Mundo de ficçãoIniciar sessãoALEXANDER
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O silêncio dentro da cobertura era insuportável. Pesado. Doentio. Parecia que cada parede do Laure Residence carregava os fantasmas da mulher que eu havia perdido.
Parei diante do enorme retrato de Madeleine pendurado na parede do meu escritório e senti o meu peito apertar outra vez. Ela estava sorrindo na fotografia. Sempre sorrindo.
Os cabelos castanhos perfeitamente alinhados sobre os ombros, os olhos suaves e aquela expressão delicada que fazia qualquer um acreditar que ela era intocável. Perfeita. Boa demais para um homem como eu.
Passei a mão pelo rosto cansado enquanto observava a imagem.
Talvez Deus realmente existisse. E talvez estivesse me punindo, porque eu sabia exatamente quantas pessoas destruí durante minha vida. Quantas vezes escolhi meus próprios desejos acima de tudo. Mas havia apenas uma pessoa cuja dor realmente me assombrava. Dominik...
Fechei os olhos com força.
“Droga.”
Até pensar no nome dela ainda me destruía.
Desabei em minha poltrona de couro. Peguei a garrafa de conhaque sobre a mesa e levei diretamente à boca. O líquido queimou minha garganta violentamente, mas eu já nem sentia mais diferença entre estar sóbrio ou bêbado.
Tudo dentro de mim estava anestesiado desde a morte de Madeleine. Ou talvez... Muito antes disso.
— Com licença, Sr. Foster.
A voz de Thomas interrompeu meus pensamentos. Sorvi o restante do conhaque antes de girar lentamente a cadeira em direção à porta.
Thomas permanecia parado na entrada do escritório usando seu habitual terno preto impecável. Segurança pessoal, motorista, mordomo... fazia praticamente tudo dentro daquela cobertura. E provavelmente estava cansado de me ver afundando dia após dia.
— O que foi agora? — perguntei rouco.
Ele hesitou brevemente.
— A Sra. Wilkinson está aqui.
Franzi o cenho imediatamente.
“Lydia?”
O choque foi suficiente para cortar parte da névoa alcoólica da minha mente.
Fazia cinco anos. Cinco anos desde a última vez que nos falamos decentemente. Cinco anos desde que eu me afastei completamente do mundo BDSM. Cinco anos desde que escolhi Madeleine... e abandonei todo o resto. Inclusive Dominik.
Passei a mão pelos cabelos bagunçados.
— Mande-a entrar.
Thomas assentiu e desapareceu.
Olhei ao redor do escritório tentando ignorar o estado deplorável em que eu me encontrava. Garrafas vazias. Papéis espalhados. Cortinas fechadas. O cheiro de álcool impregnado no ambiente. Aquilo era ridículo. Eu parecia um homem esperando morrer.
Poucos segundos depois, Lydia entrou. Elegante como sempre. Vestindo um conjunto bege sofisticado, saltos altos e aquele olhar severo que ela costumava usar quando alguém quebrava regras dentro do clube.
Os olhos dela percorreram rapidamente o escritório antes de finalmente pousarem em mim. E então veio o julgamento silencioso.
— Quando soube do que estava acontecendo aqui, precisei ver pessoalmente — ela disse, aproximando-se devagar.
Forcei um sorriso torto.
— Quem foi o fofoqueiro? Thomas ou a Sra. Collins?
— Isso importa?
Ela parou diante da mesa. Próxima o suficiente para perceber o cheiro forte de álcool vindo de mim.
— Você está destruindo a si mesmo, Alexander.
Soltei uma risada amarga.
— Que observadora.
Lydia ignorou meu sarcasmo e deu a volta na mesa.
— Venha comigo.
Ela segurou meu braço tentando me levantar da cadeira. Mas no instante em que senti aquele gesto familiar... Eu desabei. Passei os braços pela cintura dela impulsivamente e escondi o rosto contra sua barriga. Como uma droga de criança quebrada.
Eu odiava aquilo. Odiava demonstrar fraqueza. Mas eu estava cansado demais para fingir. As lágrimas vieram outra vez. Quentes. Humilhantes.
— Por que eu nunca consigo ser feliz? — murmurei entre os dentes.
Minha voz saiu falha. Patética.
Lydia permaneceu em silêncio por alguns segundos enquanto acariciava meus cabelos como fazia anos atrás, quando ainda era minha Mentora.
— Porque você insiste em fugir de si mesmo — ela respondeu baixo.
Fechei os olhos com força. Ela tentou me erguer novamente e dessa vez não resisti. Deixei que me conduzisse para fora do escritório. Meu corpo estava pesado. Minha cabeça parecia prestes a explodir. Lydia praticamente me arrastou até o quarto principal da cobertura.
— Tire essa roupa e vá tomar um banho.
Revirei os olhos.
— Lydia...
— Agora, Alexander.
Ainda existia autoridade suficiente naquela voz para me fazer obedecer sem discutir.
Entrei no banheiro tropeçando levemente e deixei a água gelada cair sobre meu corpo. O choque térmico arrancou um palavrão baixo dos meus lábios. Mas funcionou. A névoa alcoólica começou a diminuir lentamente.
Minutos depois, quando saí do box enrolado apenas em uma toalha, Lydia já me esperava do lado de fora segurando um copo d’água e comprimidos. Como nos velhos tempos.
— Tome.
Obedeci em silêncio. Ela observou até eu engolir os remédios. Então apontou para a cama.
— Sente-se. Precisamos conversar.
Suspirei pesadamente enquanto me jogava na beirada do colchão king size.
— Se veio me dar sermão, escolheu o pior dia possível. Não estou com saco para isso.
Lydia sentou-se ao meu lado.
— Não vim te julgar.
Virei o rosto para encará-la.
— Então por que veio?
Pela primeira vez desde que entrou ali, a expressão dela suavizou.
— Porque estou preocupada com você.
Aquilo me pegou desprevenido. Lydia raramente demonstrava emoções daquela forma. Ela segurou minha mão lentamente.
— Você não pode continuar enterrado dentro desse apartamento, Alexander. Sua empresa precisa de você. Sua família precisa de você. — Ela apertou levemente meus dedos. — Eu preciso do meu amigo de volta.
Desviei o olhar imediatamente.
Cinco anos. Cinco malditos anos afastado daquele mundo. Dos encontros. Das festas privadas. Dos clubes. Do BDSM.
Madeleine odiava aquilo. Ela nunca conseguiu aceitar completamente aquela parte de mim. E eu tentei mudar. Tentei ser o marido perfeito. O homem normal. Mas homens como eu nunca eram normais.
— Você era feliz naquele mundo — Lydia continuou. — Volte a ser um Dominador.
Uma risada seca escapou da minha garganta.
— Acho que não consigo mais.
Ela franziu levemente a testa.
— Por causa da Madeleine?
Fechei os olhos por um instante.
— Por causa da Dominik.
O silêncio caiu imediatamente sobre o quarto. Até Lydia pareceu surpresa pela honestidade brutal daquela resposta. Passei as mãos pelo rosto cansado.
— Depois do que aconteceu entre nós… eu nunca mais consegui ser o mesmo.
As lembranças vieram violentamente. Dominik ajoelhada diante de mim. Os olhos brilhando confiança absoluta. Entregando-se completamente. E eu destruindo tudo. Porque homens quebrados sempre destroem as pessoas que mais amam.
— Tentei seguir em frente — continuei. — Tentei com a Samantha... mas não funcionou.
Lydia soltou lentamente minha mão antes de se levantar.
— Espere aqui.
Observei-a sair do quarto confuso. Alguns minutos depois, levantei-me e fui até o closet trocar de roupa. Precisava parecer minimamente apresentável.
Quando retornei ao quarto, Lydia estava voltando segurando sua agenda pessoal. Meu estômago apertou imediatamente. Ela arrancou uma folha e escreveu algo rapidamente. Então estendeu o papel para mim.
— Tenho a sensação de que vou me arrepender disso.
Peguei o papel devagar. Era um endereço.
— O que é isso?
Lydia cruzou os braços.
— Dominik estará nesse evento esta noite.
Meu coração parou. Literalmente. Por alguns segundos fui incapaz de respirar direito.
— Você está brincando comigo?
— Não estou.
Voltei a olhar o endereço. Era em Seattle. Uma festa privada. Dominik. Depois de cinco anos... Cinco malditos anos.
Lydia aproximou-se novamente.
— Vocês precisam conversar. Resolver o passado. Mesmo que seja para seguir caminhos separados depois disso.
Engoli em seco. Minha mente já estava um caos.
— Dominik trabalha com o quê hoje?
Lydia hesitou brevemente.
— Ela é designer de interiores.
Assenti devagar.
Aquilo fazia sentido. Dominik sempre teve talento artístico. Mas Lydia ainda não havia terminado.
— E também trabalha como acompanhante de luxo em alguns eventos.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
— Uau… de submissa a prostituta de luxo. Que evolução.
O olhar de Lydia endureceu instantaneamente.
— Não faça isso.
— Estou apenas dizendo a verdade — retruquei.
— Não. Está tentando fugir da culpa.
Ela aproximou-se perigosamente.
— Quem a viciou em prazer, submissão e intensidade foi você.
As palavras dela me atingiram como um soco.
— Se Dominik está onde está hoje… boa parte da culpa é sua.
Desviei o olhar imediatamente, porque ela estava certa. Lydia respirou fundo tentando recuperar a calma.
— Preciso ir. Tenho um jantar de noivado daqui a pouco.
Antes de sair do quarto, ela apontou para a cama.
— Descanse pelo menos uma hora antes de sair. Você ainda está bêbado.
Revirei os olhos.
— Sim, senhora.
Ela sorriu de lado pela primeira vez naquela noite, então foi embora. Fiquei sozinho outra vez, mas agora tudo estava pior, porque Dominik voltara a existir dentro da minha cabeça de forma impossível de ignorar.
Deitei-me na cama encarando o teto.
“O que eu diria para ela quando a encontrasse?”
“Desculpa por destruir você?”
“Desculpa por escolher outra mulher?”
“Desculpa por fugir como um covarde?”
Nada parecia suficiente.
Acabei adormecendo por algum tempo. Quando acordei, já estava quase em cima da hora do evento. Levantei rapidamente e comecei a me arrumar.
Terno preto. Relógio. Perfume... Então coloquei a máscara invisível da calmaria. A mesma que sempre usei a vida inteira para esconder o caos dentro de mim.
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A festa já estava lotada quando cheguei à mansão. Assim que informei meu nome na entrada, o segurança confirmou imediatamente que eu estava na lista de convidados. Lydia planejara tudo.
Entrei no salão observando as pessoas ao redor. Música clássica. Champanhe caro. Milionários sorrindo falsamente. Mulheres lindas vendendo versões aperfeiçoadas de si mesmas. O ambiente perfeito para homens perigosos. Então comecei a procurá-la.
Meu coração batia forte demais. Até que a vi do outro lado do salão.
Por um instante não tive certeza. Ela estava diferente. Mais mulher. Mais sofisticada. Mais perigosa. O cabelo agora se encontrava loiro. Mas então ela sorriu para alguém... E eu soube imediatamente. Porque nenhum homem no mundo esqueceria aquele sorriso.
Dominik. Minha Dominik...
Meu corpo inteiro enrijeceu. Ela estava absurdamente linda. O vestido preto abraçava cada curva do corpo dela de forma pecaminosa. E havia um homem ao lado dela. Mais velho que eu. Rico. Tocando sua cintura como se tivesse direito sobre ela.
Um ciúme violento queimou meu peito. Mas eu não tinha direito algum de sentir aquilo.
Observei enquanto ela se afastava acompanhada de outras duas mulheres, então minhas pernas começaram a andar sozinhas em direção a ela.
Eu precisava falar com Dominik. Precisava. Mas então... Ela olhou para mim. E o mundo inteiro pareceu parar. Nossos olhos se encontraram através do salão lotado. Meu coração quase saiu pela boca.
Dominik congelou. E eu também.
Cinco anos desapareceram naquele único segundo. Todas as memórias voltaram violentamente. As noites. Os gemidos. Os olhos dela implorando por mim. O jeito como me amava.
Assim que ela desviou o olhar por um segundo, virei-me rapidamente e saí do seu campo de visão. Como um covarde. Depois de uns minutos, criei coragem e retornei ao salão. Nossos olhares se prenderam novamente um no outro como planetas em órbitas de colisão.
E então veio a culpa. Pesada. Sufocante. Humilhante. Eu queria ir até ela. Queria dizer tudo. Mas não consegui dar um passo à frente. Porque no fundo sabia: Eu não merecia sequer olhar para Dominik outra vez.







