esperado na frente da loja, como eu falei — ele reclama.

Mal escuto. O ar do estacionamento está pesado. Abafado. Como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento.

Levanto os olhos.

E reconheço.

Um dos seguranças do Marino. Do outro lado, entre os carros. Com a arma em punho. Mirando em nós.

Engulo em seco.

Pulo na frente do Antony no exato segundo em que escuto o disparo.

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