Isso não vai ficar assim.
Fico parado na sala. As mãos fechadas. O maxilar doendo de apertar.
E sorrio. Sozinho.
Se a Melissa acha que pode me descartar como se eu fosse nada só porque assinou um contrato, se ela pensa que vai se livrar de mim tão fácil... está muito enganada.
Ah, mas não vai mesmo.
Deixa ela sonhar. Deixa ela acreditar nessa falsa liberdade que comprou com uma assinatura e um advogado.
Se ela quer ir embora, eu não vou impedir. Não agora.
Tenho que manter a calma. Ser mais frio. Mais calculista do que nunca.
Porque a gatinha está querendo pôr as garras de fora.
Ela jura que eu vou ter medo. Que eu vou implorar.
Eu lido com pessoas difíceis todo dia. Com traficante. Com psicopatas meus negócios sempre aparece alguém descontrolado.
Medo de mulher eu não tenho.
Antes de dar qualquer passo, porém, preciso eliminar uma pessoa do meu caminho.
Tenho certeza absoluta de que essa atitude dela tem o dedo do Antony do início ao fim.
O sorriso dele. A forma como olhou pra ela na festa. A mensagem que apagou do celular dela semana passada.
— Pode ir embora. Mas agora você vai sair desse apartamento apenas com a roupa do corpo, Melissa — digo. A voz sai baixa. Fria. Cortante.
Ela para na porta com a mala na mão. Me olha incrédula.
Mesmo que a família dela tenha uma posição social razoável, ela nunca mais vai ter o padrão de vida que desfrutava aqui.
Ter uma empregada à disposição 24h. As melhores roupas. Joias que custam mais que um carro. Viagens. Cartão sem limite.
Eu dava tudo a ela. Em troca de obediência.
Duvido que encontre outro homem aos seus pés capaz de lhe proporcionar tantas regalias.
— Isso é um absurdo, Marino! Você não pode simplesmente me proibir de levar as minhas coisas! — ela grita. Os olhos enchem d'água. Teatro.
— Não só posso, como já estou fazendo.
Se ela quer brincar, precisa aprender quem dita as regras do jogo.
Agarro o braço dela. Forte o suficiente pra deixar marca. Arrasto até a porta.
Ela se debate. "Me solta!"
Não queria ir embora? Então vamos ver se é tão corajosa assim saindo apenas com a roupa do corpo.
Aliás, nem com a roupa.
Viro ela bruscamente pra mim. O vestidinho solto, tomara que caia, rasga na minha mão. O som do tecido rasgando é alto.
Ela grita. Tenta se cobrir. Tarde.
— Você só pode ter ficado louco de vez! Como eu vou sair no meio da rua dessa maneira, Marino?! — ela chora. Desesperada. Humilhada.
Não respondo.
Empurro. A porta b**e. Tranco.
Quero ver até onde vai a coragem dela.
Henriqueta está na cozinha. Me olha espantada. Faz 8 anos que ela trabalha aqui. Já deveria estar acostumada comigo.
Saio da sala antes que ela resolva me dar sermão. Amo o serviço dela. Detesto quando acha que pode me aconselhar.
— Senhor... Vai me desculpar, porém não posso ficar calada — ela diz. Me segue até o quarto. As chinelas dela arrastam no piso.
Ótimo. Minha cabeça já está cheia.
— Henriqueta. Volte pra cozinha. Só fale comigo o estritamente necessário.
Ela não obedece. Por que mulheres nunca obedecem?
— O senhor vai me desculpar, mas o que acabou de fazer foi desumano.
Finjo que não ouço. Abro a gaveta. Tiro a arma. Checo o carregador. Gosto de deixar ela por perto. Nunca se sabe, faz alguns meses que conseguir o porte de arma, ser empresário tem os seus contras, ainda mais quando se é o CEO da empresa.
Preciso pensar.
Já mandei mensagem pros meus seguranças particulares 5 minutos atrás: _Sigam ela. 24h. Me digam pra onde vai e com quem fala._
Eu a deixei só de roupa íntima. Sei o perigo que essa cidade é.
Mas preciso saber pra quem ela correu primeiro. Preciso ver as cartas na mesa.
Henriqueta continua parada na porta. "Ela é uma menina boa, senhor Marino."
— Henriqueta! — viro pra ela. — Última vez. Cozinha.
Ela baixa os olhos. Sai. Finalmente.
Entro no banho. A água quente desce e não apaga a raiva.
Queria relaxar com a minha mulher. Mas ela preferiu fugir.
O celular vibra no mármore. Mensagem dos seguranças:
_Ela está na garagem. Falou com o porteiro. Um carro vai entrar._
Claro. Contrato assinado há 2 dias. Ela não quer escândalo. Quer sair pela porta dos fundos.
Respondo: _Sigam todos os passos. Escala mais 2 pra minha escolta. Discreto. Ela não pode perceber._
Me visto. Camisa preta. Calça. A foto chega 10 minutos depois.
Abro.
O sangue sobe pra cabeça em 1 segundo.
Antony.
O maldito desceu do carro. Todo solícito. Colocou o próprio casaco nos ombros dela. Ajeitou o cabelo dela. Sorriu.
Jogo o abajur contra o espelho. O vidro estilhaça. Corta minha mão. Não sinto.
— Eu sabia — cuspo. — Sabia que tinha o dedo dele.
Amanhã ele some.
Quem me atrapalha não fica vivo pra contar.
Por que acham que tenho uma carreira de 15 anos no mundo dos negócios? Por ser bonzinho? Por ser honesto?
Não.
Antes de ser CEO eu era um simples assessor. E aprendi rápido: se você não for esperto, alguém mais ligeiro vive a vida que era pra ser sua.
Se você não age, outro age por você.
Antony jura que não gosta de mulher. Que é "só amigo".
Mentira. É fachada. Ele quer ela. Quer me tirar o que é meu e enfiar ela na casa dele como troféu.
Não vai acontecer.
Pego o celular. Ligo pros seguranças.
— Preciso do Peixoto. Agora.
Eles sabem quem é. O policial que resolve as coisas sem perguntar. Basta ver a cor das notas.
O telefone toca. Número privado.
Atendo. "Fala."
— Marino. O que houve? — a voz dele é grossa. Cansada.
Mando a foto do Antony ajudando a Melissa. "Quero o sujeito da foto morto. De preferência transformado em cinzas. Sem ligação comigo."
Silêncio do outro lado. Depois: "Quanto?"
"50. Metade agora."
"Feito. 48 horas."
Desligo.
Encosto na parede. A mão ainda sangra do vidro.
Melissa acha que ganhou. Acha que com um advogado e um contrato ela está livre.
Ela não entende.
Eu não perco.
Eu não divido.
E eu não esqueço.
Se ela quer guerra, ela vai ter.
E o primeiro a cair é o Antony.
Depois... depois eu vou buscar minha mulher de volta.
Mesmo que eu tenha que arrastar ela de volta pra essa casa de calcinha e sutiã.
Porque aqui é o lugar dela.
Do meu lado.
Onde eu decido.